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Parlamentares querem explicações sobre escolha de caças

6 jan 2010
00h44
atualizado às 03h52

O relatório técnico do comando da Aeronáutica sobre o projeto FX-2, de renovação da Força Aérea Brasileira (FAB), que apontou o Gripen N/G, da empresa sueca Saab, como melhor caça a ser adquirido pelo Brasil, segundo o jornal Folha de S.Paulo, já movimenta o Congresso Nacional. O senador Renato Casagrande (PSB-ES) afirmou que chamará o presidente da Comissão de Relações Exteriores, Eduardo Azeredo (PSDB-MG), para fazer uma visita ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, durante o recesso parlamentar, para que o ministro possa explicar quais os critérios que vão nortear a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em setembro do ano passado, Lula já havia sinalizado o interesse de fechar negócio com a empresa francesa Dassault, fabricante do Rafale. O anúncio do presidente foi feito durante a visita do presidente francês Nicolas Sarkozy ao Brasil.

"Agora estamos com dúvidas", afirmou Casagrande, autor do requerimento de convocação de Jobim ao Senado no ano passado. "As dúvidas aumentaram porque o relatório vem contra o que o ministro (Jobim) e o presidente Lula haviam sinalizado", disse.

Na opinião do senador, o governo deve avaliar com atenção o relatório da FAB porque a compra dos caças pesará no Orçamento. "Não sabemos qual o comprometimento que Lula teve com Sarkozy, mas ele deve ter ressaltado que a decisão dependeria também da avaliação técnica", disse.

Para o presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Soberania, deputado Wilson Picler (PDT-PR), o relatório de 30 mil páginas da Aeronáutica é a chance de o presidente Lula reparar "a atitude equivocada" que teve ao anunciar antecipadamente que fecharia a compra com a França.

"Com o relatório nas mãos, o presidente pode mudar de ideia", acredita Picler. "Ele não é obrigado a fechar com a França porque anunciou antes. Somos soberanos e a decisão deve ser pautada pela legítima defesa da soberania brasileira", afirmou.

O deputado é autor de uma abaixo-assinado que defende a priorização da análise técnica da Aeronáutica sobre os aspectos políticos na escolha dos caças militares. O documento foi entregue aos presidentes da Câmara, Michel Temer (PSDB-SP) e José Sarney (PMDB-AP), para que os dois possam defendê-lo no Conselho de Segurança Nacional.

A ideia de coletar as assinaturas surgiu depois de uma audiência pública realizada na Câmara para debater a aquisição dos caças.

"Nos bastidores do debate percebi que já havia uma divergência entre a decisão do Lula pelo Rafale e a análise do comando da Aernáutica. O Lula não precisa da aprovação do Parlamento, mas é preciso considerar a vantagem que o caça sueco tem na questão de transferência de tecnologia", disse Picler.

Em nota, a Aeronáutica afirmou terça-feira que apesar do relatório final de análise técnica das aeronaves concorrentes estar concluído, o mesmo não havia sido enviado Ministério da Defesa. A nota ressalta que o relatório "permanece pautado na valorização dos aspectos comerciais, técnicos, operacionais, logísticos, industriais, compensação comercial e transferência de tecnologia". Até o fechamento da edição desta quarta-feira do Jornal do Brasil, o Ministério da Defesa não havia se manifestado sobre o assunto.

Integração de sistemas é vantagem para suecos
A competição entre os três modelos de caça expõe uma divisão de conceitos clara. Enquanto os americanos da Boeing e os franceses da Dassault trabalham com uma visão de transferência de tecnologia limitada dentro de políticas estratégicas, os suecos da Saab usam um modelo aberto. Em termos técnicos, isso significa que os dois primeiros exercem todo o controle sobre os softwares dos jatos - o cerne da licitação - enquanto os nórdicos balizam a expertise na integração de subsistemas já existentes. Parece complicado, mas seria como ir a um supermercado comprar itens de diferentes fornecedores e depois criar e montar o modelo por conta própria. As peças estão à venda, mas o modo de construção é exclusivo.

"A nossa diferença, principalmente em relação ao Rafale, está no fato de termos uma estratégia horizontalizada de produção do Gripen N/G. Os franceses, por questões de estratégia, têm uma forma mais verticalizada, o que não só reduz a quantidade de fornecedores como encarece o resultado final", compara o diretor-geral da Gripen International no Brasil, Bengt Janér.

No caso do caça sueco, a participação brasileira no projeto será bastante abrangente.

"A Embraer será responsável pelo desenvolvimento de 40% dessa tecnologia de integração dos subsistemas e dividirá o marketing de vendas em licitações de todo o mundo conosco. Além disso, o Brasil irá com a Gripen ao mercado mundial como fabricante, já que 80% da aeroestrutura da aeronave serão projetados e fabricados aqui. Isso significa que um caça para a força aérea sueca terá essa parte feita em uma fábrica brasileira", acrescenta o diretor da Gripen, avaliando um potencial de vendas de 250 unidades de jatos monomotores para os próximos 15 anos. A empresa encarregada fica em São José dos Campos.

Turbinas
Bengt Janér disse não ter informações sobre o relatório da FAB, mas rebateu um dos pontos mais comentados - e criticados pelos concorrentes - no projeto do caça sueco. O jato possui uma turbina só, quando o F-18 SuperHornet e o Rafale possuem duas. Para os rivais, uma desvantagem tática na hora de serem rapidamente acionados.

Segundo o diretor, o Gripen N/G obteve um resultado importante em testes ao passar a barreira do som e chegar à velocidade de 1,2 Mach sem a necessidade de sobrequeima (afterburner), recurso que multiplica a potência tanto quanto o consumo do avião. Em situações de acionamento emergencial, e para o tipo de missão de interceptação para o qual a FAB emprega as aeronaves do esquadrão de Anápolis, tal resultado representaria uma considerável economia de custos. O jato que participou da prova estava configurado na versão ar-ar, que deve ser a mais utilizada.

"Hoje em dia, as principais ameaças que demandam investimentos em defesa aérea são assimétricas. São missões que exigem muito tempo de voo e para isso ter um custo operacional baixo é um fator vital", completa Janér. O Gripen N/G é oferecido a R$ 120 milhões a unidade, contra R$ 172 milhões do SuperHornet e R$ 240 milhões do Rafale, que teria ficado em último lugar na avaliação técnica conduzida pela Aeronáutica.

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