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RS: 'nenhum crime é perfeito', diz matador de taxistas à polícia

Depoimento concedido pela Polícia Civil revela detalhes dos 6 homicídios cometidos por Luan Barcelos da Silva contra taxistas no Estado

16 abr 2013
18h06
atualizado às 18h49
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Em depoimento prestado à Polícia Civil no último sábado, o assassino confesso de seis taxistas relatou detalhes dos crimes
Em depoimento prestado à Polícia Civil no último sábado, o assassino confesso de seis taxistas relatou detalhes dos crimes
Foto: Facebook / Reprodução

Após matar três taxistas em Santana do Livramento (RS), na fronteira com o Uruguai, na madrugada do dia 28 de março, Luan Barcelos da Silva, 21 anos, chegou à casa dos avós, com quem morava na cidade, e teve a certeza de que seria preso. Em depoimento prestado à Polícia Civil no último sábado - que o Terra teve acesso -, o assassino confesso de seis taxistas - três em Livramento e três em Porto Alegre - relatou detalhes dos crimes e revelou que sentava sempre atrás do banco do carona, executando as vítimas com dois tiros na cabeça, sem falar com elas. 

"Solicitou que parasse o veículo e atirou na cabeça da vítima, duas vezes seguidas. Roubou o aparelho celular e dinheiro. (...) Deixou o veículo nesse local, pois era próximo a sua casa. Depois disso, foi para sua casa caminhando, pela rua Francisco Reverbel de Araújo. Quando chegou em casa, tentou dormir. Perguntado, refere que passava tudo por sua cabeça, que sabia que seria preso, pois nenhum crime é perfeito. (...) Perguntado sobre a razão de as vítimas serem taxistas, diz que não se animava a assaltar", informa o documento.

O jovem foi preso sábado pela manhã em sua residência no bairro Santa Cecília. No local, a polícia recolheu roupas e uma mochila. Também foi encontrado com ele um celular de uma das vítimas e uma passagem de ônibus da cidade da fronteira para a capital que usou na Quinta-Feira Santa. Um teste com luminol - substância que mostra a presença de sangue - em um casaco recolhido, deu positivo. O suspeito relatou que cometeu os crimes porque estava com o aluguel da casa, onde morava com mais um amigo, atrasado há cerca de 10 dias. A dívida era em torno de R$ 1,25 mil. 

Ele descreveu o que sentiu no dia 29 de março, antes de começar os assassinatos em Porto Alegre"(...) Passou o dia todo em casa, pensando se cometeria outros crimes. Referiu que não tinha outra opção, pois ainda precisava do dinheiro e não tinha para quem pedir emprestado e não possui conta em banco".

Vontade de vomitar
Antes de um dos crimes, o jovem afirmou aos policiais que estava "quase vomitando" por causa do nervosismo. "Deixou a mala no banco de trás, atrás do banco do motorista. Voltando ao motorista do táxi que pegou na esquina da rua Protásio Alves, refere que o motorista perguntou se ele era gremista ou colorado, que não lembra de outros assuntos, pois estava muito nervoso, quase vomitando".

Logo a seguir, Luan se mostrou frio ao disparar duas vezes contra a cabeça do taxista. "Deu um tiro, sem encostar, e a vítima abriu a porta e caiu no chão, com a parte do tronco. O declarante desceu do carro, fez a volta por trás do veículo e disparou novamente contra a vítima, na região da cabeça, não sabendo precisar onde. Disse que estava próximo da vítima. Referiu que em Porto Alegre, em nenhum caso a arma falhou".

Taxista pressentiu morte
Partindo para um novo assassinato, Luan pegou um carro na avenida Assis Brasil, em frente ao bar "Feijão com Arroz", mas não matou o motorista porque ele teria "pressentido" a intenção. "Perguntado sobre o motivo pelo qual não matou o taxista que pegou em frente ao Feijão com Arroz, respondeu 'não sei', acreditando que o taxista tenha pressentido", sublinha o documento.

No final do depoimento, Luan Barcelos fala que foi para casa de táxi, depois de matar a sexta vítima, sentou no banco da frente do carro e conversou bastante com o taxista. Mesmo com três cartuchos no bolso, ele não cogitou uma nova morte, pois "só queria ir para casa".

"(...) Tomou um táxi que estava parado no sinal. (...) Com esse motorista conversou basante. Estava sentado no banco da frente. Estava com medo de que o motorista visse que suas calças e tênis estavam sujos de sangue. (...) Tinha mais três cartuchos no bolso. Não cogitou de matar este último taxista, só queria ir para casa", disse a polícia.

"Chegando em casa, desmuniciou a arma, que ainda tinha um projétil, colocou a camiseta que vestia fora, no lixo, assim como os dois aparelhos de celular roubados. Lavou a calça, o moletom e o tênis. Comeu e fumou um cigarro de maconha. No outro dia, saiu para almoçar em um restaurante próximo a sua casa. Decidido a colocar a arma fora, foi até o campo da Tuca para comprar maconha e jogou a arma forma. (...) Não trocou a arma por drogas, pois todo mundo sabia que os taxistas haviam sido mortos. Pegou R$ 20 em maconha. (...) Depois que o declarante voltou do almoço, vomitou muito", finaliza o documento.

Luan foi transferido para a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc) no final da tarde de segunda-feira e o delegado Roger Bittencourt disse nesta terça-feira que deve encaminhar até amanhã o pedido de prisão preventiva dele.  

Governador diz que jovem "não é normal"
Em uma entrevista coletiva concedida à imprensa no domingo, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), disse que Luan "certamente não é uma pessoa normal". A investigação não descarta que ele tenha problemas mentais.

“Vai ser examinado por peritos o grau de psicopatia, se era um psicopata, um serial killer ou um bandido que foi levado por sua psicopatia a matar. O certo até agora é que é um assassino em série que cometeu latrocínios (roubos seguidos de morte) e certamente não é uma pessoa normal. O grau de doença psicótica não pode ser excludente de punibilidade, mas é óbvio que o caso será analisado pela Justiça”, disse Tarso.

O governador salientou que a segurança de Luan é obrigação do Estado. "É natural que muitas pessoas tenham um sentimento de raiva. O Estado tem obrigação de deixar esse cidadão nas mãos da Justiça para a punição, e não expor para que ele seja eventualmente atacado e linchado, como acontece em outras partes do País”, afirmou.

De classe média e sem antecedentes criminais, Luan é natural de Santana do Livramento e morava em Porto Alegre há cerca de dois anos e meio. Ele trabalhava como corretor de imóveis, mas ficou sem emprego no final do ano passado. Há cerca de 15 dias, foi contratado como orientador educacional e dava aulas de informática para crianças.  

As mortes
Os primeiros três taxistas foram encontrados mortos no dia 28 de março, dois em Santana do Livramento e um em Rivera, no Uruguai. Dois dias depois, na capital, mais três taxistas foram mortos em menos de três horas.

Os assassinatos de taxistas na capital provocaram várias manifestações da categoria pelas ruas da cidade. Os profissionais chegaram a ir até a casa do governador Tarso Genro (PT) para pedir Justiça e mais segurança. 

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Fonte: Terra
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