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Em funeral, Janene foi "purificado" no rito islâmico

Repórter do Terra acompanhou, à época, velório e enterro do ex-deputado; figuras denunciadas futuramente na operação Lava Jato compareceram

20 mai 2015
20h25
atualizado em 21/5/2015 às 11h03
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Lá se vão quase cinco anos desde que ele morreu, mas o ex-deputado federal José Janene (ex-PP-PR) parece que não vai deixar o imaginário político, muito menos o noticiário, tão cedo.

Denunciado no escândalo do mensalão como operador central do esquema, Janene voltou a ter o nome citado em (outro) escândalo de corrupção, nesta quarta-feira, por conta da operação Lava Jato. Isso porque o presidente da CPI da Petrobras na Câmara Federal, Hugo Motta (PMDB-PB), anunciou que pediria, por meio de um requerimento, a exumação do corpo do ex-deputado porque teria recebido informações de que a viúva, Stael Janene, desconfiaria que ele estivesse vivo. Mais tarde, a empresária negou a ilação, por meio de nota.

Cobri o velório e o enterro do ex-deputado, em setembro de 2010, à época como repórter de política do jornal “Folha de Londrina”. Ali, Janene já era velho conhecido dos colegas setoristas não apenas pelas dezenas de ações do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) em um escândalo de corrupção local, conhecido como AMA-Comurb – referente a fraudes em licitações durante a terceira gestão (1997­2000) do ex-prefeito Antonio Belinati (PP) –, como pelo destaque que o nome dele ganhava em cada desdobramento da denúncia do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), feita em junho de 2005, sobre o pagamento da mesada a parlamentares da base aliada de Lula.

José Janene aguardava por um transplante de coração havia três meses, quando morreu, em setembro de 2010
José Janene aguardava por um transplante de coração havia três meses, quando morreu, em setembro de 2010
Foto: Câmara dos Deputados / Divulgação

Também era notória entre a imprensa paranaense a cardiopatia que exigia de Janene um tratamento minucioso e que, já em 2006, em meio ao risco de processo de cassação do mandato, embasou o pedido de aposentadoria por invalidez atendido pela Câmara.

A notícia de que o ex-deputado havia morrido veio logo cedo. Era 15 de setembro de 2010, e a informação, confirmada pelo Instituto do Coração (Incor) de São Paulo, não representava algo exatamente improvável: Janene estava internado havia 42 dias na instituição paulistana para a troca de um “cardiodesfibrilador implantável” e, “em consequência de evolução de quadro de choque séptico'', segundo o hospital, não resistira. Em fevereiro do mesmo ano, já havia sido internado em Londrina, em estado grave, por conta de um acidente vascular cerebral (AVC).

Natural de Santo Inácio, região noroeste do Paraná, Janene, morto com 55 anos, era portador de insuficiência cardíaca congestiva grave (grau IV) e estava inscrito em fila de espera há três meses para um transplante de coração.

O enterro e o sepultamento foram realizados no Cemitério Islâmico de Londrina. Políticos da região e do Estado compareceram – entre os quais, o hoje ex-deputado federal André Vargas (ex-PT), preso por conta da operação Lava Jato e considerado na região uma espécie de herdeiro dos votos de Janene pelo interior do Estado. Também denunciado na Lava Jato, o então líder do PP na Câmara, o hoje ex-deputado João Pizzolatti (SC), também foi ao velório – a exemplo do então prefeito, Barbosa Neto (PDT), que decretou luto oficial de três dias e, dois anos depois, seria cassado pela Câmara de Vereadores por mau uso de verbas públicas.

O funeral de Janene seguiu o rito islâmico. Segundo as orientações passadas à época pelas lideranças religiosas da mesquita Rei Faiçal, onde foi velado o corpo, ele seria submetido a um processo de purificação que consistia na limpeza e na envoltura do morto em “três tecidos brancos, virgens e sem costura”. Todo o tempo, portanto, a imagem do corpo na cerimônia estava isolada por essa mortalha. O enterro, sem caixão, foi feito com a cabeça direcionada à cidade de Meca, considerada sagrada pelos muçulmanos.

Lembro que um dos xeiques que conduziram a cerimônia fez um breve sermão citando a mortalha branca como símbolo de que ''não levamos nada deste mundo”. “Eterna é a vida futura, então, cuidado com as tuas ações, adora a Deus e cuida dos teus semelhantes'', declarara. Outro xeique me explicaria, depois: ''Familiares e riquezas são valores mundanos; é pelas ações que a pessoa será questionada, no julgamento”.

Um jovem presente com frequência ao legislativo local, de origem simples e deficiente mental, chegou a ser retirado da cerimônia depois de um pequeno tumulto: tentara se lançar à cova do ex-deputado chamando-o de “meu amigo”. Afastado, visivelmente magoado, recordo-me que ele xingou os presentes mencionando a origem árabe da família Janene. Foi o único episódio que, por assim dizer, extrapolou o rito.

 

Fonte: Terra
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