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Petrobras: barão belga usa políticos corruptos, diz industrial

O francês Jean-Marie Kuhn, que levou aos tribunais o megaempresáro Albert Frère por venda superfaturada, aponta que políticos são corrompidos para fazer negócios com governos

7 abr 2014
13h15
atualizado às 15h11
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O industrial francês Jean-Marie Kuhn, 57 anos, tem feito diversas denúncias contra o barão belga Albert Frère, principal acionista da Astra Transcor Energy, empresa que assinou com a Petrobras e fez o Estado brasileiro perder quase US$ 1 bilhão após a compra conjunta da refinaria de Pasadena, no Estado americano do Texas. Kuhn, atual membro da ONG anticorrupção Anticor na França, levou aos tribunais franceses e belgas ações contra outro negócio de Frère, referente à venda superfaturada da rede de hamburguerias belga Quick. Criada em 1971 na Bélgica, a Quick foi vendida por Frère ao Estado francês por meio da holding de investimentos CDC, durante o mandato de Nicolas Sarkozy. A Bélgica atualmente investiga se ocorreu fraude fiscal no negócio de venda da empresa.

<p>O industrial Jean-Marie Kuhn fez série de deúncias contra o barão belga Albert Frère</p>
O industrial Jean-Marie Kuhn fez série de deúncias contra o barão belga Albert Frère
Foto: Divulgação

Kuhn aponta que o megaempresário usa políticos para lucrar nas suas negociações e reforça que o esquema pode ter sido usado no contrato envolvendo a empresa brasileira. "Os políticos nunca são enganados ou iludidos, eles agem com conhecimento de causa e, naturalmente, ( acabam ) recompensados por Frère", afirmou o frânces ao Terra .

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

Terra - Em 1995, o senhor adquiriu a empresa Disport da GIB, uma subsidiária do grupo Albert Frère. Após um conflito sobre a venda da empresa, o senhor deu início a uma luta para investigar as transações financeiras de Albert Frère. Como o definiria hoje?

Jean-Marie Kuhn - Eu pude ver que ele tinha sempre o mesmo procedimento de se aproximar dos políticos  de direita, como de esquerda, e depois corrompê-los para fazer negócios com o Estado. Estes casos continuam e são muito semelhantes: fazer com que recomprem com preços supervalorizados suas empresas que estão doentes; co-investir com o Estado em empresas e fornecer cláusulas para obrigar a autoridade pública a recomprar suas ações quando desejar, com um ganho astronômico. Os políticos nunca são enganados ou iludidos, eles agem com conhecimento de causa e, naturalmente, recompensados por Frère. Portanto, ele conclui um pacto de corrupção real com os políticos que garante uma lealdade absoluta, tornando-se cúmplices de Frère. Em seguida, essa influência lhe permite ser apresentado a políticos com poder decisório de Estado e de fazer seus negócios como bem entende, valendo-se sempre de suas relações de alto nível.

Terra -  O senhor ainda pensa que a Caixa de Depósitos e Consignações (CDC) também teria pagado em excesso pela rede de lanchonetes Quick de forma a enriquecer Albert Frère e que um "pacto de corrupção" ligaria o bilionário belga ao ex-presidente da República Francesa, Nicolas Sarkozy?

Kuhn - Sem dúvida alguma. Quick foi pago em excesso de pelo menos 500 milhões de euros. A direita francesa dividiu papeis e lucros em outubro de 2006. O presidente Jacques Chirac e seu primeiro ministro, Dominique Villepin, fizeram um pacto de corrupção com Frère e Sarkozy. Villepin renunciou à presidência em troca do acordo sobre a venda de Quick e à fusão da GDF com Suez. Frère vendeu Quick a um preço astronômico, Sarkozy estava certo de ser eleito e ele se comprometeu a realizar a fusão GDF-Suez. Então, sim, houve um pacto de corrupção, mas maior e mais grave do que pensava a princípio. Frère, conforme o caso, tem investido os recursos daquela corrupção em GDF-Suez, que é portanto receptora de fundos ilegais.

Terra - Há oito anos o senhor tem feito denúncias contra Albert Frère. Vale a pena? O que o senhor espera da justiça belga em relação a ele?

