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Rio: moradores do Alemão tentam assimilar nova ordem

30 nov 2010
13h40
Luís Bulcão Pinheiro
Direto do Rio de Janeiro

"A culpa disso aí não é dos nossos jovens que caíram no tráfico, é das autoridades que nos deixaram abandonados por anos. É obrigação deles consertar isso". A opinião é de Solange Alves de Souza, 47 anos, que trabalha há 15 anos na creche Municipal Nova Brasília, em uma das favelas do Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro. Solange assiste nesta terça-feira ao trabalho da prefeitura, que acionou 800 servidores para coletar o lixo, fazer reparos e reconstruir a rede elétrica das favelas.

"Já vi isso aí tudo sendo quebrado. Outro dia teve uma batida do Choque de Ordem (programa da prefeitura para organizar as ruas do Rio). Passaram com os carros por cima das bancas", contou ela ao passar pela feira de Nova Brasília, onde ambulante, camelôs e fruteiros dividem barracas de venda. Segundo Solange, dessa vez a atitude das autoridades está sendo outra e acredita que desde que a polícia tomou a comunidade, neste domingo, o estado está trazendo benfeitorias.

Damião Alves, 51 anos, brincou: "o movimento está fraco. O presidente vai pagar o salário dos meus empregados?". Ele fechou sua peixaria desde a última quinta-feira, quando um caveirão passou pela rua e quebrou a mesa de sua banca que reabriu nesta terça. Apesar do prejuízo, Damião se mostra otimista. "Agora parece que vai melhorar. A gente tinha que viver com o tráfico. Só não podem nos abandonar", afirmou. Mas essa não é a sua única preocupação. O peixeiro franze a testa, olha de lado e pergunta: "aí, é verdade que o Choque de Ordem vem aí?".

Violência
Os ataques tiveram início na tarde de domingo, dia 21, quando seis homens armados com fuzis incendiaram três veículos por volta das 13h na Linha Vermelha. Enquanto fugia, o grupo atacou um carro oficial do Comando da Aeronáutica (Comaer). Na terça-feira, todo efetivo policial do Rio foi colocado nas ruas para combater os ataques e foi pedido o apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para fiscalizar as estradas. Ao longo da semana, Marinha, Exército e Polícia Federal se juntaram às forças de segurança no combate à onda de violência que resultou em mais de 180 veículos incendiados.

Na quinta-feira, 200 policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) tomaram a vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. Alguns traficantes fugiram para o Complexo do Alemão, que foi cercado no sábado. Na manhã de domingo, as forças efetuaram a ocupação do Complexo do Alemão, praticamente sem resistência dos criminosos, segundo a Polícia Militar. Entre os presos, Zeu, um dos líderes do tráfico, condenado pela morte do jornalista Tim Lopes em 2002.

Desde o início dos ataques, pelo menos 39 pessoas morreram em confrontos no Rio de Janeiro e 181 veículos foram incendiados.

Fonte: Especial para Terra

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