
- Cirilo Junior
- Direto do Rio de Janeiro
O trabalho à frente da CPI que detalhou a estrutura e as ações das milícias, policiais e bombeiros que dominam e subjugam moradores de algumas áreas do Rio de Janeiro, credenciaram o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) à disputa pela prefeitura da capital fluminense.
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Alvo de mais de 30 ameaças de morte, atribuídas a milicianos insatisfeitos com sua participação na CPI, Freixo inspirou até personagem de filme, o ativista dos diretos humanos Diogo Fraga, de "Tropa de Elite 2". Preferido por artistas e intelectuais, como Chico Buarque e Caetano Veloso, o niteroiense de 45 anos garante que não vai fazer alianças para ganhar a qualquer custo e é taxativo sobre trocas de interesses para obter benefícios eleitorais. "O tempo de TV não pode comprar a vergonha da minha cara. O tempo de TV não pode comprar o meu sentido. Não pode contrariar a minha história. Não abro mão dos princípios e dos valores que fizeram a minha vida pública até agora."
O Terra abre nesta quarta-feira a série de entrevistas com os candidatos a prefeito do Rio de Janeiro. Foram convidados os pretendentes ao cargo que obtiveram 1% na pesquisa Datafolha, divulgada no dia 21 de julho. Nesta quinta-feira, será a vez da candidata do PV, Aspásia Camargo.
A seguir, confira os principais trechos da entrevista com Freixo:
Terra - Por que o eleitor deve optar pela candidatura Freixo?
Marcelo Freixo - A gente oferece o Rio de Janeiro para que ele possa ter acesso ao Rio de Janeiro. Para que ele possa participar das decisões mais importantes da cidade, para que ele possa ser consultado. Hoje não existe nenhum canal de participação efetiva das pessoas nas decisões públicas nos setores mais estratégicos, mais importantes. A gente vive um processo de cidadania do aplauso, como se o Rio fosse um grande palco, de um grande evento, e que vivêssemos a era do espetáculo. Gostamos muito dos shows, dos eventos, mas não queremos uma cidade que esteja apenas preparada para os eventos, que esteja preparada para o seu dia a dia. A cidade tem que ser pensada para as pessoas.
Terra - Quais as principais mazelas da cidade?
Freixo - Hoje, o Rio é belíssimo, todos gostam, mas segundo o ministério da Saúde, o Rio é a pior capital em termos de atendimento na saúde pública. Foi a única capital com epidemia de dengue. Foi a única com aumento dos casos de tuberculose. A educação pública é uma tragédia. Na rede municipal, temos as melhores e as piores escolas públicas, do município do Rio. Isso é grave também. Na área de segurança pública, hoje vive-se um processo muito grave de morte de jovens por armas de fogo, e ao mesmo tempo, o município tem uma responsabilidade gigantesca com as UPPs sociais, que estão muito precarizadas. As UPPs têm dado sinal de crise, e umas das razões é o investimento pequeno nas UPPs sociais.
A área de transportes no Rio é uma catástrofe, com o metrô mais caro e o pior metrô do país. Pode-se dizer que o metrô é estadual, mas se pegar a promessa de campanha do Eduardo Paes há quatro anos, umas das coisas que ele prometeu era ajudar o governo do Estado na linha quatro do metrô, no projeto original. Exatamente o contrário do que está se fazendo hoje. É um debate importante que o município tem que interferir, porque, por mais que o metrô seja estadual, que usa o metrô é o morador do Rio. Tem um sistema de ônibus muito ruim, porque o Rio tem um poder público completamente entregue a algumas corporações econômicas e financeiras. Uma delas são os empresários de ônibus, que fazem o que querem com o transporte público do Rio. Uma licitação feita em 2010, já na gestão do Eduardo Paes, é muito suspeita e deveria ser revista. Uma falta de transparência absurda em relação a planilhas e do próprio sistema de transporte rodoviário, uma insistência no modelo rodoviário.
Terra - Como o senhor classificaria a administração Eduardo Paes?
Freixo - É uma agência de negócios. Negócios não necessariamente lícitos, está à mercê do interesse de algumas corporações.
Terra - Quais os pontos mais fortes e os mais fracos no prefeito?
