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Homem confundido com gay: 'um pai não pode abraçar seu filho?'

21 jul 2011
16h52
atualizado às 16h59
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Rose Mary de Souza
Direto de Campinas

Ainda chocado com a agressão sofrida na madrugada de sexta-feira, em uma festa agropecuária em São João da Boa Vista (SP), um autônomo de 42 anos que teve parte da orelha decepada por uma dentada contou ao Terra detalhes do momento em que ele e o filho de 18 anos, abraçados, foram confundidos com um casal homossexual. "Antes da pancadaria, eles provocaram muito e pediram para a gente se beijar na boca", lembrou. "'É meu filho, é meu filho', eu respondi e desmaiei com um soco no queixo. Quando acordei, tinha sangue na cabeça e alguém falou: 'cortaram a orelha dele'". "Será que um pai não pode abraçar um filho?", perguntou.

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Serão de três a quatro cirurgias plásticas para a reconstituição da orelha direta do autônomo, que não quer seu nome revelado por temer represálias de pessoas ligadas ao grupo de sete homens que o espancou - os médicos pretendem retirar cartilagem de sua costela e "refazer" a parte decepada. A próxima consulta médica no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo está agendada para daqui a duas semanas. Enquanto isso, ele não pode pegar sol ou poeira, deve trocar os curativos e tomar a medicação no horário recomendado.

Só os hematomas nos braços e no rosto podem ser apagados com rapidez, já que, mesmo com a intervenção cirúrgica, o contorno da orelha não será perfeito, informou um dos médicos à vítima. "É difícil sair na rua. Meu filho ficou tão envergonhado... Voltou bem depressa para São Bernardo do Campo", disse, acrescentando que o jovem cursa Educação Física. "A gente se abraçava, para matar a saudade. Ele estuda fora, fica longe de casa muito tempo. É pai e filho com saudade um do outro", disse o autônomo, que é pai de outros três filhos.

Imagens das câmeras
A Polícia Civil identificou nas imagens das câmeras de vigilância cedidas pela organização da Exposição Agropecuária Industrial e Comercial (Eapic) os suspeitos de espancarem o homem e seu filho. Dois acusados das agressões prestaram depoimentos e um deles confessou ter mordido a orelha do homem. A Justiça, no entanto, negou o pedido de prisão temporária de ambos.

Parada Gay
Pai e filho confundidos com um casal gays serão lembrados pela 3ª Parada do Orgulho Gay de São João da Boa Vista, marcada para o próximo domingo, a partir das 13h, no Largo da Estação Ferroviária. O tema é "Amai-vos uns aos outros; já basta de homofobia".

"Mesmo eles sendo heterossexuais, nós não vamos nos omitir porque lutamos contra qualquer tipo de discriminação. E esse foi um caso de homofobia", disse um dos organizadores da parada e membro da organização não governamental Associação & Grupo 4 Estações de apoio à comunidade LGTB, Chrysthopher Dekay.

Segundo ele, foi surpresa as agressões partirem de moradores da cidade. "Essa foi a primeira vez que acontece um fato como esse. Nós vamos para a terceira parada gay e jamais houve qualquer tipo de situação homofóbica por aqui", disse. Ele afirmou ainda que pretende marcar uma reunião e fazer uma visita aos familiares do autônomo.

Dekay lamentou a decisão do juiz Heitor Siqueira Pinto em não acatar o pedido de prisão temporária de dois acusados de lesão corporal. "Agressão já é um crime principalmente se for causada por conotação a escolha sexual", disse, acrescentando que a organização decidiu redobrar o número de seguranças ao desfile, que espera cerca de 3 mil pessoas.

Especial para Terra

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