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"Sou meu adversário agora", diz prefeito eleito de Curitiba

1 nov 2012
08h22
Roger Pereira
Direto de Curitiba

Eleito com o discurso de "mudança segura", o futuro prefeito de Curitiba, Gustavo Fruet (PDT), sabe que terá que responder, na administração municipal, às expectativas criadas pelos eleitores que o levaram à vitória, quebrando uma sequência de 24 anos de reeleições ou eleição do candidato apoiado pelo então prefeito, o que manteve um mesmo grupo político no poder na capital paranaense neste período. Ex-frequentador deste mesmo grupo político, mas, agora, aliado ao PT, Fruet disse também, em entrevista ao Terra, que não fará um governo ideológico, que atuará objetivamente na resolução dos problemas da cidade.

Em foto de arquivo, o prefeito eleito, Gustavo Fruet (PDT), participa de passeata na capital paranaense
Em foto de arquivo, o prefeito eleito, Gustavo Fruet (PDT), participa de passeata na capital paranaense
Foto: Divulgação

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O prefeito eleito, que já colocou uma equipe de transição para trabalhar, disse ainda que pretende concluir a grande maioria dos projetos iniciados pelo atual prefeito, Luciano Ducci (PSB), mas que quer a revisão de um deles em especial, o metrô de Curitiba. Por isso, Fruet já pediu a Ducci que não lance, até o final do ano, o edital para a licitação das obras do metrô. Confira a entrevista do futuro prefeito de Curitiba, que ainda comentou sua aliança com o PT, a virada que conseguiu na disputa eleitoral e o cenário para as eleições estaduais em 2014.

Terra - Até 2010 o senhor estava no PSDB, teve dois mandatos na Câmara dos Deputados marcados pela atuação na oposição ao governo Lula. Dois anos depois, está eleito prefeito de Curitiba pelo PDT, em coligação com o PT. Como foi esse processo? Que lições tirou dele?

Gustavo Fruet - Passada a eleição para o Senado (em 2010), que teve um lado bonito, foi emocionante a campanha, a votação foi excepcional, mas faltou um pouquinho, eu vi como faz falta uma estrutura e quanto pesa uma pesquisa e o comprometimento no mundo da política quando a gente pensa em fidelidade partidária. Essa foi a primeira lição. Depois, recusei convite para participar do governo do Estado e pedi para assumir a presidência da comissão provisória do PSDB em Curitiba. Nunca pedi ao governador (Beto Richa ¿ PSDB), ou a quem quer que seja, o compromisso em ser o candidato a prefeito em 2012. Era um processo a ser conquistado, eu iria trabalhar para isso, e a presidência do PSDB municipal seria importante para eu ter espaço para apresentar minha pré-candidatura. Houve esse compromisso, mas houve um veto, do então presidente do PSDB, o ex-vereador João Cláudio Derosso, que, um ano depois, renuncia à presidência da Câmara, sai do PSDB e tem o mandato cassado.

Essa foi a segunda lição: uma vitória eleitoral não pode deixar a gente achar que está acima do bem e do mal, ou que pode tudo, não pode. Terceiro ponto: tive que buscar um caminho, o que serviu para mostrar que não se constrói um trajetória sem contradição, e, até, sem um pouco de dor. Não se faz política em linha reta. Fiz a opção pelo PDT, e, o grande desafio, depois, foi buscar alianças, com mais uma lição: a de que não se constrói um projeto desses sozinho, isolado. Construímos uma aliança com o PV numa conversa muito boa, e fiz o diálogo com o PT. E aí ficou essa questão nacional muito provocada. Eu senti muito no primeiro turno, fui muito cobrado pela aliança, mas consegui o envolvimento das lideranças locais do PT de forma ostensiva. É por isso que sou muito grato aos ministros Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo, que assumiram, lideraram esse processo e procuraram contribuir para chegarmos ao final do primeiro turno. No segundo turno, mudou o cenário, a campanha começou diferente, já tinha uma expectativa de vitória e a primeira pesquisa basicamente se confirmou. Aí mais uma lição do primeiro turno: não desanimar nunca.

Terra - A sua aliança com o PT foi muito criticada durante a campanha e deverá continuar sendo criticada pela oposição durante seu mandato, uma vez que foi apontada como uma ¿aliança de conveniência¿ apenas para levar o senhor e o PT à Prefeitura de Curitiba, onde nunca estiveram. Que papel o PT terá em seu governo?