Freixo - Ele é uma pessoa que trabalha, uma pessoa que está presente. Mas ele não garante o interesse público. Ele é muito avesso à democracia, é muito autoritário. Tem a ver com sua origem, inclusive, já que ele foi estagiário do Ricardo Teixeira.
Terra - Copa e Olimpíada são bem-vindos?
Freixo - São bem vindos, desde que sejam diferentes do Pan Americano. O que nós ganhamos do Pan? Não dá para falar em Engenhão. Tive o cuidado de circular perto do Engenhão em dia de jogo. O entorno do Engenhão é uma vergonha. E aquilo é a cara maior do que restou do Pan. O Pan teve 95% dos gastos oriundos de recursos públicos. O que a cidade ganhou no Pan? Não ganhamos nada. Foi o evento pelo evento para ganhar lucratividade. As corporações envolvidas nas obras, no evento, lucraram. A cidade não ganhou nada. Uma cidade tem que ser boa para a Olimpíada a partir do momento em que ela seja boa para seus moradores que vão receber o evento. Não pode fazer o trânsito funcionar só nos dias de Olimpíada. Tem que trazer melhorias estruturais para quem vive no Rio. Os recursos que o Rio está recebendo, fruto desse calendário, são grandes. Mas esses recursos não podem ser para alimentar o ralo da corrupção e para enriquecer meia dúzia de agentes privados de determinadas corporações.
Terra - Existe algum exemplo disso?
Freixo - O Maracanã e suas seguidas reformas são um exemplo disso. Inclusive, o atual prefeito era o secretário de Esportes quando foi feita uma reforma, em 2007, que tinha previsão de R$ 65 milhões, e que custou R$ 300 milhões. E agora foi todo destruído, para uma nova reforma que vai custar R$ 1,2 bilhão. Isso não é calendário esportivo. É calendário de empreiteira. O poder público tem que se levantar e não permitir. Mas não só o poder público, hoje, permite, como é um agente desse negócio. A prefeitura e o governo do Estado, fisicamente, viraram espaço de agência dessas negociatas.
Terra - O senhor não vai aceitar doações de grandes empresas?
Freixo - De empresário de ônibus, de empreiteira, de banqueiro, não.
Terra - Como será a estratégia de campanha, com poucos recursos, tempo de TV?
Freixo - Vai ser uma campanha de rua e de rede. Campanha com muitos jovens, com muita gente que está de saco cheio dessa lógica da casa dos horrores, dessas alianças espúrias para distribuir cargos, para não ter programa, não ter projeto, financiado por dinheiro sujo. É uma campanha com propostas concretas, feitas a partir de ampla participação das pessoas. Tem vários grupos hoje, de vários setores, para muito além do Psol, participando. Gente do PT, do PDT, que está com a gente. Não tenho a direção do PT, que está preocupada com cargos, em apertar a mão do Maluf. Mas eu tenho militantes do PT.
Terra - Sem essas alianças, o tempo de TV fica bem pequeno. E hoje ele é fundamental numa eleição, não?
Freixo - Não tenho, mas o tempo de TV não pode comprar a vergonha da minha cara. O tempo de TV não pode comprar o meu sentido. Não pode contrariar a minha história. Não pode. Não abro mão dos princípios e dos valores que fizeram a minha vida pública até agora.
Terra - É possível ganhar e governar sem compor com outros partidos?
Freixo - Nossa maior aliança é com a sociedade civil. E ela não me faz ter que distribuir cargos antes de ganhar uma eleição. Mas se eu for eleito prefeito, não tenha a menor dúvida que vou chamar o PDT, o PT, partidos com tradição de esquerda, que vou chamar um programa que vai ser vitorioso. Vou chamar para que governemos juntos. Tenho total abertura para chamar os partidos que têm uma história de esquerda, que podem se aproximar desse programa, para governar junto com a gente. E virão, não tenho a menor dúvida.
Terra - O senhor tem a pecha de ser um candidato com discurso e perfil que mais agrada à zona sul, que concentra os eleitores com mais escolaridade e maior renda. Como chegar a outras áreas?
