- José Guilherme Camargo
- Direto de Belo Horizonte
Em depoimento prestado nesta quarta-feira no Departamento de Operações Especiais (Deoesp) da Polícia Civil, o delegado Edson Moreira, chefe do Departamento de Investigações de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), confessou que se sente ameaçado pelo ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, investigado por arquitetar um suposto plano para matar, além de Moreira, a juíza Marixa Fabiane Lopes Rodrigues do Fórum de Contagem (MG); o deputado estadual Durval Ângelo (PT-MG); o advogado José Arteiro Cavalcante Lima, representante de Sônia de Fátima Moura, mãe de Eliza Samudio; e também o advogado Ércio Quaresma, ex-defensor de Bruno, atual advogado do próprio Bola.
Moreira afirmou que o medo de sofrer um atentado o levou a mudar a rotina. "É sempre bom ter cautela. Quem não tem medo? Não saio tanto como saía antes, não fico de bobeira em certos lugares", disse. "Já fui ameaçado diversas vezes, direta e indiretamente, e continuo recebendo ameaças de várias pessoas. Mas como policial, se eu tiver medo, eu tenho que ir embora. Quem está vivo, só tem um fim: a morte. Isso é certo. Então, se chegou a minha hora, vamos enfrentar. Não quero não, mas o que posso fazer?", relatou.
O delegado diz acreditar que Bola seja capaz de organizar o crime. "Foi provado isso. Já está na Justiça. Está provado que ele é um homicida contumaz. Se tem disposição? Tem. Depois que o Bola foi exposto na mídia, aí apareceram testemunhas de muitos homicídios que ele praticou", lembrou.
O suposto plano foi denunciado pelo detento Jaílson Oliveira, da penitenciária Nelson Hungria, em abril do ano passado, e contaria com o auxílio do traficante Nem, da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Moreira não confirmou ameaças de Bola. De acordo com o delegado Islande Batista, chefe do Deoesp, ainda faltam mais duas supostas vítimas serem ouvidas: a juíza Marixa e o advogado José Cavalcanti. Preso, Nem deverá prestar depoimento na penitenciária de Campo Grande, até a próxima semana.
O caso Bruno
Eliza desapareceu no dia 4 de junho de 2010 quando teria saído do Rio de Janeiro para Minas Gerais a convite de Bruno. No ano anterior, a estudante paranaense já havia procurado a polícia para dizer que estava grávida do goleiro e que ele a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos. Após o nascimento da criança, Eliza acionou a Justiça para pedir o reconhecimento da paternidade de Bruno.
No dia 24 de junho, a polícia recebeu denúncias anônimas de que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. Na noite do dia 25 de junho, a polícia foi ao local e recebeu a informação de que o bebê apontado como filho do atleta, então com 4 meses, estava lá. A mulher do goleiro, Dayanne Rodrigues do Carmo Souza, negou a presença da criança na propriedade. No entanto, durante depoimento, um dos amigos de Bruno afirmou que havia entregado o menino na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, onde foi encontrado.
Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza seguindo denúncias anônimas, em entrevista a uma rádio no dia 6 de julho, um motorista de ônibus disse que seu sobrinho participou do crime e contou em detalhes como Eliza foi assassinada. O menor citado pelo motorista foi apreendido na casa de Bruno no Rio. Ele é primo do goleiro e, em dois depoimentos, admitiu participação no crime. Segundo a polícia, o jovem de 17 anos relatou que a ex-amante de Bruno foi levada do Rio para Minas, mantida em cativeiro e executada pelo ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola ou Neném, que a estrangulou e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães.
No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Pouco depois, Flávio Caetano de Araújo, Wemerson Marques de Souza, o Coxinha Elenilson Vitor da Silva e Sérgio Rosa Sales, outro primo de Bruno, também foram presos por envolvimento no crime. Todos negam participação e se recusaram a prestar depoimento à polícia, decidindo falar apenas em juízo.
No dia 30 de julho, a Polícia de Minas Gerais indiciou todos pelo sequestro e morte de Eliza, sendo que Bruno foi apontado como mandante e executor do crime. Além dos oito que foram presos inicialmente, a investigação apontou a participação de uma namorada do goleiro, Fernanda Gomes Castro, que também foi indiciada e detida. O Ministério Público concordou com o relatório policial e ofereceu denúncia à Justiça, que aceitou e tornou réus todos os envolvidos. O jovem de 17 anos, embora tenha negado em depoimentos posteriores ter visto a morte de Eliza, foi condenado no dia 9 de agosto pela participação no crime e cumprirá medida socioeducativa de internação por prazo indeterminado.
No início de dezembro, Bruno e Macarrão foram condenados pelo sequestro e agressão a Eliza, em outubro de 2009, pela Justiça do Rio. O goleiro pegou quatro anos e seis meses de prisão por cárcere privado, lesão corporal e constrangimento ilegal, e seu amigo, três anos de reclusão por cárcere privado. Em 17 de dezembro, a Justiça mineira decidiu que Bruno, Macarrão, Sérgio e Bola serão levados a júri popular por homicídio triplamente qualificado, sendo que o último responderá também por ocultação de cadáver. Dayanne, Fernanda, Elenilson e Wemerson também irão a júri popular, mas por sequestro e cárcere privado. Além disso, a juíza decidiu pela revogação da prisão preventiva dos quatro. Flávio, que já havia sido libertado após ser excluído do pedido de MP para levar os réus a júri popular, foi absolvido. Além disso, nenhum deles responderá pelo crime de corrupção de menores.
- Especial para Terra

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