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Justiça: mulher de Cachoeira ameaçou juiz com dossiê para revista

30 jul 2012
14h04
atualizado às 23h10

Segundo a Justiça, na suposta tentativa de chantagem ocorrida na última quinta-feira, a mulher de Carlinhos Cachoeira, Andressa Mendonça, teria informado ao juiz Alderico Rocha Santos a existência de um dossiê contendo informações desfavoráveis ao magistrado responsável pelo processo da Operação Monte Carlo. O material seria publicado pelo jornalista Policarpo Júnior na revista Veja. Se o juiz concedesse liberdade ao contraventor e o absolvesse das acusações ofertadas pelo Ministério Público, Andressa disse que poderia evitar a divulgação do material.

Andressa Mendonça deixa a Delegacia da Superintendência da Polícia Federal de Goiânia
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Foto: Diomício Gomes/O Popular / Agência Estado

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O conteúdo da suposta corrupção ativa praticada pela mulher de Cachoeira consta na decisão do juiz federal Mark Yshida Brandão, diretor do Foro da Seção Judiciária de Goiás, em resposta à representação encaminhada pelo Ministério Público Federal. Baseado na denúncia de Alderico Rocha, o MPF entrou com pedido de mandados de condução coercitiva para Andressa e de busca e apreensão em sua casa, além de medidas cautelares pessoais contra a companheira do bicheiro.

Entre as determinações, Andressa está proibida de acessar ou frequentar o prédio da Justiça Federal de Goiás; de manter qualquer contato, pessoal, telefônico ou por qualquer outro meio, ainda que por outra pessoa, com o juiz Alderico; de manter contato com qualquer um dos réus investigados pela Operação Monte Carlo. A decisão da Justiça Federal de Goiás foi publicada na página oficial do órgão no início da tarde desta segunda-feira.

Na decisão, o diretor do Foro achou oportuno destacar trecho do ofício enviado por Alderico Rocha, onde relata que "a referida senhora continuou a insistir para que este juiz revogasse a prisão do seu marido Carlos Augusto, argumentando que o referido dossiê iria, também, constranger o juiz Wilson Dias, afirmando que o mesmo é compadre deste juiz e que sabia da convivência familiar existente".

"A gravidade dos fatos noticiados, decorrente da ousadia e destemor demonstrados pela requerida ao tentar intimidar e chantagear o juiz federal encarregado da condução do processo pertinente a Operação Monte Carlo, por si só, exige a imediata aplicação de medida capaz de obstar novas incursões da requerida e proteger o juiz federal Alderico Rocha Santos de qualquer tentativa de intimidação, a fim de que possa desempenhar o seu mister", escreveu Brandão.

A redação do Terra entrou em contato com a Veja , mas o diretor de redação, Eurípedes Alcântara, ainda não havia dado um posicionamento a respeito da denúncia que cita a revista de circulação nacional.

Hoje pela manhã, Andressa foi levada para a Delegacia da Superintendência da Polícia Federal de Goiânia, onde deveria prestar esclarecimentos sobre a suposta chantagem feita ao juiz Alderico, mas ficou em silêncio. A Justiça decidiu que ela terá três dias para pagar uma fiança estipulada em R$ 100 mil, como forma de garantir o cumprimento das medidas cautelares impostas e assegurar o seu comparecimento ao Juízo Federal todas as vezes em que for intimida.

"Ela pode ficar presa em caso de descumprimento de uma das determinações cautelares determinadas pela Justiça. Ela está proibida de entrar em contato, inclusive por telefone, com qualquer um dos investigados pela Operação Monte Carlo", explicou o delegado.

Se for indiciada e condenada por corrupção ativa, Andressa poderá pegar de dois a 12 anos de prisão, além de pagar multa. Na casa onde vive a mulher de Cachoeira foram apreendidos dois computadores e dois tablets que serão periciados.

Carlinhos Cachoeira
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.

Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram diversos contatos entre Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (GO), então líder do DEM no Senado. Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais, confirmou amizade com o bicheiro, mas negou conhecimento e envolvimento nos negócios ilegais de Cachoeira. As denúncias levaram o Psol a representar contra Demóstenes no Conselho de Ética e o DEM a abrir processo para expulsar o senador. O goiano se antecipou e pediu desfiliação da legenda.

Com o vazamento de informações do inquérito, as denúncias começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas, o que culminou na abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do Cachoeira. O colegiado ouviu os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, que negaram envolvimento com o grupo do bicheiro. O governador Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro, escapou de ser convocado. Ele é amigo do empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta, apontada como parte do esquema de Cachoeira e maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos.

Demóstenes passou por processo de cassação por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Casa. Em 11 de julho, o plenário do Senado aprovou, por 56 votos a favor, 19 contra e cinco abstenções, a perda de mandato do goiano. Ele foi o segundo senador cassado pelo voto dos colegas na história do Senado.

Fonte: Terra

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