Freixo - Fui o segundo deputado estadual mais votado em 2010, com 177 mil votos. Em várias áreas de milícias, fui o segundo mais votado. Porque era um voto também de resistência. Do Méier, zona norte, ao Leblon, zona sul, fui o mais votado no Rio. Fui um dos mais votados na Tijuca. Temos capilaridade. Temos sido procurados por várias pessoas da zona norte e da zona oeste, porque tem a questão do enfrentamento e a milícia. É uma bandeira muito forte e legítima da gente, e que é um debate absolutamente popular. E vamos fazer esse debate da milícia como uma questão municipal, que é. Nos setores formadores de opinião, temos uma votação muito consolidada, mas temos instrumentos, a partir de movimentos sociais e populares, para debater outras questões. Agora, não temos centros sociais, não vamos usar a máquina, não vamos comprar voto. Se para ser popular, vai precisar disso, a gente está fora. Para ter voto popular tem que ter isso? Esses instrumentos nós não temos, e não queremos ter. Vamos disputar os votos mais populares fazendo o debate da política, e indo para esses lugares.
Terra - O senhor vai fazer campanha na zona oeste, em áreas de milícias? Sendo uma pessoa ameaçada de morte pelas milícias, o senhor vai reforçar ainda mais sua segurança?
Freixo - Sim, teremos que ter cuidados. Vou à zona oeste, vou para todos os lugares. Esse não é um problema meu, é um problema do Rio. Não posso tratar a milícia como problema particular, porque não é. Não tenho nenhum problema particular com a milícia. É um problema do Rio de Janeiro. Se tem uma candidatura que não pode ir para determinados lugares, esse é um problema do Estado do Rio.
Terra - Mas há comunidades dominadas em que é mais difícil fazer campanha...
Freixo - Claro. Para todos os candidatos. Tem complicações para todo mundo. Na zona oeste, por exemplo, é muito complicado ter um comitê, porque torna muito vulneráveis as pessoas que estão ali. Isso não quer dizer que não vá ter campanha. Mas nossos comitês serão casas de pessoas cedidas. Como é que vou pegar, na zona oeste, a casa que alguém cedeu e colocar a vida dessa pessoa em risco? Esse tipo de cuidado vou ter que ter.
Terra - O senhor tem sofrido ameaças, recebido recados para não fazer campanha em determinadas áreas?
Freixo - Não chegou a esse ponto. Nunca recebi ameaça direta. Todas as ameaças foram comunicadas a mim pelo serviço de inteligência da secretaria de segurança ou pelo Disque-Denúncia. Foram muitas as denúncias, mais de 30 ameaças concretas, algumas com requintes de detalhes, sobre onde eu andava, onde eu almoçava. Mas nunca diretamente a mim.
Terra - O senhor chegou a sair do país por 15 dias, em novembro do ano passado, quando as denúncias se intensificaram. Ao mesmo tempo, surgiu uma outra versão que dava conta que o senhor foi ao exterior como convidado pela Anistia Internacional a fazer palestras. O que realmente aconteceu?
Freixo - Houve sete ameaças em um mês depois da morte da juíza Patricia Accioli. Viajei às pressas, no meio da CPI das Armas, que era uma prova cabal de que não tinha nenhuma viagem marcada. A Patricia foi morta em agosto, e em outubro, começo a receber uma ameaça atrás da outras, com requintes de detalhes e um volume que nunca tinha recebido. Tenho tudo documentado. Eram ameaças detalhadas. Era evidente que eu era o próximo. A Patricia também tinha recebido uma série de ameaças da mesma maneira. Eu não ia pagar para ver. A Anistia me chamou para sair. Eu tinha pedido reforço na minha segurança, que não tinha recebido naquele momento, e eu tinha pedido que investigassem aquelas denúncias que estava recebendo. As ameaças que eu recebia nunca vieram acompanhadas de uma investigação sobre cada uma delas. Era isso que eu pedia. Nunca recebi informações sobre o quê a polícia fazia a respeito disso tudo. Nenhuma resposta. Aí, aceitei o convite da Anistia Internacional para sair do país durante algum tempo e para fazer a denúncia do que estava acontecendo.
Terra - E o senhor acha que essa saída teve algum efeito?
