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'Pearl Harbor brasileiro' determinou entrada na 2ª Guerra há 70 anos

30 ago 2012
08h12
atualizado às 08h26
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O estopim que determinou a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, há 70 anos, apresenta diversas semelhanças com o que fez os Estados Unidos ingressarem no conflito. Os ataques alemães, ocorridos entre os dias 15 e 17 de agosto de 1942 e que mataram 607 pessoas, motivaram o jornalista Marcelo Monteiro a escrever o livro U-507 - O submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial, que conta com relatos de sobreviventes da tragédia.

No dia 31 de agosto de 1942, o então presidente Getúlio Vargas publicava um decreto declarando guerra à Alemanha e à Itália. A decisão aconteceu dias após o afundamento de cinco navios brasileiros na costa da Bahia e do Sergipe pelo submarino alemão U-507 como parte de uma ofensiva militar ordenada por Adolf Hitler. Foi uma represália pela aproximação do Brasil com os Países da Aliança, principalmente com os Estados Unidos, e pelo rompimento diplomático com o Eixo (Alemanha, Itália e Japão), anunciado em janeiro do mesmo ano. Para Monteiro, guardadas as devidas proporções, o episódio de agosto de 42 na costa nordeste brasileira pode ser comparado com a ofensiva japonesa à base de americana de Pearl Harbor, no Havaí, em 1941, que determinou a entrada dos EUA no conflito mundial.

"Se formos fazer uma análise das circunstâncias - apesar da diferença no números de mortes - elas são bem parecidas: o primeiro ponto é que o Brasil, assim como os Estados Unidos, estava falsamente neutro; além disso, os territórios atingidos nos dois ataques pertenciam ao País agredido; e, o terceiro ponto, é que ambos os episódios foram determinantes para a entrada dos Países na guerra", analisa Monteiro. O jornalista pontua que nos cinco torpedeamentos de navios pelo submarino alemão morreram mais brasileiros do que em campo de batalha (465 militares brasileiros foram mortos durante a Segunda Guerra). "O que me levou a escrever o livro foi o fato de que os brasileiros não conhecem esse episódio que é tão importante na nossa história", conta.

Para o jornalista, os ataques foram motivados pelo desejo de vingança de Hitler. Com o governo dividido, tendo Oswaldo Aranha como o principal defensor da aproximação com os Estados Unidos, o Brasil assinou diversos acordos econômicos com os americanos e isso provocou a ira do ditador alemão. "Essas cinco embarcações não estavam indo para os Estados Unidos, mas levavam borracha, metais e café para Recife, onde depois os americanos iriam buscar", explica Monteiro.

Entre os relatos presentes no livro, um dos mais impressionantes, na opinião do autor, é o de Walderez Cavalcante. Então com 4 anos, ela acompanhava o pai em um dos navios atingidos pelos torpedos nazistas na costa da Bahia e, após o naufrágio, ficou à deriva por três horas agarrada em uma caixa usada para o transporte de leite até ser resgatada. Hoje aposentada e morando em Maceió, Walderez nunca tinha falado sobre o assunto até ser localizada pelo jornalista. "Eu fui a última a ser recolhida. Eles já tinha pego o meu pai e ele perguntou por mim. Quando disseram que eu não tinha sido salva, meu pai falou 'então me larga no mar porque se minha filha não sobreviveu eu também não quero sobreviver'", lembrou Walderez em entrevista ao autor.

Tubarão
Outro relato que surpreendeu o autor foi o do então soldado Dálvaro José de Oliveira, hoje com 92 anos. Ele viajava do Rio de Janeiro para Olinda no navio Itagiba, afundado por um dos torpedos alemães. Após o naufrágio, Dálvaro nadava ao lado de um colega em direção a um dos botes salva-vidas. "De repente, o colega - que estava a menos de um metro dele - dá um urro desesperado e desaparece na água. Ele diz que não viu o que aconteceu, mas a única explicação é que o colega tenha sido devorado por um tubarão", conta Monteiro.

"Depois disso, quando estávamos a bordo de um navio velho para Porto Seguro, 17 soldados de mãos dadas, cantamos o Hino Nacional e juramos ir pra guerra para vingar nossos colegas", conta o tenente Dálvaro em um vídeo gravado pelo jornalista. "Em 44, dois anos depois, ele e mais alguns que estavam naquela tropa foram para a Itália, ajudaram a derrotar os alemães e voltaram para contar a história", lembra Marcelo Monteiro.

Premonições
Filha do capitão do Exército José Tito do Canto, que chefiava a tropa do tenente Dálvaro, Vera Beatriz do Canto, então com 4 anos, foi outra personagem entrevistada pelo jornalista para o livro. Ela conta que, dias antes do embarque, sua mãe, Noêmia do Canto, sonhou com um navio preto, com pessoas vestindo a mesma cor e com o número 13. "No dia 13 de agosto de 1942, às 13h, quando eles chagaram para embarcar, o armazém de onde partiriam era o de número 13", conta o jornalista.

No seu relato, Vera, 74 anos, lembra que se salvou com relativa tranquilidade do naufrágio. Foi colocada em um bota salva-vidas junto com a mãe e carregava um boneco. "Na hora que eles estavam embarcando na baleeira, um soldado pisou no pé do brinquedo e quebrou. Ela lembra que chorou muito por causa disso", conta Monteiro. Minutos depois, os sobreviventes precisavam improvisar uma bandeira branca de paz para o bote e ninguém tinha um pedaço de pano claro. A única coisa que poderia ser usada era a roupa do boneco. "Quando pegaram a roupa do brinquedo ela conta que chorou de novo", afirma Marcelo.

O autor promoveu o reencontro de Walderez Cavalcante e Vera Beatriz do Canto no ano passado. Após 69 anos, as duas conversaram emocionadas e disseram que nunca tinham pensado na possibilidade de se verem outra vez.

A guerra
A Segunda Guerra Mundial começou no dia 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pela Alemanha, e terminou no dia 2 de setembro de 1945, com a vitória dos Países Aliados. O Brasil declarou guerra ao Eixo em 42 e só quase dois anos depois enviou tropas para os campos de batalha. Foram 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira que combateram na Itália seguindo as instruções dos Aliados. Quase todos retornaram e são conhecidos hoje como "pracinhas".

Lucas Rohãn
Fonte: Terra
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