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Tiros, sangue e violência: 12h com a Polícia Científica de SP

30 ago 2011 11h09
| atualizado às 12h39
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Simone Sartori
Direto de São Paulo

Os peritos criminais brasileiros são categóricos: os episódios da série CSI (Crime Scene Investigation), um dos programas de maior sucesso da TV americana, se distanciam da realidade, pelo menos no que diz respeito à rapidez na solução de um crime. Aproximar a ficção americana da realidade brasileira, entretanto, não é prioridade dos peritos da Polícia Técnico-Científica de São Paulo, responsáveis pela coleta de vestígios em um local de crime e pela realização de exames periciais para a elucidação dos fatos, como homicídios, roubos, incêndios e adulteração de combustíveis.

Perito examina motocicleta usada por adolescente infrator em sua quarta cena de crime do plantão
Perito examina motocicleta usada por adolescente infrator em sua quarta cena de crime do plantão
Foto: Léo Pinheiro / Terra

Ligada à Secretária Estadual da Segurança Pública, a Polícia Científica integra a força policial em São Paulo, junto das polícias Militar e Civil. A estrutura na capital paulista é referência no Brasil e também considerada a maior da América Latina. Entre os países emergentes, é comparada ao trabalho desenvolvido no México. Só em 2010, os peritos baseados na capital paulista foram responsáveis pela elaboração de 1,2 milhão de laudos periciais.

Treinados para cumprir com rigor as etapas que cabem à Polícia Científica durante uma investigação criminal, os profissionais refutam críticas sobre a "demora" para a chegada da perícia a um local de crime. Soma-se ainda o número de equipes disponíveis para atender aos chamados em todas as regiões de São Paulo. "O que demora é a comunicação do fato", explica o fotógrafo técnico-pericial Sérgio Martins, 44 anos.

Para eles, falta informação da população sobre o trabalho realizado pelos peritos. "Não é porque o homicídio aconteceu agora que a equipe vai chegar em cima do fato. A perícia só demora para quem não conhece o procedimento", afirma o fotógrafo técnico-pericial Sérgio Martins, 44 anos, há 25 na Polícia Científica.

O procedimento citado pelo perito começa com o registro da ocorrência pela Polícia Militar, que comunica o fato à Polícia Civil que, por sua vez, avalia a necessidade de um perito criminal no local. Só depois da decisão de um delegado é que a Polícia Científica pode ser acionada. Enquanto a perícia não chega, cabe à Polícia Militar a preservação do local do crime. De acordo com um manual elaborado por Alberi Espindula, perito do Distrito Federal, com base no Código de Processo Penal (CPP), "cabe às autoridades policiais providenciar para que não se altere o estado das coisas até a chegada dos peritos criminais".

Em plantão, peritos criminais encontram dente "extraído à bala"
Com o objetivo de acompanhar o trabalho dos peritos, a reportagem do Terra passou cerca de 12 horas com uma equipe da Polícia Técnico-Científica de São Paulo. Da noite de sexta-feira à manhã de sábado, o perito criminal Waldemir Cássio dos Reis, 50 anos, e o fotógrafo técnico-pericial Sérgio Martins, 44 anos, atenderam a quatro chamados na região sul/oeste da capital paulista. Eles integram a "equipe do sangue", nome dado àqueles que atendem ocorrências relacionadas a crimes contra a pessoa, como homicídios. Embora o plantão tenha sido considerado "tranquilo", sem complexidade, sem corpos nas cenas de crime, o envolvimento de adolescentes foi registrado em duas ocorrências: tentativa de latrocínio e troca de tiros com policiais civis. Veja abaixo a cronologia dos fatos e um resumo do modus operandi dos peritos criminais:

Sexta-feira, 29 de julho, sede do Instituto de Criminalística:
23h05: na Sala de Meios, o agente de telecomunicações João Perez Gasques Filho, há 33 anos na Polícia Científica, recebe dois chamados da Polícia Civil: uma tentativa de latrocínio, na região de Santo Amaro, e um homicídio simples, no Jardim Capela, ambos na zona sul de São Paulo.

23h15: a "equipe do sangue" disponível no plantão do Instituto de Criminalística, formada pelo perito Waldemir Cássio dos Reis e o fotógrafo Sérgio Martins, se prepara para atender aos dois locais de crime em sequência. Waldemir equipa-se com uma maleta metálica, ao estilo James Bond, com vários itens, como luvas de borracha, sacos plásticos, esparadrapo, lanterna, pinça, fita métrica, hastes flexíveis, algodão. "Tudo o que é necessário para a coleta de vestígios", diz ele. Sérgio confere a câmera fotográfica, acondicionada em uma bolsa especial. Vestidos com o uniforme da Polícia Científica, eles saem armados e com distintivos à mostra. O equipamento fica guardado no porta-malas da viatura. Eles contam com um aparelho de GPS para se deslocar pelas regiões da capital paulista.

