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Lindemberg pega 98 anos de prisão por cárcere e morte de Eloá

16 fev 2012
19h59
atualizado às 21h12
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Marina Novaes
Direto de Santo André

Lindemberg Alves Fernandes, 25 anos, foi condenado nesta quinta-feira pelo cárcere privado e morte da ex-namorada Eloá Pimentel, então com 15 anos, em 2008. O réu foi sentenciado a 98 anos e 10 meses de reclusão, em regime inicial fechado, mais 1.320 dias-multa. A decisão saiu no quarto dia de júri, em Santo André, no ABC Paulista. Ele não poderá recorrer em liberdade.

Escoltado por policiais, Lindemberg deixa fórum em camburão
Escoltado por policiais, Lindemberg deixa fórum em camburão
Foto: Thales Stadler/ABC Digi Press / Especial para Terra

Relembre o cárcere privado mais longo do Estado de São Paulo

Lindemberg foi considerado culpado de 12 crimes: homicídio duplamente qualificado (motivo torpe e recurso que dificultou a defesa da vítima) em relação a Eloá; tentativa de homicídio duplamente qualificado em relação ao disparo contra Nayara Rodrigues; e tentativa de homicídio qualificado (para assegurar a execução de crimes) contra o sargento da Polícia Militar Atos Antonio Valeriano. Ele também foi denunciado cinco vezes por cárcere privado qualificado em relação a Nayara (duas vezes), a Eloá e aos dois adolescentes que estavam no apartamento no momento da invasão, e quatro vezes por disparo de arma de fogo em lugar habitado.

O valor dos dias-multa, que serão revertidos ao Fundo Penitenciário, não foi divulgado pela juíza Milena Dias. A acusação confirmou que Lindemberg, devido ao longo período a que foi condenado, não poderá pedir progressão de regime antes de completar 30 anos de prisão - máximo de tempo que alguém pode ficar preso no Brasil.

A defesa de Lindemberg não se manifestou sobre o resultado do júri ao deixar o fórum, mas pediu a anulação completa do julgamento. A acusação afirmou que não havia razão para o pedido e considerou que a sentença foi "bem fundamentada".

O julgamento foi marcado pelo depoimento de Lindemberg, que quebrou silêncio de mais de três anos sobre o caso. Ele surpreendeu, no início de sua fala, ao pedir desculpas à mãe de Eloá, Ana Cristina Pimentel. "Eu vim para contar a verdade, porque eu tenho uma dívida muito grande com a família dela. Eu queria pedir perdão em público, porque eu entendo a dor da Dona Tina. Eu queria pedir perdão para ela por tudo o que aconteceu."

No depoimento, o réu disse que o casal havia retomado o namoro dias antes, em segredo, e que foi ao apartamento para visitar Eloá. Lindemberg disse que andava armado porque havia recebido ameaças de morte por telefone. Na chegada ao imóvel, porém, ele se surpreendeu com a presença de três amigos da jovem. Quando soube que havia sido traído com um dos adolescentes, Lindemberg exigiu que eles deixassem o apartamento, para que ele conversasse a sós com a namorada. O trio, porém, se recusou a sair.

Sobre o desfecho do cárcere, Lindemberg disse que tinha medo de se entregar à polícia. "Eu não tinha confiança na polícia. Em certo momento, a polícia abaixou a maçaneta da porta, quando disseram que não se aproximariam", disse. Ele disse ainda que atirou contra Eloá após a polícia explodir a porta. "Quando a polícia invadiu, a Eloá fez menção de levantar e eu, sem pensar, atirei. Foi tudo muito rápido", afirmou. Ele acrescentou que não poderia afirmar que havia atirado contra Nayara porque não se lembrava.

Durante o júri, a advogada de Lindemberg, Ana Lúcia Assad, protagonizou bate-bocas com a promotoria, os assistentes de acusação e até mesmo com a juíza, a quem sugeriu que voltasse a estudar. Devido à última polêmica, a advogada pode responder a processo por injúria e difamação, cuja pena pode ir de multa a detenção. Ao fim do julgamento, a promotora Daniela Hashimoto disse que a juíza pediu que o Ministério Público providencie ação contra Ana Lúcia.

As declarações de Ana Lúcia Assad sobre Lindemberg ser um "bom rapaz" geraram revolta no público que acompanhava o julgamento. No segundo dia, ela precisou deixar o prédio do fórum escoltada. No início do terceiro dia de júri, a advogada ouviu gritos de "vai embora" e "fora", e pediu que a população parasse de hostilizá-la. "Eu não sou acusada, eu não sou ré", afirmou.

Em seus depoimentos, os três jovens que ficaram em cárcere com Eloá disseram que Lindemberg tinha a intenção de matá-la. "Ele rendeu todo mundo e, em determinado momento, disse que a intenção dele era matar a Eloá e sair andando", disse Nayara, que foi baleada no rosto no desfecho do cárcere.

Dois irmãos de Eloá prestaram depoimento, mas a mãe foi dispensada. O policial militar Ronickson Pimentel dos Santos, irmão mais velho da vítima, classificou Lindemberg de "monstro, louco e agressivo". A jornalistas, Ana Cristina disse não ter visto arrependimento no rosto do réu.

Apesar de a acusação focar na gravidade dos crimes atribuídos a Lindemberg, a defesa tentou culpar a imprensa e a atuação da polícia pelo desfecho do cárcere. No primeiro dia, a advogada exibiu mais de três horas de vídeos com reportagens em que é questionada a ação do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar, e o trabalho da imprensa. "Todos, no meu ponto de vista, são corresponsáveis (pela tragédia). Inclusive a sociedade", afirmou Ana Lúcia.

O mais longo cárcere de SP
A estudante Eloá Pimentel, 15 anos, morreu em 18 de outubro de 2008, um dia após ser baleada na cabeça e na virilha dentro de seu apartamento, em Santo André, na Grande São Paulo. Os tiros foram disparados quando policiais invadiam o imóvel para tentar libertar a jovem, que passou 101 horas refém do ex-namorado Lindemberg Alves Fernandes. Foi o mais longo caso de cárcere privado no Estado de São Paulo.

Armado e inconformado com o fim do relacionamento, Lindemberg invadiu o local no dia 13 de outubro, rendendo Eloá e três colegas - Nayara Rodrigues da Silva, Victor Lopes de Campos e Iago Vieira de Oliveira. Os dois adolescentes logo foram libertados pelo acusado. Nayara, por sua vez, chegou a deixar o cativeiro no dia 14, mas retornou ao imóvel dois dias depois para tentar negociar com Lindemberg. Entretanto, ao se aproximar do ex-namorado de sua amiga, Nayara foi rendida e voltou a ser feita refém.

Mesmo com o aparente cansaço de Lindemberg, indicando uma possível rendição, no final da tarde no dia 17 a polícia invadiu o apartamento, supostamente após ouvir um disparo no interior do imóvel. Antes de ser dominado, segundo a polícia, Lindemberg teve tempo de atirar contra as reféns, matando Eloá e ferindo Nayara no rosto.

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Fonte: Terra
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