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Rocinha precisa desassociar polícia e corrupção, diz especialista

5 abr 2012
23h38
atualizado às 23h54

A morte do cabo Rodrigo Alves, ocorrida esta semana na Rocinha, alerta para a onda de violência que tem atingido a comunidade. Na terça-feira, uma reportagem do Jornal do Brasil mostrou que os moradores da favela se queixavam de que, desde a ocupação, o clima de insegurança havia aumentado na comunidade. Rodrigo Alves foi enterrado nesta quinta-feira, com honras militares. O cabo foi baleado por volta de uma hora da manhã durante uma patrulha a pé, na parte alta da favela.

Para o sociólogo João Trajano, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a normalização da vida na comunidade pode demorar, e é necessário "paciência e firmeza" das autoridades para lidar com os percalços da área. Trajano associa a onda de violência à prisão do antigo chefe do tráfico na comunidade, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem: "sempre que há um episódio em que o chefe morre ou é preso, surge a disputa pelo controle".

O sociólogo diz que a desconfiança dos moradores da Rocinha com a polícia é reflexo de anos em que os policiais, em vez de neutralizar, perpetuavam o tráfico, ao negociar com os bandidos. O especialista afirma que o problema é desassociar a polícia das práticas tradicionalmente aplicadas. "Historicamente existe uma relação muito promíscua entre o tráfico e a polícia. Os moradores não são bobos, testemunham, sabem os antigos pontos de recebimento de propina", analisa Trajano.

Para Cecília Coimbra, professora de psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente do grupo Tortura Nunca Mais, a imagem da polícia ainda traz insegurança em parte dos moradores porque, na favela, não existia enfrentamento, mas extermínio. "Psicologicamente falando, o que as ações da polícia produzem na população é medo, terror", aponta. "Os jovens crescem vendo a morte desde cedo, a violência desde cedo. Assim, você produz um ser violento", afirma Cecília.

A psicóloga acredita que é necessário contextualizar a violência nesse momento pelo qual o Rio passa, no qual é empregada a política de extermínio, e o medo é produzido para controlar as pessoas. "Não acredito que a presença ostensiva da polícia diminua a questão da violência, pois muitas vezes ela é despertada pelos agentes do Estado", critica. "Crescer rodeado de armas, de bandidos ou policiais, é um péssimo exemplo para os mais jovens".

Nem e a tomada da Rocinha
O chefe do tráfico da favela da Rocinha, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, foi preso pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar no início da madrugada de 10 de novembro. Um dos líderes mais importantes da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA), ele estava escondido no porta-malas de um carro parado em uma blitz por estar com a suspensão baixa, em uma das saídas da maior favela da América Latina -, que havia sido cercada por policiais na noite do dia 8 de novembro.

Desde o dia anterior, a polícia já investigava denúncias de um possível plano para retirar o traficante da Rocinha. Além de Nem, três homens estavam no carro. Um se identificou como cônsul do Congo, o outro como funcionário do cônsul, e um terceiro como advogado - a embaixada da República do Congo, entretanto, informou não ter consulados no Rio. Os PMs pediram para revistar o carro, mas o trio se negou, alegando imunidade diplomática. Os agentes decidiram, então, escoltar o veículo até a sede da Polícia Federal. No caminho, porém, os ocupantes pediram para parar o carro e ofereceram R$ 1 milhão para serem liberados. Neste momento, os PMs abriram o porta-malas e encontraram Nem, que se escondia com R$ 59,9 mil e 50,5 mil euros em dinheiro.

Nem estava no comando do tráfico da Rocinha e do Vidigal, em São Conrado, junto de João Rafael da Silva, o Joca, desde outubro de 2005, quando substituiu o traficante Bem-te-vi, que foi morto. Com 35 anos, dez de crime e cinco como o chefe das bocas de fumo mais rentáveis da cidade, ele tinha nove mandados de prisão por tráfico de drogas, homicídio e lavagem de dinheiro. Nem possuía um arsenal de pelo menos 150 fuzis, adquiridos por meio da venda de maconha, cocaína e ecstasy, sendo a última a única droga consumida por ele. Com isso, movimentaria cerca de R$ 3 milhões por mês, graças à existência de refinarias de cocaína dentro da favela.

O fim do domínio de Nem na Rocinha foi o último obstáculo à entrada das forças de segurança na favela para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Na madrugada do dia 13 de novembro, agentes das polícias Civil, Militar e Federal, além de homens das Forças Armadas, iniciaram a ocupação do local escoltados por um forte aparato. No entanto, os traficantes já haviam deixado a comunidade, e a operação foi concluída sem qualquer confronto.

Jornal do Brasil Jornal do Brasil

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