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Com um quarto da população de SP, Salvador tem 30% mais mortes

8 dez 2012
10h39
atualizado às 10h40
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Daniel Favero

Com uma população quatro vezes menor que a da capital paulistana, a cidade de Salvador acumula índices de violência superiores aos de São Paulo, que vem sofrendo os últimos meses com uma onda de violência que já matou mais de mil pessoas. Salvador teve um episódio semelhante em março de 2011, quando a Polícia Militar decidiu entrar em greve um pouco antes do Carnaval, período no qual as mortes subiram vertiginosamente.

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Os dados de janeiro a outubro de 2012 disponibilizados pelos governos baiano e paulista apontam que o número de homicídios em Salvador, onde vivem 2,6 milhões pessoas, foi 32,41% maior que os registrados na cidade de São Paulo, onde vivem 11,2 milhões. Se for levada em conta a proporção populacional, esse número tem um peso quatro vezes maior.

Um caso que chamou atenção recentemente foi o do menino Joel. Garoto propaganda do governo estadual para promover o turismo, ele morreu com um tiro na cabeça disparado por um policial militar durante operação no bairro Nordeste Amaralina, onde vivia com a família. Nove policiais foram indiciados, mas o julgamento ainda não tem data para ocorrer.

Segundo especialistas e relatórios elaborados pelo governo federal, o Estado da Bahia é conhecido por subnotificar os casos, caracterizando mortes por "causa indefinida". O ápice desse suposto disfarce estatístico ocorreu no período de 1998 a 2002, prejudicando a leitura da séria histórica, segundo afirma o relatório Mapa da Violência, elaborado pelo Instituto Sangari.

Em Salvador, a taxa de homicídios era de 11,6 por 100 mil habitantes. Hoje, este índice está quase cinco vezes maior: 60,1, segundo o levantamento feito pelo Sangari. Apesar de 2012 ainda não ter terminado, o número de homicídios em Salvador (1.532) já é maior que o registrado no ano passado, quando 1.528 pessoas foram mortas dessa forma. O ápice recente ocorreu em 2010, quando os homicídios somavam 1.639 vítimas.

O coordenador do Observatório Interdisciplinar de Segurança Pública da Bahia, Carlos Alberto da Costa Gomes, afirmou, por meio de um estudo sobre a eficácia das políticas públicas no Estado da Bahia, que "os dados da Secretaria de Segurança Pública enfrentam diversos problemas. Entre as dificuldades de trabalho com esta base de dados está a impossibilidade de se obter as tabelas originais e a mentalidade ou cultura organizacional voltada para preservação da informação".

Procurada pelo Terra , a Secretaria de Segurança do Estado da Bahia informou que os dados disponibilizados são computados sem averiguação, apenas para facilitar o trabalho dos jornalistas, mas não são precisos, podendo gerar distorções. A Polícia Civil baiana foi sugerida como fonte, mas por sua vez, a assessoria da polícia afirmou que as informações sobre políticas de segurança são de responsabilidade do governo.

A Secretaria de Segurança informou ainda que apesar dos números serem altos, eles têm apresentado uma pequena diminuição, graças a programas de combate à violência, como a instalação de Bases Comunitárias de Seguranças, semelhantes às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do Rio de Janeiro.

"Muitos fatores contribuem para a atual escalada da violência na Bahia e no Brasil. Vale dizer que o marginal, o homicida de hoje, há 10, 15 anos era apenas uma criança, que não teve suas necessidades atendidas pelo Estado e pela família. Portanto, cuidar dos atuais fatores da violência sem atuar também nas causas é como enxugar gelo. E a maior causa de tanta violência é o social - ou seja - falta de educação, emprego, saúde, Justiça etc", afirma do deputado estadual Capitão Tadeu (PSB), que trabalhou como policial militar.

Segundo o parlamentar, que atuou na linha de frente de negociação com a Polícia Militar durante a greve deflagrada no ano passado, em 2011 foram investidos R$ 2,57 bilhões em segurança pública, contabilizando recursos estaduais e federais. "O numerário não é expressivo, e ainda devemos nos ater a uma gestão mais atenta, em especial aos desperdícios. E valorar quem de fato importa, o ser humano, o profissional de segurança", diz capitão Tadeu.

Onda de violência
Desde o início do ano, 100 policiais foram assassinados no Estado. Desse total, 21 eram aposentados e três estavam em serviço. Além disso, o Estado continua a enfrentar um grande índice de violência. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, só na capital foram registrados 1.135 casos de homicídios dolosos entre janeiro e outubro, mais do que todo o ano de 2011. O mês de outubro foi o mais violento dos dois últimos anos na cidade, com 176 mortos. Em todo o Estado, foram 4.007 casos registrados desde janeiro.

Em fevereiro deste ano, os policiais entraram em greve e ameaçaram cancelar o Carnaval
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Foto: Marcello Casal Jr / Futura Press
Terra

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