Fruet - Vamos separar o que é crítica política do que foi uma campanha covarde e maldosa. Segundo, em momento algum houve condição para participação e ter determinado espaço. Vou dialogar agora com o PT e espero dialogar institucionalmente com o partido, não com correntes. E a vice vai ter papel importante nessa intermediação. Agora, todos nós temos que ter consciência que ou a gente monta uma equipe que tenha como prioridade pessoas com perfil político técnico, ou a gente vai montar uma equipe para, proporcionalmente, acomodarmos os partidos. Assim, todos perdemos. Eu sou o meu adversário agora, eu vou ser julgado pelo êxito ou não dessa gestão. E todos ganharão ou perderão pelo resultado que a população espera. A população deu uma demonstração de que não é o tamanho da coligação e nem uma questão nacional que define uma eleição local.

Terra - O senhor foi eleito com o voto de dois tipos diferentes de eleitor. O seu eleitor tradicional, que já votou no Gustavo Fruet para vereador, deputado federal e senador. E o eleitor do PT. Esses dois eleitores pensam diferente e têm expectativas diferentes de seu governo. Como agradar a ambos?

Fruet - É verdade, mas não é tão simples assim, não são só esses dois perfis de leitores. Insisto que a eleição local não é eleição ideológica. Acho que teve sim o eleitor que é contrário ao PT, mas de alguma maneira, absorveu, e alguns que não votaram, não adianta, não aceitaram a aliança. E tem o eleitor ideológico, que admira o PT que, talvez, não entrou de forma entusiasmada, principalmente no primeiro turno, mas que no segundo turno tiveram uma participação mais intensa. Mas o grande público não é assim, é muito mais por uma identificação pessoal com os candidatos apresentados. O segundo turno deixou muito claro isso. O eleitor no primeiro turno, e isso é uma lição também, de alguma maneira já observou o perfil dos outros candidatos. Acho que não dá para ter uma regra. Senão a gente tem uma conclusão e tenta depois apenas achar um argumento para justificar essa conclusão. Não se agrada a todos, agora, não quero ser um prefeito ideológico, quero ser um prefeito para a cidade.

Terra - De favorito antes do início da campanha, o senhor caiu para terceiro colocado logo nos primeiros dias de rádio e TV e só viu a distância para os líderes aumentar até a última semana, quando reagiu e chegou ao segundo turno com uma virada que nenhum instituto de pesquisa previu. Depois, no segundo turno, já largou na frente do candidato mais votado anteriormente e manteve a vantagem. Qual foi o segredo da virada?

Fruet - Nunca desistir. Fiz uma campanha muito difícil, sem estrutura, muita gente se afastou no primeiro turno, mas eu fui para a rua, e isso me faz bem. E chegou um momento, também, principalmente com os debates, mas também nas entrevistas e no programa eleitoral, que tomei uma postura mais incisiva. E isso foi um divisor, quando assumi e deixei claro algumas posições. Pois o único ponto de contestação a nossa candidatura foi a aliança. Mas eu insisto que isso não foi crítica política, pois distribuíram vários tipos de panfletos anônimos, dizendo que eu estava aliado com corruptos, fizeram milhares de ligações para as casas das pessoas, contando mentiras para a população. E isso tudo gerou uma suspeição, mas chegou um momento que a gente teve que enfrentar isso.

E passei isso também no segundo turno, inclusive com a utilização de um veículo de comunicação, uma concessão pública, na campanha. Nunca pedi a censura, mas é bom deixar claro. E a imprensa também tem que ter uma postura mais crítica em relação às pesquisas. Entender que pesquisa não é verdade absoluta, parar com essa história de santificar, ou fazer análise como se a eleição já estivesse decidida, entender que há outros movimentos que influenciam no resultado da eleição e que não são detectados. Nunca disse que houve má fé nas pesquisas, mas, por alguma razão de metodologia, não detectou. E também essa questão ética em relação ao comportamento de alguns veículos, em especial, quando o dono de um veículo é candidato numa cidade como Curitiba.

Terra - O senhor já chegou ao TRE, domingo, minutos depois de ser eleito, com o coordenador de sua equipe de transição nomeado. Qual será o papel dessa equipe?

