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PR: polícia descarta eutanásia em mortes atribuídas a médica presa

20 fev 2013
19h56
atualizado em 21/2/2013 às 13h12
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Os crimes pelos quais está sendo investigada a chefe da UTI do Hospital Evangélico de Curitiba, Virgínia Helena Soares Souza Marcelino, que foi presa na última terça-feira, não podem ser classificados como eutanásia, de acordo com o delegado-chefe da Polícia Civil paranaense, Marcos Vinícius Michelotto. Segundo ele, as mortes pelas quais a médica é suspeita não ocorreram com o consentimento das vítimas ou das famílias. A informação foi confirmada em uma entrevista coletiva organizada na tarde desta quarta-feira pela Polícia Civil.

 Médica chefe da UTI do hospital Evangélico, Virgínia Helena Soares de Souza, sendo conduzida por policiais
Médica chefe da UTI do hospital Evangélico, Virgínia Helena Soares de Souza, sendo conduzida por policiais
Foto: Henry Milléo/Gazeta do Povo / Futura Press

"Nenhuma das mortes investigadas até agora ocorreram com o consentimento das famílias. No inquérito policial, não tratamos como eutanásia, mas sim como antecipação de óbitos. Na sequência, por cada morte que ela for acusada, será instaurado um inquérito por homicídio", disse o delegado, informando que, em princípio, a Polícia Civil investiga a atuação da médica no período em que ela chefiou a UTI, de 2006 até ontem.

Apesar de não adiatar muitas informações sobre a investigação, que corre me segredo de Justiça, Michelotto e a delegada responsável pelo Núcleo de Repressão aos Crimes Contra a Saúde (Nucrisa), Paula Brisola, garantiram haver indícios suficientes para a prisão temporária, por 30 dias, da médica. "Essa investigação iniciou há um ano, com um dossiê enviado pela Ouvidoria do Estado. Foi um trabalho bastante sério, profissional e discreto, mas, quando achamos indícios suficientes para pedir a prisão temporária, o fizemos, com a concordância do Ministério Público e o pronto atendimento da Justiça, que entendeu nossas alegações", disse Paula Brisola, sem informar se esse forte indício seria uma morte recente ou uma ação da médica que desencadearia uma morte mas foi evitada.

Por conta do segredo de Justiça, a delegada não informou por quantas mortes Virgínia está sendo responsabilizada, nem se há mais pessoas envolvidas e se a polícia também está investigando a suspeita de tráfico de órgãos. Mas o delegado-geral já antecipou que outras pessoas estão sendo investigadas. "Ela não poderia fazer isso sozinha, ou, ao menos, sem cúmplices. Estamos investigando todas as pessoas que trabalharam com ela na UTI", informou.

Os delegados também não quiseram opinar ou informar o que já consta nos inquéritos sobre as razões que levariam a médica a antecipar os óbitos, mas Michelotto informou haver indícios de tratamento diferenciado entre pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) e paciente particulares ou de planos de saúde. Como o valor de diárias de UTI recebidos por médico para cada paciente internado é muito menor no SUS do que no sistema suplementar ou particular, a motivação financeira está sendo investigada.

O advogado da médica, Elias Mattar Assad, disse, logo após a coletiva, que entrará, nos próximos dias, com pedido de revogação da prisão de sua cliente. Ele afirmou ter lido todo o inquérito e não ter encontrado nenhuma prova contra Virgínia. "Eu já pedi para me apresentarem a prova da materialidade. Que me mostrem uma prova científica de uma pessoa que morreu de outra causa que não aquela que está em seu atestado de óbito. Acho muito difícil a existência desta prova. E, sem prova de materialidade, não tem processo criminal", disse.

O defensor também questiona a condução do caso por parte da polícia. "A questão maior é que foi precipitada essa prisão. A polícia pode até estar bem intencionada sob o aspecto de tutelar a saúde pública, mas houve inversão dos procedimentos. Primeiro se investiga, depois se busca provas e depois se faz interrogatório para, por último, pedir a prisão. Aqui, ela foi presa antes de ser ouvida", questionou.

O advogado também alertou para uma "paranoia coletiva" que o caso pode estar gerando. "Todo parente de uma pessoa que morreu na UTI nestes últimos anos pode achar, agora, que seu ente querido foi vítima. Isso é muito perigoso, porque rompe com a fé que as pessoas têm nas instituições médicas", disse.

Assad disse que sua cliente está tranquila e convicta de que sua prisão foi motivada por um equívoco. "Fui visitá-la ontem. Ela estava surpreendentemente tranquila e me disse que estava confiante, porque a prisão só pode ter ocorrido em decorrência de um erro", contou. O advogado afirmou ainda que as denúncias contra a médica podem ter partido de dentro do próprio hospital, numa disputa por espaço dentro da estrutura da entidade, "uma rivalidade entre dois grupos lá dentro".

Fonte: Especial para Terra

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