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Serra em campanha: maratona de viagens até a segunda derrota

1 nov 2010
12h39
Marcela Rocha
Direto de São Paulo

Neste domingo (31) foi sacramentada a segunda derrota de José Serra (PSDB) em sua tentativa de ser presidente da República. O tucano foi vencido pela candidata governista Dilma Rousseff (PT) por uma diferença aproximada de 12 milhões de votos. Foi a terceira derrota consecutiva do PSDB na disputa presidencial - Geraldo Alckmin perdeu para Lula em 2006 - mas para seu partido, o ex-prefeito da capital e ex-governador de São Paulo era o melhor candidato devido ao seu histórico na vida pública.

Serra foi deputado, senador, ministro, prefeito e governador. Desde 2005 ele não anda de carro sem ser oficial. No domingo do segundo turno, Serra votou e foi almoçar no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, com familiares e aliados: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador Alberto Goldman (PSDB), o candidato a vice Índio da Costa, o prefeito Gilberto Kassab (DEM), o senador eleito pelo PSDB de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira, e o ex-ministro e atual secretário da Educação paulista, Paulo Renato. Em seguida, foi para a casa de um amigo descansar e aguardar a apuração dos votos.

O que passou pela cabeça do ansioso político nas horas de espera até a confirmação do resultado negativo? E mais: O que ele fará daqui em diante? No Executivo, Serra foi de prefeito a presidenciável com uma escala no governo de São Paulo. Mas sempre teve em mente o Palácio da Alvorada. "Desde criança eu queria ser presidente", afirmou logo no começo da corrida presidencial de 2010. Esta é a segunda vez que ele concorre ao cargo. A primeira foi em 2002, contra Luiz Inácio Lula da Silva, que saiu vitorioso. Os tucanos terminaram a campanha de 2002 mergulhados em dívidas, e Serra voltou aos Estados Unidos, onde deu aulas.

Durante o primeiro e segundo turno desta campanha de 2010, Serra, assim como previsto desde o início, fez várias viagens relâmpago. Visitava mais de uma cidade por dia, quando não mais de um Estado. Contou com o apoio de seus antigos seguranças e assessores dos Bandeirantes - o que lhe é permitido por lei.

Em cada viagem, havia uma estrutura preparada para levá-lo e recebê-lo. Os assessores precursores chegavam antes e listavam os políticos presentes, dignos de receberem cumprimentos no discurso a ser feito pelo candidato. Os seguranças, que muitas vezes viajaram a lugares onde Serra acabou não aparecendo, faziam previamente os percursos para verificar a estrutura necessária para garantir o sucesso da caminhada ou carreata do presidenciável.

A escolha do transporte variava de acordo com o horário ou a previsão do tempo. Em algumas cidades, o pôr do sol era um inimigo do piloto. Muitas agendas foram aceleradas: "vamos que não dá para decolar depois das 17 horas", dizia o capitão da equipe de seguranças.

"Ele foi um guerreiro", disse Geraldo Alckmin neste domingo de segundo turno, após cravar 45 e seguir para a casa de Serra. O governador eleito por São Paulo vocalizara o que pensam os aliados. Vitorioso ou não, ninguém questiona o empenho do candidato ao longo da campanha.

De 6 de julho, início da campanha, até o dia 30 deste mês, Serra percorreu 124 municípios do país. Poucas horas de sono, alimentação nada balanceada: "sempre como uma banana, que tem muito potássio", disse Serra em Minas Gerais, no seu último dia de batalha. No avião que teve à sua disposição ao longo de toda a campanha, cedido pelo colega Ronaldo Cezar Coelho, sempre havia uma cesta de frutas à sua espera. As prediletas de Serra eram as peras, além das bananas.

Marido da ex-bailarina Monica Allende, na correria da campanha Serra só teve chance para mostrar seus dotes de dançarino em rápidas performances de "ah moleque". Em Manaus, achou ânimo para fazer body-jump ao lado do então candidato à reeleição do Senado, Arthur Virgílio (AM). Ao som de música eletrônica, os tucanos pularam sobre uma mini cama elástica e fizeram a alegria dos fotógrafos e cinegrafistas.

Confiante até o último minuto, Serra não sucumbiu aos números cada vez mais desfarováveis apresentados pelas pesquisas de intenção de voto no final do segundo turno. Algumas vezes se irritou quando questionado, e depois passou a questionar os institutos de pesquisa.

"Batalha desigual". Foi assim que o candidato resumiu os sete meses de disputa com a governista Dilma Rousseff (PT). Os tucanos dizem que não previam o que chamam de "aparelhamento da máquina estatal" feita, segundo eles, em excesso pelos petistas em favor de sua candidata. Esperavam que houvesse, mas não na intensidade em que ocorreu.

O script original da campanha posicionava o PSDB como um partido moderno e liberal, mas Serra entrou no segundo turno esbravejando contra a descriminalização do aborto ao lado de pastores e bispos conservadores, postura referendada pelo Papa Bento XVI a três dias da votação. O tema foi motivo de embates entre os adversários. Os tucanos tentaram centrar fogo na mudança de opinião da petista que, em 2007, defendeu a descriminalização, e em 2010, recuou pela manutenção da legislação vigente. O assunto tomou proporções que ambos os lados não esperavam. Cessaram os ataques e a aposta de campanha mudou.

Dilma trouxe então o assunto Paulo Preto, ex-diretor do Dersa e responsável pelas principais obras viárias de São Paulo. Ele foi acusado por uma matéria da revista IstoÉ de ter recolhido financiamento para a campanha e não ter entregue ao setor financeiro de Serra. Para tucanos, os petistas conseguiram atribuir pesos equivalentes a esta denúncia e à queda da ex-ministra e ex-braço direito de Dilma na Casa Civil, Erenice Guerra, acusada de tráfico de influência. O PSDB acredita que sem os escândalos que envolveram Erenice e seus familiares, Serra não teria chegado ao segundo turno.

Acontece, então, um novo fato: Serra é agredido com um objeto lançado na sua cabeça durante tensa caminhada em Campo Grande, no Rio de Janeiro. O fato ganha dimensões nacionais: o presidente Lula acusa os tucanos de simularem o ataque. Enquanto o PT tentou colocar o foco na contestação da agressão, o PSDB centrou fogo, segundo integrantes do partido, no direito de ir e vir e na falta de decoro do presidente da República. A campanha, então, decidiu aumentar os ataques contra Lula que, segundo serristas, deixou claro no episódio que "passou do ponto".

A resposta da petista à nova postura dos tucanos veio em seu último dia de campanha: "não há ninguém nesse País que vá me separar do presidente Lula".

Serra durante campanha em Suzano
Serra durante campanha em Suzano
Foto: Reinaldo Marques / Terra
Fonte: Terra Magazine
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