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Delegado: briga de skinheads com punks no RS não foi ideológica

17 out 2011
12h18
atualizado às 12h28
Marcelo Miranda Becker

A briga entre grupos de anarcopunks e skinheads que deixou duas pessoas feridas na madrugada de domingo no bairro Cidade Baixa, região central de Porto Alegre (RS), não teve motivação ideológica. A opinião é do delegado Paulo César Jardim, da 1ª DP, que investiga crimes de ódio envolvendo neonazistas no Estado. Segundo Jardim, mesmo que dois skinheads tenham acusado um casal homossexual de esfaqueá-los, o confronto não foi motivado por intolerância, e sim por uma rixa histórica entre gangues.

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"Ali (na Cidade Baixa) tem uma mistura, nós encontramos ali em torno de quatro ou cinco tribos diferentes. Algumas se identificam bem, como os punks, anarcopunks e skinheads. Tinha alguns góticos e new wave também. Não foi uma briga de ideologia, num primeiro momento. O que se vê ali foi mais uma briga de turma, de gangue mesmo, por desentendimento entre eles", disse o delegado.

A confusão teve início por volta das 2h de domingo, na rua José do Patrocínio, quando cerca de 40 punks deixavam uma manifestação contra a corrupção no Largo Zumbi dos Palmares. Os anarcopunks (punks que defendem o anarquismo) teriam identificado o segundo grupo como neonazista, devido às tatuagens e cabeças raspadas que os integrantes ostentavam.

Segundo testemunhas, os anarcopunks começaram a gritar frases como "fora nazismo" e "fora racismo", até que os skinheads reagiram. No confronto, dois skinheads foram esfaqueados e denunciaram à polícia um casal de homossexuais como os autores das agressões. Levado à delegacia, o casal prestou depoimento e foi liberado.

De acordo com o delegado, os grupos envolvidos na briga de domingo são conhecidos da polícia, que possui a identificação de diversos integrantes. "Nós estamos monitorando. Nós conhecemos eles, temos inclusive a fotografia de vários deles. Há mais de 10 anos que a Polícia Civil trabalha neste assunto. Não é um tema que nos surpreende", afirmou.

Jardim afirmou ainda que o relato de testemunhas não é conclusivo para se determinar as responsabilidades pelo tumulto. "Tem diversas versões, cada um acusa o outro por algum motivo. Na realidade, eles não precisam de muito motivo para brigar. O motivo, por si só, é fazer parte da tribo contrária à outra. Aí se olham, não se gostam, um diz uma piada para o outro. Não tem um motivo forte, uma coisa mais consistente. É uma rixa histórica", analisou.

"Na origem, na gênese, esses grupos partiram da mesma semente. Depois foram se dispersando a partir do momento em que cada um deles passou a ter suas opções por música, por comportamento, por roupa, por indumentária. Mas, no fundo, eles se conhecem", disse Jardim.

Segundo o delegado, os confrontos entre as gangues se concentram atualmente na Cidade Baixa, tradicional região boêmia de Porto Alegre. "Antigamente, eles se reuniam muito na avenida Oswaldo Aranha, no bairro Bonfim. O point dos punks era lá, e os skinheads iam até lá para bater nos punks. Agora o pessoal trocou, o point deles passou para a Cidade Baixa. É uma questão de modismo. Os bares da moda, mais frequentados, estão naquela região", afirmou.

Ideologia e moda
Jardim afirma que a diferença básica entre skinheads e punks é de cunho ideológico. Enquanto os primeiros pregam a segregação racial e oxigenação social, baseada no neonazismo, os punks têm um ideal anárquico, de repúdio a toda forma de preconceito.

"Os punks têm um comportamento anárquico. Para os punks vale tudo: vale cheirar, vale beber, vale o sexo livre, o amor livre. Por exemplo, se o punk está ficando com uma guria e daqui a pouco o parceiro dele está a fim da guria dele, pode ficar numa boa que está tudo certo. É um comportamento extremamente liberal, anárquico liberal", resumiu o delegado.

Na opinião do delegado, muitos dos integrantes dessas tribos agem motivados por uma questão de moda, sem necessariamente estarem vinculados a alguma ideologia. "Eu noto que alguns deles agem por ideologia e outros agem por modismo. No movimento anarcopunk, por exemplo, tu vês muita gurizada que está lá fantasiada de preto, se dizendo rebelde, que nem sabe, no fundo, a origem do seu movimento", afirmou.

Cerco aos neonazistas
Responsável pelo indiciamento de pelo menos 35 neonazistas no Rio Grande do Sul nos últimos dez anos, o delegado Paulo César Jardim vem trabalhando na repressão a grupos violentos que pregam a ideologia hitleriana.

"Nós temos inúmeros processos em andamento. Nós temos muitos neonazistas indicados por inquérito policiais, denunciados pelo Ministério Público e, inclusive, pronunciados pelo juiz. Nós temos casos também de neonazistas foragidos. Temos um caso de um cara com quatro mandados de prisão contra ele já", afirmou.

Conforme a polícia gaúcha, há células neonazistas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, além de outros locais investigados
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Foto: Polícia Civil / Divulgação
Fonte: Terra

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