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FHC: é absurdo reduzir mensalão a caixa 2

10 set 2012
11h02
atualizado às 11h39
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O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que é absurdo o argumento utilizado pela defesa de réus do julgamento do mensalão de reduzir as denúncias a 'caixa 2'. FHC saudou a postura da presidente Dilma Roussef de se manter distante do tema e afirmou que ela não deve ser atingida em caso de condenação dos réus. "Culpa não pode haver por contágio". No entanto, ele alerta que o partido da presidente pode ser impactado nas urnas. "O PT sempre disse que era puro".

FHC sobre o mensalão : "absurdo é considerar caixa 2"

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Em entrevista exclusiva ao Terra, Fernando Henrique também respondeu a acusações de corrupção que ainda pairam sobre o seu governo. "Não tem uma ação no tribunal. Todas as que foram ao tribunal, não foram aceitas, porque não eram verdadeiras", diz o ex-presidente. "Aqui não. O que está acontecendo agora é que os juízes estão dizendo que houve. É diferente".

No dia 3 de setembro, Fernando Henrique recebeu uma equipe do Terra para uma entrevista exclusiva em sua residência na zona sul de São Paulo. Um apartamento amplo, mas sóbrio, tal qual a figura de seu ilustre proprietário. Durante uma hora, o ex-presidente falou sobre sua participação no The Elders, o mensalão, a presidência de Dilma Roussef, a descriminalização das drogas e como lida com a idade, entre outros temas.

Confira trecho da conversa do Terra com o Fernando Henrique Cardoso, em que ele fala sobre a sua relação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu atual papel no PSDB:

Terra - Em relação ao ex-presidente Lula, ambos estiveram juntos em muitos momentos e depois se criou uma rivalidade. O senhor acha que essa rivalidade foi importante para ambos?
Fernando Henrique Cardoso - Eu acho que em certos momentos foi desnecessária. Eu não tenho atitudes agressivas, o Lula às vezes tem. Mas quando estamos juntos, até hoje, conversamos normalmente. Acho que poderíamos ter tido um pensamento mais no futuro do Brasil. Em certos momentos poderíamos ter tido, e até hoje, um diálogo mais franco, menos orientado pelas rivalidades partidárias. Mas você vê pelas atitudes do Lula hoje, é quase impossível, porque ele está lá na luta do dia-a-dia, como se fosse um militante, sem pensar na perspectiva mais ampla, mais histórica.

Terra - Em temos partidários, essa questão de ter ponto e contraponto, foi importante para os dois se elegerem?
FHC - Certamente, certamente acho que sim. Mas para você se eleger em um país grande como o Brasil, você precisa não só dos seus partidários, você precisa de uma visão maior. Nós dois tivemos a chance de nos elegermos. A rivalidade não é uma boa expressão. Há diferença de opiniões políticas e essas diferenças devem ser expressas. Democracia existe quando há diversidade de opinião e liberdade de expressá-las. Eu não concordo com uma porção de coisas que o Lula diz ou faz, e provavelmente a recíproca é verdadeira. Então é normal que a gente expresse, mas isso não deve ser feito de modo que a ofender pessoalmente nem a cortar a relação de civilidade. Eu procuro essa relação de civilidade.

Terra - Com relação ao seu partido. O senhor ainda tem participação direta nas escolhas do partido ou é mais um elder dentro do PSDB?
FHC - Eu sou mais elder dentro do PSDB do que estou ativo no dia-a-dia. Certamente tenho partido, opino pelo partido. Mas eu tenho certa noção de que já fui presidente, isso traz uma certa responsabilidade para além do limite do partido.

Terra - Em relação ao mensalão, o senhor acha que o efeito moral, simbólico do julgamento vai ser mais importante que o efeito prático?
FHC - Acho, acho que sim. Pode ter efeito prático. Pelo que eu estou vendo dos juízes, alguns serão condenados, já foram até. E isso também tem a sua importância. Agora, porque todo mundo está olhando para o que está acontecendo no Supremo Tribunal Federal? Deveria ser uma coisa banal. Se você é acusado de ter feito uma prática delituosa, é julgado. Só isso. Isso em uma democracia normal não é nada, é o dia-a-dia. É que é tão inusitado julgar, mais ainda condenar, pessoas de projeção política que o mensalão passou a ser um marco. Isso é um bom sinal e um mau sinal. Mau sinal porque parece que até hoje no Brasil não houve nada.

O absurdo maior no mensalão é considerar como caixa 2, como se caixa 2 não fosse crime. Como se fosse normal. 'Ah não, foi só caixa 2'. O que é isso? Caixa 2 é o uso do poder econômico por baixo dos panos para afetar o resultado de eleição. É grave. Sim, a decisão do tribunal, qualquer que ela seja - sei lá quem vai ser condenado...-, vai ter um efeito importante. Já teve.

Terra - Por que em outros julgamentos de casos de corrupção não houve esse evento que se tornou o mensalão?
FHC - Porque o mensalão é muito grave. Pegou gente que está no governo tratando de organizar mecanismos de passagem de dinheiro para que outras pessoas apoiem o governo. Não é só o que já é muito grave, que é o caixa 2, teve mais que o caixa 2. E isso é muito grave. Claro que é uma coisa que precisaria ser submetida ao tribunal. Não é um fato inusitado. A corrupção sempre existiu, é verdade. Mas quando a corrupção aparece sob alguma proteção do Estado ou do governo, é mais grave. E quando ela se generaliza, é gravíssima.

E como o senhor lidava com as denúncias de corrupção em seu governo?
FHC - De modo muito simples, se tem denúncia de corrupção, vai para a Justiça. Mas que denúncia de corrupção no meu governo subsistiu? Falaram muito das teles (privatizadas durante o governo FHC), o que aconteceu? Não tem uma ação no tribunal. Todas as que foram ao tribunal, não foram aceitas, porque não eram verdadeiras. O leilão das teles. O que aconteceu? Foi para tribunal, nada. Todo mundo absolvido. Nem absolvido, muitas vezes o tribunal nem levou em consideração porque a denúncia era montada. Houve alguma ou outra corrupção? Deve ter havido. O procurador acusa, vai lá e vê o que aconteceu. Mas nunca houve um caso em que você dissesse que eu estivesse metido ou que o governo estivesse protegendo. Nada disso. O que houve era tudo montagem. Aqui não. O que está acontecendo agora é que os juízes estão dizendo que houve. É diferente.

Terra - E como o senhor acha que esse julgamento pode respingar no governo Dilma?
FHC - A Dilma tem guardado a distância prudente e conveniente. Culpa não pode haver por contágio. Se outro pratica, você não é responsável por isso. As pessoas não podem ser imputadas porque alguém do seu partido fez alguma coisa errada ou alguém do seu governo fez alguma coisa errada. Você não é responsável, a menos que você saiba e não tenha tomado medidas. Essa ideia de responsabilidade por contágio é totalitária, não é democrática. Então eu acho que a presidente Dilma em si não tem nada com assunto. O PT pode pagar um preço, porque tinha muita gente do PT envolvida, porque o PT sempre disse que ele era puro, que os outros é que eram impuros.

Terra - Como o senhor avalia o governo Dilma até o momento?
FHC - É cedo para avaliar. Eu acho que esse negócio de governo você tem que deixar o tempo passar para saber o que ele fez mesmo. Eu poderia dar vários exemplos de coisas boas e coisas más, como em todo o governo, mas a avaliação do governo depende basicamente de que a perspectiva permita você avaliar qual é o legado. Ela está em pleno exercício, é cedo para dizer.

Fonte: Terra
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