Caso Goleiro Bruno
 
 

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 Com medo de Bola, delegado do caso Bruno diz ter mudado rotina
01 de fevereiro de 2012 20h12 atualizado às 20h15

José Guilherme Camargo
Direto de Belo Horizonte

Em depoimento prestado nesta quarta-feira no Departamento de Operações Especiais (Deoesp) da Polícia Civil, o delegado Edson Moreira, chefe do Departamento de Investigações de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), confessou que se sente ameaçado pelo ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, investigado por arquitetar um suposto plano para matar, além de Moreira, a juíza Marixa Fabiane Lopes Rodrigues do Fórum de Contagem (MG); o deputado estadual Durval Ângelo (PT-MG); o advogado José Arteiro Cavalcante Lima, representante de Sônia de Fátima Moura, mãe de Eliza Samudio; e também o advogado Ércio Quaresma, ex-defensor de Bruno, atual advogado do próprio Bola.

Moreira afirmou que o medo de sofrer um atentado o levou a mudar a rotina. "É sempre bom ter cautela. Quem não tem medo? Não saio tanto como saía antes, não fico de bobeira em certos lugares", disse. "Já fui ameaçado diversas vezes, direta e indiretamente, e continuo recebendo ameaças de várias pessoas. Mas como policial, se eu tiver medo, eu tenho que ir embora. Quem está vivo, só tem um fim: a morte. Isso é certo. Então, se chegou a minha hora, vamos enfrentar. Não quero não, mas o que posso fazer?", relatou.

O delegado diz acreditar que Bola seja capaz de organizar o crime. "Foi provado isso. Já está na Justiça. Está provado que ele é um homicida contumaz. Se tem disposição? Tem. Depois que o Bola foi exposto na mídia, aí apareceram testemunhas de muitos homicídios que ele praticou", lembrou.

O suposto plano foi denunciado pelo detento Jaílson Oliveira, da penitenciária Nelson Hungria, em abril do ano passado, e contaria com o auxílio do traficante Nem, da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Moreira não confirmou ameaças de Bola. De acordo com o delegado Islande Batista, chefe do Deoesp, ainda faltam mais duas supostas vítimas serem ouvidas: a juíza Marixa e o advogado José Cavalcanti. Preso, Nem deverá prestar depoimento na penitenciária de Campo Grande, até a próxima semana.

O caso Bruno
Eliza desapareceu no dia 4 de junho de 2010 quando teria saído do Rio de Janeiro para Minas Gerais a convite de Bruno. No ano anterior, a estudante paranaense já havia procurado a polícia para dizer que estava grávida do goleiro e que ele a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos. Após o nascimento da criança, Eliza acionou a Justiça para pedir o reconhecimento da paternidade de Bruno.

No dia 24 de junho, a polícia recebeu denúncias anônimas de que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. Na noite do dia 25 de junho, a polícia foi ao local e recebeu a informação de que o bebê apontado como filho do atleta, então com 4 meses, estava lá. A mulher do goleiro, Dayanne Rodrigues do Carmo Souza, negou a presença da criança na propriedade. No entanto, durante depoimento, um dos amigos de Bruno afirmou que havia entregado o menino na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, onde foi encontrado.

Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza seguindo denúncias anônimas, em entrevista a uma rádio no dia 6 de julho, um motorista de ônibus disse que seu sobrinho participou do crime e contou em detalhes como Eliza foi assassinada. O menor citado pelo motorista foi apreendido na casa de Bruno no Rio. Ele é primo do goleiro e, em dois depoimentos, admitiu participação no crime. Segundo a polícia, o jovem de 17 anos relatou que a ex-amante de Bruno foi levada do Rio para Minas, mantida em cativeiro e executada pelo ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola ou Neném, que a estrangulou e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães.

No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Pouco depois, Flávio Caetano de Araújo, Wemerson Marques de Souza, o Coxinha Elenilson Vitor da Silva e Sérgio Rosa Sales, outro primo de Bruno, também foram presos por envolvimento no crime. Todos negam participação e se recusaram a prestar depoimento à polícia, decidindo falar apenas em juízo.

No dia 30 de julho, a Polícia de Minas Gerais indiciou todos pelo sequestro e morte de Eliza, sendo que Bruno foi apontado como mandante e executor do crime. Além dos oito que foram presos inicialmente, a investigação apontou a participação de uma namorada do goleiro, Fernanda Gomes Castro, que também foi indiciada e detida. O Ministério Público concordou com o relatório policial e ofereceu denúncia à Justiça, que aceitou e tornou réus todos os envolvidos. O jovem de 17 anos, embora tenha negado em depoimentos posteriores ter visto a morte de Eliza, foi condenado no dia 9 de agosto pela participação no crime e cumprirá medida socioeducativa de internação por prazo indeterminado.

No início de dezembro, Bruno e Macarrão foram condenados pelo sequestro e agressão a Eliza, em outubro de 2009, pela Justiça do Rio. O goleiro pegou quatro anos e seis meses de prisão por cárcere privado, lesão corporal e constrangimento ilegal, e seu amigo, três anos de reclusão por cárcere privado. Em 17 de dezembro, a Justiça mineira decidiu que Bruno, Macarrão, Sérgio e Bola serão levados a júri popular por homicídio triplamente qualificado, sendo que o último responderá também por ocultação de cadáver. Dayanne, Fernanda, Elenilson e Wemerson também irão a júri popular, mas por sequestro e cárcere privado. Além disso, a juíza decidiu pela revogação da prisão preventiva dos quatro. Flávio, que já havia sido libertado após ser excluído do pedido de MP para levar os réus a júri popular, foi absolvido. Além disso, nenhum deles responderá pelo crime de corrupção de menores.

Especial para Terra