Polícia

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15 de abril de 2013 • 19h35 • atualizado às 19h43

Carandiru: preso diz ter escapado de 'massacre' ao se fingir de morto

'Fiquei no meio dos corpos com sangue quente batendo na minha orelha', disse o detento, que vive hoje em uma cadeira de rodas

Julgamento do Carandiru começa nesta segunda-feira no Fórum Criminal da Barra Funda (zona oeste)
Foto: Fernando Borges / Terra

O detento Luiz Alexandre de Freitas está há 23 anos no sistema penitenciário. Cumpre, segundo ele próprio, pena por seis assaltos, com agravantes, inclusive disciplinares. Está no regime semiaberto na Penitenciária de Marília, no interior de São Paulo. Hoje ele vive sobre uma cadeira de rodas, é portador do vírus HIV e tem neurotoxoplasmose, infecção no cérebro em pessoas que têm baixa imunidade. Ele diz que só está vivo hoje porque se escondeu no meio dos corpos dos presos que foram assassinados durante o episódio que ficou conhecido como "Massacre do Carandiru", em 1992, na Casa de Detenção de São Paulo.

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"Depois dos tiros, fiquei caído no chão, cheguei a levar uma 'baionetada' na perna, mas não me mexi. Fiquei no meio dos corpos com sangue quente batendo na minha orelha", disse ele. "Disseram para quem estivesse vivo levantar, mas fiquei quieto. Foi a minha sorte. Fiquei 40 minutos embaixo dos mortos", afirmou.
 
Com o corte na perna - que ele afirma ter sido provocado pelos PMs - ele deixou a Casa de Detenção para ser medicado no Hospital do Mandaqui. O preso diz desconfiar que contraiu o HIV nessa data. "Eu não tinha nada. A partir dali acabou a minha vida", disse.


 
Ele diz que depois que foi "descoberto" entre os mortos teve de descer, mesmo ferido, para o pátio, e só escapou da morte porque um policial disse que o preso parecia com o filho dele. "Confirmo isso e sei quem é", disse ele, apontando para um dos réus que estava no plenário.
 
Ao todo, 111 detentos morreram após a polícia invadir o pavilhão 9 do presídio, depois de uma briga entre dois presos dar início a uma rebelião. Devido ao número de réus, o júri foi desmembrado de acordo com o número de mortes ocorridas em cada pavimento e, neste primeiro julgamento, 26 dos 84 policiais militares denunciados por homicídio serão julgados por 15 mortes registradas no segundo andar. O júri é formado por seis homens e uma mulher e acontece no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo.  Vinte e três testemunhas foram convocadas pela defesa e pelo Ministério Público. 

Julgamento
Passados 20 anos do episódio que terminou com 111 presos mortos no Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, em outubro de 1992, 26 policiais militares serão julgados pelo caso que ficou conhecido como Massacre do Carandiru.

Pelo menos 79 PMs acusados de envolvimento nas mortes aguardam julgamento. O único que recebeu a sentença foi o coronel da Polícia Militar Ubiratan Guimarães, que coordenava a operação no dia do massacre, mas teve sua pena de 632 anos de prisão anulada em 2006, sete meses antes de ser assassinado.

Em 2 de outubro de 1992, uma briga entre presos da Casa de Detenção de São Paulo - o Carandiru - deu início a um tumulto no Pavilhão 9, que culminou com a invasão da Polícia Militar e a morte de 111 detentos. Entre as versões para o início da briga está a disputa por um varal ou pelo controle de drogas no presídio por dois grupos rivais. Ex-funcionários da Casa de Detenção afirmam que a situação ficou incontrolável e por isso a presença da PM se tornou imprescindível.

A defesa afirma que os policiais militares foram hostilizados e que os presos estavam armados. Já os detentos garantem que atiraram todas as armas brancas pela janela das celas assim que perceberam a invasão. Do total de mortos, 102 presos foram baleados e outros nove morreram em decorrência de ferimentos provocados por armas brancas. De acordo com o relatório da Polícia Militar, 22 policiais ficaram feridos. Nenhum deles a bala.

Terra