Kuhn - Uma luta, quando a causa é justa, sempre vale a pena. E quando se trata de corrupção, tocamos a mais bela de todas as causas! Minha reclamação na Bélgica já produziu efeitos tremendos. A informação em minha posse de início, e todas aquelas que me foram entregues, somada às investigações judiciais me dão hoje um conhecimento perfeito de todo o caso, uma corrupção de 1,2 bilhão de euros que envolve uma elite política e financeira da França e da Bélgica. Investigações têm revelado que a fraude fiscal (no caso Quick) poderia ultrapassar os 100 milhões de euros em detrimento do Estado belga. Atualmente três investigações estão em curso na Bélgica, desde que abri minha reclamação judicial, e desde janeiro de 2014, há uma investigação fiscal pela Inspeção Especial de Tributação e uma investigação do Tribunal de Bruxelas por aspectos criminais de fraude fiscal. Isso já é concreto, imagine se o Estado belga conseguir recuperar esses 100 milhões de euros de impostos!

Terra - O senhor deve estar a par de que um negócio de Albert Frère com a empresa brasileira Petrobras está provocando um grande debate político e polêmico no Brasil. Há suspeita de que a Petrobras também teria pagado Albert Frère em excesso. O senhor tem ideia por que isso poderia ter acontecido?

Kuhn - Não conheço o caso em detalhes e me abstenho de prejulgá-lo por inteiro. Mas sei que Frère contabilizou bem antes do julgamento em seu favor tornar-se definitivo, o produto o tribunal americano lhe atribuiu. Isso lhe permitiu equilibrar suas contas e publicar um balanço favorável. Foi a mesma coisa com Quick, onde também foi incluído nas suas contas o lucro da venda antes do vencimento, o que lhe salvou de um saldo negativo em nível de transações de capital e, assim, pôde continuar a angariar fundos no mercado de ações. Quando pesquisei este assunto da Petrobras, reconheci imediatamente o mesmo modo de operar utilizado no meu caso e em outros que me foram trazidos. A única questão é se os políticos brasileiros foram enganados por Frère, por exemplo, com cláusulas adicionais. Se esse for o caso, as investigações são "mamão com açúcar", porque basta comparar o projeto de contrato aprovado pelo Conselho de Administração da Petrobras com o contrato final e identificar os autores das partes adicionais, é fácil! No entanto, devo acrescentar que o método de Frère não é para enganá-los, mas para envolver os políticos em corrupção... Uma constante nas operações realizadas entre Frère e os políticos é que é sempre o Estado o perdedor e encontrado na posição de vítima. E as verdadeiras vítimas desses predadores são empresários que respeitam as regras e as pessoas sem posses.

Terra - Albert Frère investiu em empresas de mídia na Bélgica como RTL e Dupuis, mas sua empresa Astra Transcor Energia (que assinou com a Petrobras), com base em Antuérpia e na Suíça não tem departamento de relações públicas para atender jornalistas. Não é contraditório investir em meios de comunicação por um lado e por outro, ignorar a imprensa? É algo recorrente em suas empresas?

Kuhn - O Grupo Frère é um castelo de cartas. Ao olhar o organograma de sociedades, podemos entender tudo: é um grupo em cascata com participações cruzadas; empresas em diferentes países, incluindo muitos paraísos fiscais, regimes jurídicos diferentes... Tudo é feito para esconder o inconfessável. Por exemplo, GBL, outra de suas participações que possui com a canadense Power, apresentou recentemente perdas significativas, da ordem de bilhões de euros sobre os interesses da Total e GDF-Suez. A reputação de Frère é superestimada quanto à suas qualidades de investidor. Na verdade, ele paga consultores como Alain Minc na França, um "conselheiro de cabeceira" muito próximo de Nicolas Sarkozy. As empresas Frère são muitas vezes conchas vazias, sem pessoal adequado e sem estruturas significativas. E podemos imaginar que a montagem de um serviço de comunicação estruturada não é de seu interesse, se ele deve responder a cada hora sobre suspeitas de corrupção. Jornalistas que publicaram o meu caso encontraram o mesmo problema, seja sobre seus negócios na Bélgica ou em outro lugar.

Terra - O senhor acha que sua ação contra Frère e essas outras denúncias darão resultados?

Kuhn - Até a minha queixa na Bélgica, Frère conseguiu se sair bem de seus problemas. Mas, depois das ações (na Justiça), tudo está rachando ao redor dele e de seus cúmplices políticos, que também estão com medo da Justiça. Isto quando eles já não foram pegos na engrenagem, como Sarkozy, Chirac e outros, e inclusive no Brasil e no Canadá. Então, para salvar as "peças", a gente assiste a pedidos de demissão um após o outro, que devem acalmar o jogo... Mas hoje, neste mundo que se move em direção à maior igualdade, os cidadãos já não se deixam enganar, o que é muito promissor e encorajador.

Fonte: Especial para Terra

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