Polícia

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19 de abril de 2009 • 22h24

Mulheres relatam abuso sexual em vagões de trem no Rio

Lauricéia de Souza, moradora de Queimados, no Estado do Rio de Janeiro, acorda às 5h30 todos os dias para estar na estação ferroviária às 7h15 e pegar o trem para o Méier, zona norte da capital, onde trabalha como doméstica. Tanto para ir quanto para voltar, viaja em composições lotadas e viveu um drama que ainda é uma constante, apesar da lei de 2006 que criou os vagões exclusivos para mulheres: o abuso sexual.

"Eu estava de saia e não dava nem para me mexer de tão cheio que estava. Na hora, não senti nada, mas, quando desci, o vento bateu e senti que minha saia estava úmida. Que nojo, fiquei revoltada, um homem tinha ejaculado em mim. Lauricéia, 33 anos, diz que a criação do vagão exclusivo para mulheres nos horários de pico foi uma lei que não pegou.

"Você está vendo alguma placa indicando o vagão feminino?", pergunta ela. "Isso na prática não existe, quando as portas abrem, os homens entram em todos os vagões, não tem organização".

Também doméstica, só que empregada numa residência em Madureira, Carmem Lúcia de Jesus, 40 anos, pega trem há 10 e dá graças a Deus por nunca ter sofrido violência semelhante. Segundo ela, diante da passividade dos agentes de controle da SuperVia e dos policiais militares do Grupamento de Policiamento Ferroviário, os homens que são descobertos abusando sofrem um justiçamento dos próprios passageiros.

"Na estação de Ricardo de Albuquerque eu vi um homem botar o 'negócio' dele por baixo da minissaia de uma garota. Ela se virou e meteu a mão na cara dele", relata. "Quando o pessoal que estava em volta viu, começou a bater também. Ele acabou expulso do trem".

Segundo a assessoria de imprensa da SuperVia, a empresa segue a lei número 4733/2006, que obriga as concessionárias de trem e metrô a disponibilizarem e identificarem um vagão exclusivo para mulheres nos horários de maior movimento ¿ entre 6h e 9h e das 16h às 20h.

A representante comercial Rosângela Souza, 37 anos, moradora de Nilópolis, diz que evita os trens nesses horários justamente para não correr riscos. E acha a legislação insuficiente para coibir os abusos. "Hoje, a maioria das mulheres trabalha fora. Um vagão só não dá conta. Acho que tem mais mulher do que homem nos trens. E não há segurança nenhuma dentro dos vagões, os agentes só entram quando é para tirar vendedor ambulante", desabafa.

Revolta geral
O ambulante Geraldino Nascimento dos Santos, 69 anos, 30 vendendo mercadorias clandestinamente nos trens, diz que já ajudou a linchar um homem flagrado abusando de uma mulher. "Quando o cara dá mole, até camelô ajuda a bater".

Geraldino lembra o caso acontecido com uma vizinha sua. "Ela era toda fortona, morava em Engenheiro Pedreira e ia para a academia em Queimados fazer ginástica. Um cara chegou a ejacular na malha dela. Como ela era forte, saiu batendo nele e todo o pessoal ajudou", disse.

Jonas Eleutério, 50 anos, também viu os usuários fazendo justiça com as próprias mãos. "O homem se roçou na mulher e ela reclamou. Quando as portas se abriram na estação de Cascadura, só vi o cara correndo e uns 15 atrás dele para bater.

Luciana Alves, 24 anos, que na tarde da última quinta-feira viajava de Japeri para Manguinhos com os filhos Wallace, 8, e Gabriela, 2, estava tranqüila em um trem quase vazio. Ela deu sua receita para não ter maiores dissabores quando o vagão está lotado. "O negócio é entrar, correr para um cantinho e ficar escondida ali, junto da parede. Já vi muita coisa horrível, mas comigo, graças a Deus, nunca aconteceu".Segundo a SuperVia, há entre 150 agentes trabalhando por turno espalhados pelas 89 estações. A empresa alega que o número de policiais militares que lhes dão apoio diariamente ¿ cerca de 30 ¿ não deveria ser menor do que 100.

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