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PR: em 2º júri, mulher pega 21 anos por morte de menino em ritual

28 mai 2011
17h56
atualizado às 19h56
Joyce Carvalho
Direto de Curitiba

Em seu segundo julgamento, Beatriz Abagge, 47 anos, foi condenada neste sábado a 21 anos e quatro meses de prisão pela morte de um menino em um ritual de magia negra em 1992 no Paraná. A pena foi aplicada por homicídio triplamente qualificado - pelo crime ter sido encomendado mediante compromisso de pagamento, de ter sido cometido de maneira cruel e sem possibilidade de defesa.

Beatriz Abagge, 47 anos, foi condenada a 21 anos e 4 meses de prisão pela morte do menino
Beatriz Abagge, 47 anos, foi condenada a 21 anos e 4 meses de prisão pela morte do menino
Foto: Joyce Carvalho / Especial para Terra

A morte do menino Evandro Ramos Caetano, que desapareceu em Guaratuba, no litoral do Paraná, aos 6 anos de idade, chocou o País, pois a acusação é que o corpo tenha sido usado em sacrifício num ritual de magia negra. Evandro desapareceu no caminho entre a escola e sua residência, em 6 de abril de 1992. Beatriz e a mãe foram acusadas de sequestrar a criança e também de ter participado do ritual em que Evandro teria sido morto. O corpo foi encontrado cinco dias depois do crime num matagal da cidade. As vísceras e o coração tinham sido retirados e as mãos e os pés tinham sido cortados.

Como a ré já cumpriu cerca de três anos de prisão em regime fechado e outros três em prisão domiciliar, a pena caiu para menos de 16 anos. O juiz Daniel Avelar determinou o regime semiaberto para Beatriz Abagge, que poderá recorrer da decisão em liberdade. Na saída do Tribunal do Júri, a ré disse que vai tentar provar novamente a sua inocência. "Eu não aceito esta decisão", afirmou após a sentença, emocionada e acompanhada pelos advogados de defesa e familiares.

A mãe de Beatriz, Celina Abagge, declarou que, a partir deste sábado, sequestro, estupro e tortura estão liberados no Paraná. A afirmação se refere à alegação de Beatriz sobre a confissão que teria feito na época do crime. Isto somente ocorreu, de acordo com ela, após uma longa sessão de tortura e de estupros por parte da polícia para que as duas assumissem a autoria do crime. Estes argumentos foram bastante utilizados pela defesa durante os debates no segundo dia de julgamento. Celina passou mal quando soube da sentença, ainda em um espaço reservado no Tribunal do Júri, e precisou ser amparada por um médico.

Os pais do menino morto, Evandro Ramos Caetano, que acompanharam todo o julgamento, se emocionaram com a decisão. "Sempre tivemos confiança, fé na Justiça. Continua sendo muito difícil porque filho a gente não esquece. É muito doído. Finalmente o nome dele vai ficar em paz", afirmou a mãe, Maria Caetano. Ademir Caetano, pai de Evandro, reiterou que nunca teve dúvida de que o corpo encontrado era mesmo de Evandro, apesar das condições dos restos mortais. O questionamento era uma das teses da defesa.

A tortura que teria sido praticada para forçar a confissão do crime também foi tema da sustentação da acusação, realizada pelo promotor Paulo Sérgio Markowicz Lima. "Se houvesse comprovação da tortura, nós seríamos os primeiros a denunciar estes policiais", declarou durante a sessão. Já o advogado de defesa, Adel El Tasse, mostrou somente os jurados (o plenário pôde acompanhar apenas o áudio) uma gravação na qual a voz do suposto torturador indica: "confessa tudo direitinho que eu não coloco mais a mão em você", se dirigindo para Beatriz Abagge.

A acusação também relembrou o depoimento da odontolegista Beatriz França, que disse na sexta-feira ter 99% de certeza que o corpo encontrado no matagal cinco dias após o desaparecimento era mesmo o de Evandro. Ela fez a afirmação com base em uma restauração encontrada na arcada dentária do corpo.

Absolvidas
Este foi o segundo julgamento de Beatriz Abagge. Ela e sua mãe, Celina, foram absolvidas no primeiro júri, realizado em 1998 e que durou 34 dias. O Ministério Público recorreu da decisão. Desde então, o segundo julgamento estava sendo adiado por mudanças de advogados da defesa e validação de provas. Celina Abagge não voltou ao banco dos réus porque tem mais de 70 anos e o crime para ela prescreveu.

Outras cinco pessoas foram julgadas pelo crime. O pai de santo Osvaldo Marcineiro, o pintor Vicente Paulo Ferreira e o artesão Davi dos Santos Soares foram condenados em 2004. Já Francisco Sérgio Cristofolini e Airton Bardelli dos Santos foram absolvidos em 2005.

Ao final do segundo julgamento, o juiz Daniel Avelar, que conduziu os trabalhos, ressaltou que espera que não se demore mais quase 20 anos para se julgar um caso, pois isto faz as famílias - tanto da vítima quanto dos acusados - sofrerem muito mais.

Fonte: Especial para Terra

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