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Carandiru: oficial da Rota diz que PMs foram atacados com materiais com HIV

31 jul 2013
20h58
atualizado às 23h15
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O major da Polícia Militar Marcelo Gonzáles Marques, um dos 25 policiais militares acusados por 73 das 111 mortes ocorridas em 2 de outubro de 1992, na Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, afirmou nesta quarta-feira em depoimento no julgamento do caso, no Fórum da Barra Funda, na capital paulista, que, além de armas de fogo e armas brancas, os policiais receberam informações de que os detentos utilizariam seringas contaminadas com o vírus HIV, além de sacos com fezes e urina também contaminada, para tentar conter a ação dos policiais.

<p>Julgamento de policiais pelo massacre do Carandiru ocorre no Fórum da Barra Funda</p>
Julgamento de policiais pelo massacre do Carandiru ocorre no Fórum da Barra Funda
Foto: Fernando Borges / Terra

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Segundo o então tenente da Polícia Militar e integrante das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), em reunião com o então diretor da Casa de Detenção, José Ismael Pedrosa, com juízes de direito e oficiais da Polícia Militar, entre eles o coronel da PM Ubiratan Guimarães, comandante da invasão da penitenciária, informações apontavam que os presos estariam armados e que, entre eles, havia mortos. 

De acordo com o depoimento do policial, Pedrosa alertou a PM sobre um possível risco de ampliação da rebelião para outros pavilhões e uma fuga em massa. Segundo ele, o diretor da Casa de Detenção afirmou que a administração do local já havia perdido a possibilidade de controle da situação e que a ação da polícia era necessária. 

Segundo Marques, segundo a depor nesta quarta-feira, já que 18 réus permaneceram em silêncio, Pedrosa disse ser iminente a necessidade de uma intervenção policial. “Ele foi enfático em dizer que era urgente (a necessidade de intervenção policial no local)”, disse.

Com a situação passada pela administração da cadeia, Ubiratan teria informado o então secretário de Segurança Pública do Estado, Pedro Franco de Campos, que autorizou o PM a dar início a operação caso acreditasse haver necessidade. 

De acordo com o policial, em um primeiro momento, quem faria a entrada inicial no presídio era a Tropa de Choque, não a Rota. Ele considera que a mudança na ordem ocorreu pelo fato de haver possibilidade de conflito armado entre rebelados e policiais. “É uma das atribuições da Rota (agir em conflitos com arma de fogo)”, disse.

‘Ataques vinham de cima’
O policial afirmou que os homens da Rota foram atacados por presos com diversos objetos, desde máquinas de escrever e vasos sanitários à armas brancas. “Eram lançadas, não estavam jogadas”, disse. Questionado sobre de onde partiam os objetos, Marques disse que “vinham de cima”.

Ao chegar ao segundo andar, chamado de terceiro pavimento, do pavilhão 9 da Casa de Detenção, o policial, que fazia a retaguarda na ação, afirma que a polícia foi alvo de disparos de armas de fogo. “Então revidamos”, disse, sem saber se os tiros efetuados pela PM atingiram detentos. “A única coisa que conseguíamos verbalizar era: ‘larga a arma e entra na cela’”, afirmou, sobre o avanço da PM nos corredores do pavimento.

Segundo ele, havia muita fumaça de colchões queimados, óleo de cozinha jogado no chão e a visibilidade era muito baixa no local. 

De acordo com o relato do policial, houve quatro confrontos entre policiais e detentos no pavimento, três com disparos e um corporal. No último deles, ele teria sido esfaqueado e disparado tiros com seu revólver 38. Questionado, ele não informou quantos tiros foram dados nem se eles atingiram alguma pessoa.

Segundo Marques, entre oito e 10 detentos ficaram feridos após os confrontos e cerca de três ou quatro armas de fogo foram apreendidas. Ele negou que os policiais tenham feito disparos dentro das celas.

