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'Normal ele não era', diz psiquiatra sobre jovem suspeito de chacina

Especialistas afirmam que é preciso investigar história da família e alertam para influência dos games e da rotina policial

6 ago 2013
17h44
atualizado em 7/8/2013 às 12h55
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A experiência de quase 40 anos analisando as mentes de milhares de criminosos de diversas idades e condições sociais faz com que o psiquiatra forense Guido Palomba tenha certeza de que o jovem Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, 13 anos, não era "normal". Ele foi apontado pela Polícia Civil de São Paulo como o principal suspeito de ter assassinado os pais, uma avó e uma irmã dela, cometendo suicídio depois em sua residência na Brasilândia, zona norte de São Paulo. O psiquiatra entende que é preciso fazer um trabalho de investigação minucioso na história da família das vítimas em busca de episódios traumáticos e doenças.

<p>A família morta na chacina em São Paulo foi velada em cemitério na rodovia Anhanguera, na capital</p>
A família morta na chacina em São Paulo foi velada em cemitério na rodovia Anhanguera, na capital
Foto: Fernando Borges / Terra

"É preciso fazer um levantamento completo desse menino. O que se pode chegar à conclusão é que normalidade ele não tinha. Já me deparei com situações semelhantes e assassinos mais novos ainda, com 9 anos, que mataram com requintes de perversidade. Nunca vi nenhum que tivesse antecedentes pessoais exemplares ou bons. Eles sempre tinham marcas de problemas, transtornos mentais, graves situações familiares, lares desfeitos. Alguma coisa há nesse sentido", afirmou o especialista.

A chacina foi descoberta na noite de segunda-feira, quando os corpos dos policiais militares Luis Marcelo Pesseghini, 40 anos, e Andreia Regina Bovo Pesseghini, 35 anos, foram encontrados com marcas de tiros dentro da casa. Também foram mortas Benedita Oliveira Bovo, 65 anos, e Bernardete Oliveira da Silva, 55 anos - respectivamente, avó e tia-avó do adolescente.

"Quem comete um delito dessa natureza, alguma coisa muito grave tem. Para conhecer, é preciso uma perícia retrospectiva que levante a vida dele, o que tinha, o que não tinha, até para saber se existe alguma doença mental ou algo semelhante entre os parentes. Não há possibilidade dele ter sido uma pessoa absolutamente normal, boazinha, e ter praticado isso", ressaltou Palomba.

Fantasia de matador
Segundo o delegado Itagiba Franco, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o adolescente vinha externando a um amigo o plano de fugir de casa e se tornar um "matador de aluguel". O doutor em Psicologia Jacob Pinheiro Goldberg, da Universidade Mackenzie, pondera que essa fantasia pode ter sido potencializada pelo fato de os pais serem policiais, acostumados a resolver "as questões de uma maneira radical".

"Para uma criança ou adolescente o grande modelo de comportamento é o dos pais, e o próprio fato de o indivíduo ser policial já mobiliza a imaginação e a fantasia do jovem em formação. A tentativa de resolver as questões de uma maneira radical, que é naturalmente o exercício do policial, pode ter se transformado num catalisador que desencadeou emoções que ele não conseguiu controlar", analisou ele.

Em entrevista coletiva à imprensa nesta terça-feira, o delegado Itagiba Franco citou o depoimento de um dos colegas de Marcelo, que relatou à polícia os planos do adolescente. "O garoto afirmou: (Marcelo) sempre me chamou para fugir de casa, queria ser matador de aluguel. Tinha um plano: matar os pais de noite, quando ninguém soubesse, e fugir com o carro dos pais e morar em um lugar abandonado", disse o delegado.

Influência dos games
A adoração por jogos violentos, como a série de videogames chamada Assassin's Creed, pode ser um ponto a mais para a mente assassina colocar seus planos em prática, de acordo com Jacob Goldberg. No perfil Facebook, o menino usava a imagem do protagonista da série, que se passa durante o Renascimento, quando uma seita de matadores junta-se para vingar a morte de familiares.

"Os games têm um efeito instantâneo no comportamento da criança, do jovem e às vezes até do adulto. Se o indivíduo tem não só o hábito, mas o vício dos games, ele começa a esmaecer a fronteira entre o abstrato e o concreto, entre a realidade e a fantasia. No menor sinal suspeito de um comportamento patológico, a família deve procurar assistência científica, principalmente quando a amabilidade vai sofrendo um processo interno de implosão, em que o crime é o grande vazadouro", explicou Goldberg. No quarto do garoto foram encontradas diversas armas de brinquedo pela polícia.

Chacina de família desafia polícia em São Paulo
Cinco pessoas da mesma família foram encontradas mortas na noite de segunda-feira, dia 5 de agosto, dentro da casa onde moravam, na Brasilândia, zona norte de São Paulo. Entre os mortos, estavam dois policiais militares - o sargento Luis Marcelo Pesseghini, 40 anos, e a mulher dele, a cabo de Andreia Regina Bovo Pesseghini, 35 anos. O filho do casal, Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, 13 anos, também foi encontrado morto, assim como a mãe de Andreia, Benedita Oliveira Bovo, 65 anos, e a irmã de Benedita, Bernardete Oliveira da Silva, 55 anos.

A investigação descartou que o crime tenha sido um ataque de criminosos aos dois PMs e passou a considerar a hipótese de uma tragédia familiar: o garoto teria atirado nos pais, na avó e na tia-avó e cometido suicídio. A teoria foi reforçada pelas imagens das câmeras de segurança da escola onde Marcelo estudava: o adolescente teria matado a família entre a noite de domingo e as primeiras horas de segunda-feira, ido até a escola com o carro da mãe, passado a noite no veículo, assistido à aula na manhã de segunda e se matado ao retornar para casa.

Os vídeos gravados pelas câmeras mostraram o carro de Andreia sendo estacionado em frente ao colégio por volta da 1h15 da madrugada de segunda-feira. Porém, a pessoa que estava dentro do veículo só desembarcou às 6h30 da manhã. O indivíduo usava uma mochila e tinha altura compatível à do menino: ele saiu do carro e caminhou em direção à escola.

Fonte: Terra

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