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Violência no Rio altera rotina de escolas e transportes

20 out 2009
02h17
atualizado às 08h22

Dois dias depois dos confrontos em Vila Isabel, moradores de bairros da zona norte ainda sentiam os reflexos da invasão de traficantes ao Morro dos Macacos. Com medo de novos confrontos, 5.260 estudantes de dez colégios e sete creches da rede municipal não foram ontem a colégios em Vila Isabel, Engenho Novo, Manguinhos, Jacaré e Higienópolis. Por causa dos ônibus incendiados na Avenida Dom Hélder Câmara, em acesso à Favela do Jacarezinho, mais de 400 moradores da comunidade estão sem telefone desde sábado - o fogo destruiu cabos.

O temor de ataques no Jacarezinho levou fiscais de empresas de ônibus a orientar motoristas a evitar a parada no sinal do cruzamento das avenidas Dom Helder Câmara com Democráticos. Foi naquele trecho que três coletivos foram incendiados no sábado.

De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, a frequência dos alunos nos colégios próximos a comunidades afetadas pela guerra caiu pela metade. Perto dos morros dos Macacos e São João, muitos não apareceram. Na Escola Municipal Estado da Guanabara, em Higienóplis, estudantes foram dispensado no meio da manhã.

"Foi uma decisão da direção do colégio, preocupada com tiroteios que deixariam alunos em situação de risco. Infelizmente, somos obrigados a ficar presos com nossos filhos dentro de casa porque a qualquer momento isto aqui pode virar um inferno", desabafou a dona de casa Neide Nascimento do Carmo, 32 anos, com os filhos de 5, 11 e 12 anos.

Em Vila Isabel, a família do desenhista industrial F. N., 29 anos, ainda não havia se recuperado

do susto. No tiroteio de sábado, uma bala de fuzil que atravessou o vidro da janela por pouco não causou uma tragédia. O disparo, que partiu do alto do Morro dos Macacos, passou a dois palmos da cabeça da mãe de F., que estava sentada no sofá, assistindo TV.

"Dois dos nossos vizinhos já tinham sofrido com isso. Era questão de tempo uma bala invadir nossa casa. Estávamos com muito medo do confronto lá fora e agora perdemos a paz aqui dentro também. Ouvimos uma longa rajada e menos de um minuto depois o tiro fez um rombo na janela. Minha mãe simplesmente poderia ter morrido. Ela chorou tanto. Foi um desespero", lembrou o desenhista.

Roupas vermelhas nos varais de comunidade
Os tiros intensos até o amanhecer e lençóis vermelhos pendurados no varal do Morro dos Macacos chamaram a atenção da aposentada Dora Vieira, 76 anos, que acompanhou da varanda os momentos de terror vividos pelos moradores da comunidade. Sem conseguir dormir e levando bronca do filho por não se abrigar dentro de casa, num apartamento na Rua Luiz Guimarães, ela viu os clarões das explosões de granada em parte do morro que estava às escuras.

"Hoje está tudo calmo, com polícia no morro. Mas nunca tinha sido assim tão constante. Passei a noite acordada, no meio da guerra. Quando clareou, sábado, pude observar toalhas, lençóis, roupas vermelhas nas cordas, o que nunca tinha visto. Até achava engraçado nenhum morador lavar roupa dessa cor em casa", comentou, sem saber da proibição da facção Amigos dos Amigos (ADA), rival do Comando Vermelho.

"Minha pressão subiu e estou apavorada até hoje. Foram muitos tiros e bombardeios. Me sinto desprotegida dentro da minha casa. Até minha soneca na varanda está suspensa", disse a aposentada, que também evita sair de casa.

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