Ainda de acordo com o relato do PM, assim que o combate cessou, a Tropa de Choque chegou ao andar e ordenou que os homens da Rota deixassem o local. “Vai para o hospital”, teria sido a ordem recebida.

Assim como afirmou Mendonça, Marques, questionado pela defesa, disse que os réus só estão sendo julgados por afirmarem que efetuaram disparos durante a ação. "Tinha oito ou 10 feridos e agora respondemos por mais de 70 mortes", disse. 

De acordo com ele, por não afirmarem que dispararam tiros de arma de fogo, os homens do 2º Batalhão de Choque não foram denunciados e, por isso, não respondem na Justiça pela ação.

Contradição
Questionado pelo assistente Eduardo Olavo Canto Neto, Marques afirmou que não viu o coronel Valter Alves de Mendonça recolher armas, contradizendo o depoimento do PM dado hoje.  "Subimos gritando palavras de ordem: ‘entrem nas celas’. Três deles gemiam de dor no corredor. Recolhi pelo menos duas armas com eles", afirmou Mendonça. O promotor lembrou que, nos depoimentos anteriores, o policial nunca citou ter encontrado um preso morto sem cabeça. "Na época não achei relevante", justificou-se Mendonça.

Marques, que estava sob o comando de Mendonça, afirmou que não viu, em sua entrada, corpos no pátio de entrada da penitenciária, diferente do que afirmou o coronel. 

Mendonça contou que, já na entrada do prédio, pode ver quatro corpos, um deles decapitado. Já Marques diz ter encontrado corpos de detentos apenas após chegar ao terceiro pavimento.

Julgamento 
O terceiro dia do julgamento dos 25 policiais militares acusados por 73 das 111 mortes ocorridas em 2 de outubro de 1992, na Casa de Detenção de São Paulo, nesta quarta-feira, está reservado para o interrogatório dos réus. 

Esta é a segunda etapa do julgamento, que começou em abril com a condenação de 23 policiais militares - todos integrantes do 1º Batalhão de Choque (a Rota - Rondas Ostensivas Tobias Aguiar). Eles receberam uma pena de 156 anos de prisão, em regime fechado, por conta de 13 das 15 mortes ocorridas no primeiro andar do prédio. Todos recorrem da sentença em liberdade.

Nessa primeira etapa, os policiais receberam a pena mínima para cada homicídio, que é de seis anos, somada a mais seis anos por impossibilitarem a defesa das vítimas. Os 12 anos foram multiplicados pelas 13 mortes para se chegar ao resultado final da sentença. Na ocasião, o júri ainda absolveu três PMs denunciados: Roberto Alberto da Silva, Eduardo Espósito e Maurício Marchese Rodrigues, seguindo recomendação do próprio Ministério Público. A justificativa é que eles não atuaram no 1º andar do pavilhão com a tropa. 

Relembre o caso
Em 2 de outubro de 1992, uma briga entre presos da Casa de Detenção de São Paulo - o Carandiru - deu início a um tumulto no Pavilhão 9, que culminou com a invasão da Polícia Militar e a morte de 111 detentos. Os policiais são acusados de disparar contra presos que estariam desarmados. A perícia constatou que vários deles receberam tiros pelas costas e na cabeça.

Entre as versões para o início da briga está a disputa por um varal ou pelo controle de drogas no presídio por dois grupos rivais. Ex-funcionários da Casa de Detenção afirmam que a situação ficou incontrolável e por isso a presença da PM se tornou imprescindível.

A defesa afirma que os policiais militares foram hostilizados e que os presos estavam armados. Já os detentos garantem que atiraram todas as armas brancas pela janela das celas assim que perceberam a invasão. Do total de mortos, 102 presos foram baleados e outros nove morreram em decorrência de ferimentos provocados por armas brancas. De acordo com o relatório da Polícia Militar, 22 policiais ficaram feridos.

Fonte: Terra
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