23h45: em uma rua com pouca iluminação no bairro Chácara Santo Antônio, em Santo Amaro, a equipe encontra uma viatura da Polícia Militar, acionada para preservar o local de crime, registrado como uma tentativa de latrocínio contra o motorista de um modelo Fusion preto. Segundo o relato dos policiais militares, um homem não identificado atirou contra o motorista, que foi atingido na boca. A vítima estacionava para buscar a mulher em um escritório de arquitetura localizado na mesma rua. A PM não soube informar se o rapaz reagiu. No asfalto, próximo ao veículo, a perícia encontrou um dente da vítima, "extraído" com o disparo. Mesmo ferido, o homem atravessou a rua e pediu socorro no escritório. O criminoso fugiu a pé. A ocorrência foi registrada pela PM às 20h.

Sábado, 30 de julho, bairro Chácara Santo Antônio:
Entre 0h05 e 0h38: com uma caneta esferográfica, o perito Waldemir faz um esboço da cena do crime na folha de um caderno para, segundo ele, "facilitar a elaboração do laudo". O fotógrafo Sérgio registra o carro estacionado em vários ângulos, bem como os vestígios de sangue e o dente caído no aslfalto, as marcas do projétil no vidro da porta do passageiro. Munido de uma lanterna, Waldemir analisa o impacto do projétil no vidro do carro e explica: "formou um cone, que está aberto para fora. É um indício que o tiro foi de dentro para fora." O projétil, a principal prova do crime, é encontrado menos de cinco minutos depois, próximo à porta dianteira do passageiro, rente ao meio-fio. Um buraco no muro de tijolos logo em frente mostra que a bala ricocheteou.

"Se aparecer a arma, dá para fazer o exame de balística. Nós tivemos sorte porque à noite é muito difícil achar um projétil. O vidro deveria estar aberto na hora (do crime)", afirma o perito, que recolhe com uma luva o dente da vítima. "A família (da vítima) vai ficar com o dente. Para a perícia não interessa porque é da vítima. Se fosse do autor, interessava." O fotógrafo Sérgio encontra a carteira do motorista dentro do carro. Ele faz questão de fotografar os R$ 52 em notas e os documentos encontrados. "É uma precaução, para provar o que achamos no local e evitar reclamações posteriores", diz ele. Waldemir chama o colega para fotografar outras duas situações: o chassi do automóvel e vestígios de sangue encontrados próximos à entrada do escritório ("Bate com o relato de que ele veio pedir socorro"). Durante o trabalho da perícia, um vigilante em uma motocicleta passou pela rua, aparentemente alheio à ocorrência policial. Os peritos se despediram dos policiais, familiares e amigos da vítima que foram ao local. A perícia durou cerca de 30 minutos.

"Ele voltou para casa para morrer", relata PM sobre vítima
1h05: na rua Pindorama, número 195, no Jardim Capela, duas viaturas da PM preservam o segundo local de crime na madrugada. No asfalto, uma mancha pequena de sangue. De acordo com o relato da PM, um homem de 35 anos levou um tiro na região próxima à axila esquerda. Ele foi socorrido, mas não resistiu aos ferimentos e morreu em um hospital da região. O suspeito é um homem que "perseguia" a mulher da vítima, segundo o depoimento colhido pelos policiais militares. "Ela contou que esse homem começou a dar em cima dela. Ele tinha ido em sua casa, aparentemente embriagado, mas ela o mandou embora. O suspeito então encontrou o marido na rua, por acaso. Ele estava subindo para ir embora para casa e voltou pra morrer", contou o PM. A ocorrência aconteceu às 21h da sexta-feira e o caso registrado como homicídio simples. O trabalho pericial, que durou cerca de 15 minutos, teve como foco a mancha de sangue no asfalto e o relato dos policiais militares. Não foram encontrados vestígios que remetessem a outras pistas.

2h06: no trajeto de volta para a sede do IC, a equipe para em uma loja de conveniência para tomar café. O perito Waldemir conta que antes de entrar para a Polícia Científica era professor de Matemática. Ele ingressou na Polícia Científica há 20 anos e dentro de sete deve se aposentar. "Prefiro trabalhar como perito, apesar dos casos de violência que lidamos", diz ele. O fotógrafo reforça sua defesa contra as críticas ao trabalho da perícia. "Nós não demoramos. Pelo contrário. O que demora é a comunicação do fato. E se demoramos é em função do trânsito, que, durante o dia, é ainda pior", afirma. Waldemir emenda: "há todo um processo antes da chegada da perícia: a PM precisa ser acionada, depois lavrar o BO, o delegado ser comunicado... Sem falar que tem plantão que é carregado para nós, com casos de homicídio, suicídio, corpos no local. E temos de fazer tudo certinho."

