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Pai ironiza presença de policiais depois da morte da filha

25 nov 2010
04h08
atualizado às 19h38

O barulho de tiros trocados na guerra entre policiais e traficantes nas favelas do Complexo da Penha não conseguiu calar a dor de quem mais sofre nessa batalha pela paz: os moradores da região conflagrada. No fim da tarde desta quarta-feira, a família da estudante Rosângela Alves, 14 anos, saiu do Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, aos gritos desesperados. Havia acabado de morrer a menina que levou um tiro no peito enquanto estudava dentro de casa, em frente ao computador. Mais três pessoas morreram.

Desde cerca de 9h, policiais militares de vários batalhões ocupavam comunidades do complexo atrás de traficantes. No início da tarde, o Batalhão de Operações Especiais (Bope) chegou à Favela da Chatuba para reforçar a ação. Rosângela foi baleada durante troca de tiros.

Com aplausos, o pai da jovem, Roberto Alves, ironizou a presença dos policiais militares, que estavam na porta da unidade de saúde. "Parabéns a vocês. Parabéns, Beltrame, parabéns, Cabral. Olha o que vocês conseguiram com isso! Matar uma menina que estava em casa! Sabe o que vocês conseguem com essas operações: matar pobres", desabafou o pai da adolescente.

Sem conseguir sair de casa por causa do intenso tiroteio, a mãe da menina, Thereza Cristina Barbosa, acusou a polícia de ter disparado o tiro que matou sua filha. "O tiro que atingiu minha casa partiu de baixo para cima. Minha filha está morta, e eu sequer consigo velar o corpo dela", lamentou ela, por telefone.

O confronto deixou mais três mortos. O corpo de Rafael Felipe Aurídes Gonçalves, 29 anos, chegou ao hospital carregado pelos parentes num lençol. "Ele não é bandido. O corpo dele ficou lá em cima (no morro) por horas e ninguém o socorreu", protestou o irmão de Rafael, morto com tiros no rosto e no peito.

Segundo o irmão de Rafael, que não se identificou, o rapaz trabalhava como mototaxista e levava o enteado para a escola quando foi atingido. "Não perguntaram nada, só atiraram. A criança viu tudo e está em estado de choque", contou. Moradores da Chatuba, Janaína Romualdo dos Santos, 43 anos, e Geraldino Jaime, 60 anos, que levou um tiro na barriga, não resistiram e morreram.

Somente no Hospital Getúlio Vargas, até o início da noite de quarta, 16 pessoas baleadas chegaram à unidade, entre elas a estudante Bárbara Carolina Oliveira Silva, 16 anos. A menina havia acabado de chegar da escola quando levou um tiro nas costas. A adolescente está internada em observação. Um PM também foi ferido.

Desespero com vítimas baleadas dentro de casa

Por volta das 17h, a caixa de loja Kelly Regina dos Santos, 25 anos, foi ferida por estilhaços dentro do apartamento no quarto andar, na Rua Suruí, em Brás de Pina. Ela e o marido, William da Silva, 32 anos, assistiam à televisão no sofá quando um tiro atingiu a parede, próximo à cabeça de Kelly. "Foi desesperador. Só ouvimos o barulho do tiro e vimos a cabeça da Kelly sangrando", contou o marido.

No início da noite, uma criança de 7 anos chegou ao Getúlio Vargas ferida por estilhaços de bala.

O susto também invadiu a casa de uma fisioterapeuta de 27 anos, que não quis se identificar. Uma bala entrou pela janela do apartamento, na Avenida Brás de Pina, e atingiu a parede da sala, onde ela estava com a mãe e o bebê de cinco meses. Apavoradas, as duas rastejaram para a cozinha para tentar se refugiar dos disparos. "Me mudei domingo e já sou recebida assim", desabafou.

O taxista Rafael Ramos, 32 anos, que mora no bairro, orientou a central de sua cooperativa a suspender as corridas em Vicente de Carvalho e na Penha. "Cancelei todas. Nosso prejuízo é de R$ 250 por motoristas em dias assim porque essa região tem shoppings, supermercados e muita demanda. Mas passar aqui é risco de vida constante para qualquer um e não vale a pena", lamentou.