Fruet - Cuidar de questões básicas para que a cidade não sofra interrupção de obras, de serviços e de projetos em andamento. Equipe de manutenção, como se dará o diálogo com a prefeitura, a questão do orçamento, a questão financeira, a questão de receita. Saber da estrutura da prefeitura, projetos que já forma iniciados, que já forma encaminhados, ou que precisam ser apresentados ainda neste ano, ver em que fase está a questão do metrô, a questão do potencial construtivo para a obra da Arena da Baixada, a linha verde, algumas coisas que, apesar de a gente acessar as informações públicas, não conseguiu os detalhes. Então é uma equipe pequena, técnica, de competência e de confiança, apenas quatro pessoas, o Fábio Scatolin, que coordenou o programa de governo, a Gina paladino, que já tem experiência em gestão pública, a Eleonora Fruet, que já conhece a estrutura da prefeitura e vou indicar um procurador do município, para que acompanhe essa questão legal, jurídica, da transição. E claro, a partir da posse, as mudanças que vão ser feitas.

Terra - Também disse já ter um plano para os 100 primeiros dias de governo. Quais serão essas primeiras medidas?

Fruet - Transporte, saúde e segurança, são as questões prioritárias nesse início, mas já apontar algumas mudanças. O primeiro ano será muito difícil, mas já precisará de ações nessas áreas, como o aumento da frota e o desalinhamento das estações no transporte público, num investimento de R$ 200 milhões que aumentará a velocidade e a capacidade de passageiros em um terço e a contratação de novos médicos para a abertura por mais tempo das unidades de saúde.

Terra - O senhor disse que pedirá ao prefeito Luciano Ducci (PSB) que não lance neste ano o edital de licitação do metrô de Curitiba. Por quê?

Fruet - Até agora, só houve uma audiência pública, não foi apresentado o edital. Então acho que é uma questão prudente, faltando dois meses para a transição, que não se apresente o edital. Eu pretendo fazer novas audiências, ter mais esclarecimentos. Essa é uma questão técnica, não é de gosto pessoal. Isso seria autoritário da minha parte. Porque se eu defendo um sistema, eu teria que explicar como. A cidade tem que entender qual vai ser o custo, a equação econômico financeira, quanto vai ser a tarifa, qual vai ser o percurso, qual o modelo, quanto tempo vai levar e como fica o sistema atual. Então isso tem que ser muito bem fundamentado e muito bem explicado. Então, por uma questão de prudência, já faz mais de um ano que o governo federal colocou á disposição de Curitiba R$ 1 bilhão. Foi realizada uma audiência pública. É sinal de que precisa ser melhor analisado.

Terra - Durante a campanha, a área de Educação foi apresentada como a "menina dos olhos" de seu programa. Que transformações teremos na área nos próximos quatro anos?

Fruet - É uma obra que não é material, é imaterial. E não é quatro anos. Se a gente conseguir estabelecer um padrão, os futuros gestores só tendem a ampliar. Isso é um fator de transformação. Curitiba marca pelo planejamento físico, mas esse é planejamento humano. E isso passa por ampliação de investimentos. Vamos aplicar 30% do Orçamento em Educação. Recuperar algumas áreas que têm uma pressão muito grande, como as vagas de creche, mas trabalhar os recursos principalmente na capacitação, ampliação e qualificação de um sistema igual, com a mesma estrutura em toda a cidade. Curitiba tem bons indicadores e é sinal de que tem uma ambiente favorável, mas precisa investimento.

Terra - No segundo turno, sua candidatura teve o apoio de 25 dos 38 vereadores eleito. O candidato Ratinho Júnior (PSC) disse que o PSC não fará oposição. Já são mais seis. Governar sem oposição não é um risco?

Fruet - Não é bom mesmo. Mas não é só questão de bancada de oposição. Na própria situação deve haver fiscalização. Isso a gente tem que aprender também na democracia, eu vi no Congresso. Não é 8 ou 80. A gente não pode acreditar que oposição seja só de inimigos e querer que a situação fique de cordeirinho. Isso é um erro. Eu acho que as pessoas também mudaram, os vereadores sabem do desafio, assumem depois de uma Câmara investigada, sabem que a cobrança vai ser muito maior. Então, não quero nenhum inimigo e nenhum cordeirinho nessa relação com o Legislativo. Quero diálogo e uma relação de respeito com a Câmara. Já fui vereador, entendo que é importante respeitar a instituição e entendo que todos nós, depois do que passou a Câmara, depois do julgamento do mensalão, temos que saber que certos hábitos não se aceitam mais na vida política do país.

