Polícia

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16 de abril de 2013 • 13h10 • atualizado às 13h13

Após ameaças, testemunha usa 2 coletes em júri por morte de juíza

Inspetor Ricardo Moreira tem escolta 24 horas por dia e já sofreu dois atentados por investigar envolvidos no assassinato da juíza

Familiares de Patrícia Accioli chegam para acompanhar o julgamento de um dos PMs acusados pela morte da juíza
Foto: André Naddeo / Terra
  • André Naddeo
    Direto de Niterói
 

Em seu quinto julgamento como testemunha de acusação dos policiais militares envolvidos no assassinato da juíza Patrícia Acioli, morta com 21 tiros na porta de casa, na região oceânica de Niterói (RJ), o inspetor da Polícia Civil Ricardo Moreira chegou ao 3º Tribunal de Júri no município vizinho ao Rio de Janeiro vestido com dois coletes à prova de balas. Ele é a terceira testemunha de acusação a ser ouvida no processo que julga a participação do PM Carlos Adílio Maciel Santos na morte da magistrada.

"Estou usando dois coletes para suportar impacto de balas maiores. Uso até dentro de casa", esclareceu para o assistente de acusação, Técio Lins e Silva, o inspetor, que afirmou já ter sofrido duas ameaças por investigar desde o início a suposta quadrilha formada por membros do Grupamento de Ações Táticas (GAT), que atuava em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio.

"Tenho escolta da Polícia Civil por 24 horas. Quando vou à área externa da minha casa sempre estou de colete. Já tentaram me matar duas vezes", completou ainda Moreira, que em seu depoimento corroborou a tese da acusação de que Carlos Adílio, ao lado de Sammy Quintanilha, outro PM acusado da morte da juíza, foi executor da morte de um menor no complexo do Salgueiro, também em São Gonçalo.

O falso auto de resistência (ação em legítima defesa) forjado pelos dois policiais, investigado por Moreira, culminou na prisão preventiva decretada por Patrícia Acioli, fato que teria sido o estopim para que o grupo decidisse pela morte da magistrada.

"Vai conhecer Jesus"
Carlos Adílio Maciel Santos, cujas acusações são homicídio triplamente qualificado (por motivo torpe) e formação de quadrilha, tinha o apelido de "Jesus" dentro do GAT. Isso porque costumava dizer às vítimas que "elas iriam conhecer Jesus", como relatou o comissário da Polícia Civil, José Carlos Guimarães, da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro e membro das investigações do homicídio da juíza, que culminou na acusação de 11 policiais militares.

Quatro policiais já tiveram condenações entre 22 e 26 anos de reclusão em regime fechado. São eles: Sérgio Costa Júnior, Junior Cezar de Medeiros, Jefferson de Araújo Miranda e Jovanis Falcão Júnior. "A comunidade do Salgueiro, que era o reduto do Carlos Adílio, é composta por evangélicos, então ele se autodenominava 'Jesus' para afrontá-los", completou ainda o inspetor Moreira.

Dentro do GAT, de acordo também com a primeira testemunha de acusação a ser ouvida, o delegado titular da DH na época do assassinato, Felipe Ettore, "Carlos Adílio participava da quadrilha, que arrecadava espólios (extorsões e propinas de traficantes) de R$ 11 mil por semana". Tais ações ocorriam nos complexos de favela da Coruja e do Salgueiro, em São Gonçalo.

Foi nesta última comunidade que a quadrilha decidiu assassinar Patrícia Acioli, após a juíza expedir ordem de prisão contra o PM por um falso auto de resistência (quando a morte ocorre em legítima defesa), em função da execução de um adolescente. Também foi preso nesta ocasião outro PM, Sammy dos Santos Quintanilha, ainda a ser julgado.

"Ele abriu mão da parte dele (no espólio) para que o crime fosse praticado", explicou ainda Ettore, referendando a tese de que o réu ajudou a custear o crime bárbaro, complementado pelo comissário Guimarães. "Com este dinheiro que todos concordaram em abrir mão, eles compraram a moto e o carro usados na noite do crime, além de aparelhos celulares", explicou.

O advogado de defesa Robson Barcellos, por sua vez, tenta desconstruir a tese de formação de quadrilha, além de abordar que o seu cliente em nenhum momento foi flagrado em escutas telefônicas da Polícia Civil. Barcellos questionou Ettore acerca do tema.

"Estava preso e não há dúvidas que ele não foi autor dos disparos e não esteve no local, mas fez parte do planejamento e teve participação financeira dele", retrucou o ex-delegado da DH, que ainda citou uma conversa da irmã do réu, Glaucia Maciel Santos, cujo celular estava em nome de Carlos Adílio.

"Ela conversa com o pai dos filhos dela e diz que não tinha mais nada ali, que tudo havia sido retirado", explicou sobre a busca e apreensão autorizada pela Justiça, em vias de execução, na época. Além do próprio acusado, serão arroladas outras cinco testemunhas (uma foi dispensada) dentro do júri popular, formado por seis mulheres e um homem. O julgamento que só deve ter o seu veredito após as 21h desta terça-feira.

Líderes da quadrilha
Ao chegar para o julgamento da morte da irmã, Simone Acioli, como tem feito em outros júris já realizados sobre o assassinato da magistrada, lembrou que ainda aguarda pela condenação dos policiais que considera os mentores da morte de Patrícia: o tenente Daniel Santos Benitez Lopes e o coronel Claudio Luiz de Oliveira.

Benitez era o comandante das guarnições do GAT, abaixo na hierarquia de Oliveira, então comandante do 7º BPM (São Gonçalo), tido como o líder da quadrilha em questão. "Não vamos sossegar, continuamos esperando o julgamento do Benitez e do coronel", fez questão de lembrar mais uma vez Simone Acioli.  Preso em um presídio federal em Rondônia, Claudio Oliveira ainda não tem data para ser julgado, pois recorre do processo em nível federal.

Simone disse ainda ter certeza de que o réu desta terça-feira "fez parte do complô para matar ela, todos têm culpa".  "Esperamos justiça", limitou-se a afirmar a mãe da juíza, Marli Acioli, também presente ao júri. Também estão no 3º Tribunal de Júri de Niterói, onde ocorre o julgamento, o ex-marido de Patrícia, Wilson Chagas, e o primo da juíza, Humberto Nascimento. O julgamento é presidido pelo magistrado Peterson Barroso Simão.

Terra