Polícia

publicidade
21 de novembro de 2010 • 11h33

Goiás lidera o ranking de tráfico de pessoas no Brasil

 

Daniel Favero

O Estado de Goiás ocupa a primeira posição do ranking nacional de tráfico de pessoas, atividade que submete suas vítimas a cárcere privado, exploração sexual, consumo de drogas, ameaças, trabalho escravo e venda de órgãos humanos. De acordo com dados de inquéritos apurados pela Polícia Federal, com uma população sete vezes menor que a de São Paulo, o Estado goiano foi responsável, nesta década, por 140 (18,6%) dos 750 casos registrados em todo o País nesse período.

O Estado de São Paulo ocupa a segunda posição, com 96 inquéritos (12,8%), seguido por Minas Gerais com 72 casos (6%), Rio de Janeiro, com 53 (7%), e Pernambuco com 35 (4,6%).

De acordo com o coordenador da unidade de governança e Justiça do Escritório das Nações Unidas Sobre Drogas e Crime (UNODC) para o Brasil e Cone Sul, Rodrigo Vitória, o tráfico de pessoas atinge 2,5 milhões pessoas em todo o mundo. "Esse é o segundo negócio mais lucrativo do mundo, movimenta US$ 32 bilhões por ano, só perde para o tráfico de drogas".

Para o coordenador de enfrentamento ao trafico de pessoas do Ministério da Justiça, Ricardo Lins, os números registrados em Goiás apontam a existência de uma rede de tráfico de pessoas na região, mas também são resultado da ação integrada entre a polícia e o Ministério Público no combate a esse crime.

"Os dados evidenciam que, em Goiás, a Polícia Federal está atuando em conjunto com o Ministério Público Federal, investigando denuncias feitas pela sociedade. O fenômeno de Goiás aponta a incidência de tráfico de pessoas para fins de trabalho forçado, com finalidade de exploração econômica e sexual", explica.

De acordo com a secretária geral do Grupo de Pesquisa sobre Tráfico de Pessoas, Violência e Exploração Sexual de Mulheres, Crianças e Adolescente (Violes), da Universidade de Brasília (UNB), Fátima Leal, pesquisas apontam focos de exploração sexual em 930 cidades. "A Pestraf (Pesquisa Sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual), que faz levantamentos desde 2002, apontou a incidência de tráfico de crianças, adolescentes e adultos em 242 rotas (no Brasil)". Dados mais recentes só devem estar disponíveis no ano que vem.

As ações de combate a esse tipo de crime são recentes e ainda não existe uma rede integrada de informações que possa dar uma amplitude mais exata da situação.

Os principais destinos das vítimas brasileiras de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual são Portugal, Itália, Suíça e Espanha, segundo dados coletados pela Polícia Federal nas 22 ações especiais deflagradas nos últimos seis anos que resultaram na prisão de 201 pessoas em todo o País, segundo apontou o relatório do primeiro Plano de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas divulgado nesse mês, em Minas Gerais.

O Brasil não é apenas o País de origem de vítimas de tráfico de pessoas, mas também o destino de trabalhadores de outros países vizinhos, da África e da Ásia, normalmente, para exploração de mão de obra escrava, como os casos de bolivianos submetidos à regime de escravidão na capital paulista. Na tríplice fronteira, Argentina, Brasil e Paraguai, as vítimas desses três países são mulheres atraídas por promessas de uma vida melhor, que caem na armadilha de aliciadores interessados em submeter suas vítimas à exploração sexual, afirma Lins.

Aliciadores e promessa de sonhos
De acordo com dados do relatório elaborado a partir do primeiro Plano de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, a mulheres, meninas e adolescentes são as maiores vítimas do tráfico para exploração sexual. Elas são cooptadas por aliciadores, que em muitos casos são pessoas próximas às vitimas, como familiares, amigos ou colegas. "Muitos, especialmente crianças e adolescentes, são raptados, drogados e presos, e outros são enganados por falsas promessas de trabalho em atividades como garçonetes, manicure, empregada doméstica, babá", diz trecho do documento divulgado pelo Ministério da Justiça.

O coordenador da UNODC, Rodrigo Vitória, diz que as vítimas são atraídas por promessas de sonhos. "Muitas vezes se vende a ideia de um sonho. Integrantes dessas organizações estão no Brasil e percorrem faculdades, publicam anúncios nos jornais e na internet para aliciar garotas jovens. Um dos assuntos que foi discutido no encontro da Rede Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, realizado em Belo Horizonte (MG) foi a necessidade de uma fiscalização mais efetiva nas redes sociais".

A pesquisadora Fátima Leal diz que são muitos os anúncios de trabalho no exterior para acompanhantes nos jornais, além de agencias de modelos que buscam, na verdade, mulheres que possam ser exploradas sexualmente fora do País. "É tudo um fiasco".

Venda de órgãos
Um dos casos mais recentes de venda de órgãos no País foi registrado na periferia do Recife em 2003. A Operação Bisturi, da Polícia Federal, identificou um comprador em Durban, na África do Sul. Os fornecedores recebiam até US$ 10 mil por rim humano, mas a excessiva oferta fez o valor cair. Onze pessoas foram presas, inclusive dois israelenses. Pelo menos 30 pernambucanos venderam os órgãos à quadrilha. Vitória diz que apesar da pessoa decidir vender o próprio órgão, isso não tira ao caráter criminoso dessa prática.

Redação Terra