Freixo - Eles queriam que eu ficasse mais tempo. Quando eu saí daqui, já fui com a passagem de volta. Falei que não era um exílio, não iria me afastar e terminaria a CPI, mas aceitaria sair para fazer a denúncia porque do jeito que estava, acabariam me matando. Foi o que fiz. E a minha família estava no limite. Você não tem ideia do que é receber sete ameaças de morte. Quem nunca passou por isso, não tem condições de avaliar de forma rasa. Não é brincadeira. Quando eu voltei, abriram investigação sobre cada uma das ameaças, e reforçaram minha segurança. Sinal de que o objetivo com a viagem foi feito.
Terra - O senhor acha que o prefeito não é duro no combate às milícias?
Freixo - Se ele fosse só medroso, eu entenderia. Ele não me parece ser uma pessoa muito corajosa de informação. Quando fechei o relatório da CPI das Milícias, eu entreguei a ele em 2008, quando tinha ganho a eleição. Disse que ele tinha o que fazer contra as milícias, que era fazer a licitação das vans individuais, e não fortalecer as cooperativas vinculadas às milícias, além de trabalhar junto com os órgãos de repressão do estado, já que as vans são o principal instrumento econômico da milícia. Ele fez justamente o contrário, e fez uma reunião no gabinete dele, na prefeitura, junto com vários milicianos que já tínhamos indiciado na CPI. A reunião foi em 2009, tem foto. Fez todas as licitações por cooperativas que estão nas mãos da milícia.
Terra - Indo para o segundo turno, o senhor admite ter o apoio, por exemplo, da aliança DEM-PR, que uniu os antigos inimigos políticos Cesar Maia e Anthony Garotinho?
Freixo - No segundo turno não tem partido. Não tem chances. O estatuto do Psol também proíbe alianças com determinados partidos como esses. Se eles quiserem me apoiar, votar em mim, se o Garotinho virar e falar que vai votar no Freixo, não posso impedi-lo. Mas daí fazer uma aliança, distribuir cargos, apertar mão, não nos interessa. Se chegarmos ao segundo turno será uma imensa vitória. Não haverá razão de mudarmos nossa forma de agir. Mas se o Gabeira quiser nos apoiar e subir em nosso palanque no segundo turno, será muito bem vindo, porque tem a ver com nosso programa. Pode haver uma discordância ou outra, mas no geral, está dentro da ideia de concepção para a cidade. A Marina Silva, que não tem partido, num primeiro turno, é muito bem vinda.
Terra - O senhor nasceu e morou praticamente a vida inteira em Niterói. Ter se mudado para o Rio há pouco tempo não pode prejudicar sua candidatura?
Freixo - Essa não é uma eleição para síndico, na qual ganha quem mora há mais tempo em determinado lugar. A identidade que se tem com um lugar não se constrói só pelo lugar que você nasceu. Se constrói também pelas lutas que você travou. Tenho uma história de luta no Rio que é antiga, quem tem mais de 20 anos. Isso me dá muita legitimidade para brigar por outro Rio de Janeiro. Ninguém é carioca só porque nasceu no Rio. Essa é uma possibilidade de ser carioca. 65% dos meus votos vieram da cidade do Rio de Janeiro. É sinal de que a cidade do Rio me identifica como alguém do Rio. Esse é um argumento despolitizado, e que eles vão usar.
- Em segundo lugar na pesquisa Datafolha, Freixo espera chegar ao 2º turno contra Paes Foto: Mauro Pimentel / Terra
- Freixo critica a atual gestão de Eduardo Paes (PMDB), acusado pelo candidato do Psol de ter montado uma 'agência de negócios não necessariamente lícitos' na prefeitura Foto: Mauro Pimentel / Terra
- 'O tempo de TV não pode comprar a vergonha da minha cara', disse Freixo, que optou por não fazer uma grande coligação e tentará conquistar eleitores com a campanha nas ruas Foto: Mauro Pimentel / Terra
- Aos 45 anos, o candidato do Psol concorre pela primeira vez a um cargo majoritário Foto: Cirilo Junior / Terra
- Preferido por artistas e intelectuais, como Wagner Moura (foto), Chico Buarque e Caetano Veloso, apresenta como carro-chefe de seu discurso a ética na política Foto: Fernando Alvim / Futura Press
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