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Nem reclama por ser processado e se cala em interrogatório

11 mai 2012
19h21
atualizado às 19h26

O traficante Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, reclamou nesta sexta-feira por ser processado "mais de 10 vezes pelo mesmo fato", em audiência da ação a que responde por compra e venda de armas e drogas na favela da Rocinha, na 17ª Vara Criminal do Rio de Janeiro. Após breves palavras, o traficante se calou. Em audiências anteriores, Nem também se valeu do direito de não responder o interrogatório.

Nem foi preso em novembro de 2011
Nem foi preso em novembro de 2011
Foto: Seap / Divulgação

Hoje foram ouvidos três inspetores da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) na época das investigações. As testemunhas de acusação disseram que a apuração foi baseada em interceptações nos celulares de dois suspeitos de pertencerem à quadrilha de Nem. Conforme os agentes, os dois se referiam ao chefe do tráfico na comunidade como "papai", o que os levou a associar o apelido a Nem.

Ao ser interrogado, Nem disse que as únicas pessoas que o chamam de "papai" são seus filhos. Alertado pela promotora pública Patrícia de Oliveira Souza que aquele era o momento de falar, o traficante permaneceu em silêncio. Na quinta, ele participou de outra audiência por porte ilegal de arma de uso restrito e associação ao tráfico.

As testemunhas disseram que Nem comandava o tráfico na Rocinha desde 2006 e que era violento, apesar de querer parecer simpático para a comunidade ao distribuir presentes em datas especiais. Ainda conforme os agentes, um dos principais pontos da investigação foi a prisão no Paraná de um fornecedor de armas que estava em uma lista com uma relação de armas e munições, com seus respectivos preços. As informações, segundo os inspetores, coincidiam com uma outra lista interceptada de uma mensagem de texto enviada por uma suposta integrante da quadrilha de Nem, encomendando as armas por ordem de "papai".

O próximo passo do processo é a manifestação do Ministério Público e da defesa sobre diligências. Depois, são apresentadas as alegações finais para que a juíza Alessandra de Araújo Bilac Moreira Pinto dê a sentença.

Nem e a tomada da Rocinha
O chefe do tráfico da favela da Rocinha, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, foi preso pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar no início da madrugada de 10 de novembro. Um dos líderes mais importantes da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA), ele estava escondido no porta-malas de um carro parado em uma blitz por estar com a suspensão baixa, em uma das saídas da maior favela da América Latina -, que havia sido cercada por policiais na noite do dia 8 de novembro.

Desde o dia anterior, a polícia já investigava denúncias de um possível plano para retirar o traficante da Rocinha. Além de Nem, três homens estavam no carro. Um se identificou como cônsul do Congo, o outro como funcionário do cônsul, e um terceiro como advogado - a embaixada da República do Congo, entretanto, informou não ter consulados no Rio. Os PMs pediram para revistar o carro, mas o trio se negou, alegando imunidade diplomática. Os agentes decidiram, então, escoltar o veículo até a sede da Polícia Federal. No caminho, porém, os ocupantes pediram para parar o carro e ofereceram R$ 1 milhão para serem liberados. Neste momento, os PMs abriram o porta-malas e encontraram Nem, que se escondia com R$ 59,9 mil e 50,5 mil euros em dinheiro.

Nem estava no comando do tráfico da Rocinha e do Vidigal, em São Conrado, junto de João Rafael da Silva, o Joca, desde outubro de 2005, quando substituiu o traficante Bem-te-vi, que foi morto. Com 35 anos, dez de crime e cinco como o chefe das bocas de fumo mais rentáveis da cidade, ele tinha nove mandados de prisão por tráfico de drogas, homicídio e lavagem de dinheiro. Nem possuía um arsenal de pelo menos 150 fuzis, adquiridos por meio da venda de maconha, cocaína e ecstasy, sendo a última a única droga consumida por ele. Com isso, movimentaria cerca de R$ 3 milhões por mês, graças à existência de refinarias de cocaína dentro da favela.

O fim do domínio de Nem na Rocinha foi o último obstáculo à entrada das forças de segurança na favela para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Na madrugada do dia 13 de novembro, agentes das polícias Civil, Militar e Federal, além de homens das Forças Armadas, iniciaram a ocupação do local escoltados por um forte aparato. No entanto, os traficantes já haviam deixado a comunidade, e a operação foi concluída sem qualquer confronto.

Fonte: Terra
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