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Demóstenes deixa Brasília para montar defesa, que ataca escutas

4 abr 2012
17h00

O senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) viaja nesta quarta-feira para um sítio onde vai passar o feriado da Semana Santa, segundo o seu advogado, Antonio Carlos Almeida, conhecido como Kakay. "Ele vai analisar os documentos que eu lhe entreguei", disse o advogado, que manteve em segredo o endereço do local. Pela manhã, advogados do escritório de Kakay se reuniram com o senador para preparar a defesa. Ontem, Demóstenes pediu o desligamento do seu partido, o DEM, que iria abrir processo disciplinar contra ele.

Kakay deve entrar no Supremo Tribunal Federal (STF) na segunda-feira com reclamação pedindo a anulação das escutas entre o senador e o empresário Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira. O advogado alega que o Ministério Público Federal (MPF) e a Justiça Federal deveriam ter pedido autorização ao STF para fazer as gravações telefônicas da Operação Monte Carlo porque Demóstenes, na condição de parlamentar, tem foro privilegiado.

O advogado argumenta que houve uma "usurpação da competência do STF", e a linha de defesa do senador terá como base a alegação de que as provas foram obtidas ilicitamente. Castro disse que existe, no processo, "um bando de ilegalidades", ressaltando que os autos apresentados pela Procuradoria-Geral da República mostram que a Polícia Federal registrou mais de 300 telefonemas entre Demóstenes e Cachoeira, o que deixaria claro que "não foram encontros fortuitos". A defesa deve sustentar que houve uma tentativa de "burlar a competência do STF".

Do ponto de vista político, a situação de Demóstenes é complicada. O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Eunício Oliveira (PMDB-CE), reconheceu que há um desgaste político "enorme" e o destino do mandato dependerá de como o processo de cassação terá andamento no Conselho de Ética.

Eunício disse que a bancada do PMDB, que tem o direito de indicar o presidente do Conselho de Ética, se reunirá no início da semana que vem para decidir quem será indicado para o cargo. O líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PR), procurou desvincular o caso de Demóstenes das denúncias que começaram a aparecer de um suposto envolvimento do governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, no esquema comandado por Cachoeira. Gravações feitas pela Polícia Federal mostram conversas entre a chefe de gabinete do governador, Eliane Gonçalves Pinheiro, e o empresário.

Alvaro Dias disse que conversou com Perillo hoje pela manhã e foi informado que Eliane Pinheiro pediu demissão do cargo ontem a noite. Ele defendeu uma ampla investigação e ressaltou que, no caso de Marconi Perillo, ainda é cedo para se fazer qualquer avaliação. "Em relação ao senador (Demóstenes) é diferente. Jorraram fatos sucessivamente, gravações, e aí já há possibilidade de se ter uma avaliação", disse o líder PSDB.

Demóstenes e Carlinhos Cachoeira
Em 6 de março de 2012, o senador Demóstenes Torres (GO) subiu à tribuna para dar explicações sobre as denúncias de sua proximidade com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, descoberta pela operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que terminou em fevereiro, com a prisão de Cachoeira e de outras 34 pessoas. Demóstenes disse que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido critérios legais. Dez dias depois, o jornal Folha de S.Paulo publicava um relatório do Ministério Público Federal (MPF) que indicava que o grupo comandado por Cachoeira entregou telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, que admitiu ter recebido o aparelho.

O jornal O Globo noticiou, em 23 de março, gravações da PF que flagraram Demóstenes pedindo para Cachoeira lhe pagar R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo e vazando informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes. Em 27 de março, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado para "acompanhar a evolução dos fatos". No dia seguinte, o Psol entrou com representação contra o parlamentar no Conselho de Ética do Senado e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandovski autorizou a quebra do sigilo bancário de Demóstenes, solicitando ainda um levantamento sobre as emendas e os projetos relatados por ele para saber se Cachoeira, acusado de controlar a máfia dos caça-níqueis e de corromper policiais e políticos em Goiás, foi beneficiado.

Nas gravações, Demóstenes também aparece acertando um suposto lobby pela legalização dos jogos de azar no Congresso em 2009. Em outra conversa, Cachoeira pede ajuda no processo de um delegado e três policiais de Anápolis (GO) acusados de tortura e extorsão. Os dois ainda conversaram sobre um "negócio" milionário na Infraero. Na ocasião, Demóstenes teria se valido da relatoria da CPI do Apagão Aéreo para levantar informações e sondar contratos de informática na estatal.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido decidiu abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda.

Agência Brasil Agência Brasil
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