Terra - Depois de um segundo turno com muitos ataques, o senhor e o Ratinho Júnior terminaram a campanha trocando elogios. Que relação espera ter com ele daqui para a frente e que avaliação faz do desempenho político dele? Surgiu uma nova força política no Paraná?

Fruet - Demonstrou força, chegou no segundo turno. Eu sempre destaquei a importância e respeitei a história dele. Acho que ,antes da eleição, alguns analistas desprezaram o potencial dele. Porque é latente que há um sentimento de carência de líderes políticos na cidade, o Paraná e no Brasil. E o Ratinho demonstrou uma forte representação e ele passa, no bom sentido, a ter responsabilidade também sobre o futuro de Curitiba. Por isso, é muito importante que, no âmbito do Congresso Nacional, ele se torne um aliado dos projetos para Curitiba. O segundo ponto que destaquei, é que quero encontrar aquele Ratinho do primeiro turno, que é o mesmo que eu conheci no Congresso. Aquele perfil de ataque, de desqualificação, não é o perfil dele. E deu para ver que ele não ficou à vontade com algumas posições que sua campanha adotou, tanto que mudou o comportamento no último debate. A gente não precisava chegar, talvez, a tanto, mas é sinal de que ele tem um perfil e a gente não muda isso. Então, eu quero ter esse diálogo e acho que agente não vive acumulando mágoa e ressentimento. A eleição é uma pancadaria, tem que ter uma paciência extrema. Acho que posso até ir para o Tibet agora, porque desenvolvi uma capacidade de autocontrole que achei que não seria capaz. Mas, se agente não tiver capacidade de absorver isso e pensar para frente, não dá, é melhor não fazer política.

Terra - Embora o senhor tenha declarado que seja um erro querer, logo após o resultado de uma eleição, já projetar a próxima, como acha que fica o quadro político para 2014. As derrotas dos candidatos do governador Beto Richa (PSDB) em Curitiba e Londrina podem reequilibrar as forças políticas no Estado?

Fruet - Reequlibra sim. Mas quando digo um erro é que é o risco da precipitação se projetar com esses resultados o que pode ocorrer em 2014. Quem diria em 2010, com a vitória para o governo, que o PSDB chegaria neste ano sem candidato nas principais cidades do Estado? Ou, mais, que o governador, com seu apoio, não teria elegido os candidatos nas duas cidades mais importantes do Estado. Então, achar, que em função desta derrota, já temos um outro vitorioso em 2014, é sim um erro. A própria Gleisi Hoffmann, que nos ajudou muito nesse processo, deixou claro que vai avaliar, estudar o cenário para 2014. Não se pode desprezar o poder de articulação de um governo do Estado. Não é fugir do assunto. Mas é muito simples terminar a eleição, estar ainda digerindo o resultado e querer dizer o que vai acontecer lá na frente. E a população dá recado. Ela não votou para 2014. Ela votou a eleição local. O arranjo político para 2014 será outro. Então, esse cuidado, a gente tem que ter. É claro que eu tenho já essa proximidade com a Gleisi. E ela constitui, hoje, um pólo importantíssimo na política do Paraná, mas é precipitado apontar isso como sentença, sob pena de, lá na frente, haver essa cobrança.

Terra - Mas esta aliança deverá se repetir daqui a dois anos?

Fruet - Agora vai depender muito do cenário. O PDT passa, também pelo Osmar Dias, que é nosso presidente nacional. O PV, na figura de sua presidente, deputada Rosane Ferreira, passa, também a ser uma força política estadual. Mas toda essa aliança foi construída, principalmente no segundo turno, para uma questão local. Então, eu tomo esse cuidado porque, talvez, uma declaração agora pode parecer uma arrogância ou antecipar um debate que não está acontecendo ainda.

Terra - E a relação com o governador Beto Richa (PSDB). Tanto o senhor quanto ele já disseram que seria irresponsabilidade não dialogarem agora. Haverá reconciliação?

Fruet - Mas a conversa não será política. Agora a gente é gestor, eu sou líder de uma cidade. Curitiba precisa de diálogo com o governo do Estado e com o governo federal. Então, ou a gente tem maturidade para esse diálogo, com uma postura civilizada, ou não adianta, vai ser uma questão de permanente conflito. Isso pode ser engraçado, mas todos perdem. Esse diálogo não significa alinhamento político.

Fonte: Especial para Terra
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