Atira porque ele não acredita em você, diz suspeito
2h35: a equipe chega ao terceiro local de crime da madrugada, no Jardim Socorro, também na zona sul de São Paulo. A ocorrência registrada às 21h47 da sexta-feira foi registrada como tentativa de latrocínio. Um cliente de uma loja de conveniência em um posto de combustíveis foi abordado por um um menor de idade e levou um tiro quando deixava o veículo, que estava isolado com cones e fitas de sinalização. "Um menor de idade, aparentando ter 12 anos, anunciou o assalto, mas a vítima não entendeu o que ele disse. Um rapaz que dava cobertura para o menor em um veículo Montana disse: "atira nele porque ele não está acreditando em você", informou a PM. O rapaz foi atingido por dois tiros - um no braço e outro na mão. Foi socorrido sem ferimentos graves. Os suspeitos fugiram. A perícia colheu os vestígios e deixou o local às 2h50, seguindo praticamente o mesmo procedimento das chamadas anteriores, com fotos e coleta de vestígios para a elaboração do laudo que será enviado posteriormente à Polícia Civil que, por sua vez, anexará ao caso.

3h18: fotógrafo e perito criminais são recebidos por um policial civil na avenida Eliseu de Almeida, na altura do número 4000, no Butantã. O caso foi registrado na delegacia, às 0h20, como resistência sem morte, que designa o confronto entre policiais e bandidos. Dois policiais civis do 34º DP perseguiram dois adolescentes em uma motocicleta, acusados de assaltar uma mulher idosa na região. Na perseguição, houve troca de tiros. Os jovens foram baleados e levados para o Hospital Universitário. No local, a perícia registrou 29 m de frenagem da viatura policial. O perito Waldemir fez o cálculo com base na área da guia de cimento, que tem cerca de 1 m. Perguntado sobre a importância do cálculo, ele responde, com objetividade: "podemos precisar." O fotógrafo Sérgio clica a mesma freada, a motocicleta e dois capacetes caídos próximos a um ponto de ônibus. No local, a perícia descobre que o número da placa da motocicleta foi adulterado com elástico amarrado no metal. O número que parecia um 6, na verdade era um 0. O policial civil não havia notado a fraude.

3h52: o perito Waldemir realiza o exame residuográfico no policial civil que preservava o local. O procedimento é necessário em casos de resistência, para provar que o policial utilizou sua arma. O exame consiste em colocar esparadrapos nos dedos polegar e indicador para absorver partículas de projétil. O perito utiliza uma espátula para o esparadrapo aderir bem à pele do policial. O procedimento feito nas duas mãos do policial. "Depois, o que eu faço é colar o esparadrapo em um papel filtro. O laboratório inverte e joga reagente. Se aparecer pontinhos azuis, reagiu (há partículas). Se não, deu negativo", explica Waldemir.

4h11: os peritos partem para o DP para repetir o exame residuográfico no outro policial civil que participou da ação. A escrivã enviará a requisição do exame para o Instituto de Criminalística, como pede a burocracia policial. A mãe de um dos jovens estava sendo ouvida no momento, junto do policial civil. Com apenas 17 anos, o condutor da motocicleta baleado durante a perseguição tem nove passagens pela polícia. "A mãe fala que ele dá dor de cabeça pra caramba, mas já desencanou dele", relata informalmente o policial civil.

4h45: a equipe da Polícia Técnico-Científica deixa o DP rumo ao hospital para onde os menores foram levados. A dupla também passaria pelo teste residuográfico. A equipe de reportagem do Terra não tem autorização para acompanhar os peritos no hospital e volta para o Instituto de Criminalística, no Butantã.

5h43: o plantonista do Instituto de Criminalística faz um balanço parcial: 14 ocorrências desde as 19h de sexta-feira, com cerca de 60 pedidos de laudos a serem realizados pelos peritos do laboratório. Na volta ao IC, por volta das 6h, o perito criminal Waldemir Cássio dos Reis classifica o plantão como "tranquilíssimo" se comparado a outros dias de trabalho. Ele preenche guias com os dados coletadas nos locais de crime: natureza da ocorrência, horário do fato, autoridades policiais no local, nome das vítimas, horários da solicitação, do atendimento e da liberação do local pela perícia. O fotógrafo técnico-pericial Sérgio Martins, por sua vez, antes de guardar a câmera fotográfica, baixa as fotos e salva os arquivos na rede interna de computadores do IC. As fotos serão enviadas para o perito criminal, que escolherá as imagens para serem anexadas no laudo de cada local de crime.

Por lei, o perito tem 10 dias para entregar o laudo com todas as informações relacionadas ao caso. O documento será enviado para a Polícia Civil, que anexa o laudo à investigação criminal. Para quem acompanhou de perto a rotina dos peritos, era como se uma grande história em quadrinhos estivesse sendo montada. Cabe aos detalhes colhidos e às imagens registradas a compreensão da narrativa.

Fonte: Terra
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