Mulher de idoso baleado quer sair do Rio de Janeiro

Na porta do trabalho, uma transportadora localizada na Rua Cajá - um dos acessos ao Morro da Chatuba -, o empresário Álvaro Lopes, 81 anos, foi atingido por um tiro no braço direito. "Eu só ouvi os tiros e logo em seguida senti o meu braço ardendo", contou o idoso ao deixar o Hospital Getúlio Vargas, amparado por familiares.

Sua mulher, Otília Lopes, estava desesperada. "Moramos no bairro há 50 anos, mas não dá mais para viver aqui. Quero ir embora do Rio de Janeiro", afirmou.

Aline Soares, 28 anos, foi atingida por um tiro na coxa esquerda. Moradora do Morro da Fé, ela contou que tentava chegar em casa quando foi atingida por uma bala.

Violência
Os ataques tiveram início na tarde de domingo, dia 21, quando seis homens armados com fuzis abordaram três veículos por volta das 13h na Linha Vermelha, na altura da rodovia Washington Luis. Eles assaltaram os donos dos veículos e incendiaram dois destes carros, abandonando o terceiro.

Enquanto fugia, o grupo atacou um carro oficial do Comando da Aeronáutica (Comaer) que andava em velocidade reduzida devido a uma pane mecânica. A quadrilha chegou a arremessar uma granada contra o utilitário Doblò. O ocupante do veículo, o sargento da Aeronáutica Renato Fernandes da Silva, conseguiu escapar ileso.

Ainda no domingo, em arrastão na Via Dutra, uma quadrilha armada bloqueou um trecho da pista sentido São Paulo, na altura de Pavuna, e roubaram um Kia Cerato e um Prisma. Na ação, uma das vítimas, identificada como Guilherme Feitosa da Silva, 26 anos, foi baleado na cabeça e levado em estado grave para o Hospital Getúlio Vargas.

Na manhã de segunda-feira, cinco bandidos armados atacaram motoristas no Trevo das Margaridas, próximo à avenida Brasil, em Irajá, também na zona norte. Os criminosos roubaram e incendiaram três veículos - uma van de passageiros que fazia o trajeto de Belford Roxo para o Centro, um Monza e um Uno. Também na segunda pela manhã, criminosos armados com fuzis atiraram em uma cabine da PM na rua Monsenhor Félix, em frente ao Cemitério de Irajá. A PM acredita que o incidente tenha sido provocado pelos mesmos bandidos que queimaram os carros no Trevo das Margaridas.

À noite, criminosos atearam fogo em outros dois veículos na rodovia Presidente Dutra, sentido Capital, na altura da Pavuna. Na zona norte, uma cabine da Polícia Militar (PM) foi metralhada próximo ao shopping Nova América, em Del Castilho.

Já na manhã de terça-feira, dois homens foram mortos a tiros em um Honda Civic na rodovia Washington Luís, altura do km 122. A PM diz que não há relação entre este crime e os ataques anteriores. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, atribuiu a escalada de violência à atuação do Estado no combate à criminalidade nas favelas. "Sem dúvidas isso tem relação com a nossa política de segurança pública", afirmou, referindo-se à implantação de unidades de polícia pacificadora (UPPs).

Também na terça-feira, a cúpula da Polícia Militar anunciou a operação "Fecha Quartel", que prevê colocar todos os homens nas ruas para reforçar o patrulhamento. A PM informou que reduzirá as folgas dos policiais gradativamente até o ano que vem, além de prometer a contratação de 7 mil policiais. Para o combate ao crime, a corporação ainda utilizará o Batalhão de Choque e 140 motocicletas.

Álvaro Lopes foi atingido no braço; sua mulher quer deixar o Rio de Janeiro
Álvaro Lopes foi atingido no braço; sua mulher quer deixar o Rio de Janeiro
Foto: AFP
Fonte: O Dia

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