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Para onde vai o PMDB?

17 nov 2015
16h36
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"Não vai sair, não vai sair", respondeu o vice-presidente Michel Temer nesta terça-feira após jornalista perguntar se o PMDB vai deixar o governo Dilma Rousseff e lançar candidato próprio à presidente nas próximas eleições.

“2018 só em 2018”, disse ainda, indicando que essa não é uma decisão para agora.

As declarações foram dadas após seu discurso no congresso que a Fundação Ulysses Guimarães, braço de estudos do partido, realiza hoje em Brasília.

O evento, antes previsto para setembro – com potencial para causar forte ruído entre PMDB e o governo Dilma Rousseff –, foi esvaziado e adiado para agora. Ainda assim, oposicionistas declarados à aliança com o PT discursaram pela manhã cobrando o fim da parceria.

"O impeachment ou não impeachment não depende da gente, mas tem algo que depende. Não é o afastamento da Dilma Rousseff da Presidência da República, mas o afastamento do PMDB dela, para que possamos construir um partido que tenha discurso", disse o ex-ministro Geddel Vieira Lima.

A discussão sobre o desembarque deve ganhar novo destaque em março, quando o partido fará sua Convenção Nacional. Alguns acreditam que as eleições municipais do ano que vem seriam um momento oportuno para romper a aliança com o PT, desgastada pelo escândalo de corrupção na Petrobras e pela baixa popularidade da gestão Dilma.

Porém, uma saída tão antecipada de um governo que ainda tem três anos pela frente não parece coerente com a história do PMDB, e cientistas políticos consideram pouco provável que o partido de fato lance um candidato próprio em 2018, como Temer e outras importantes lideranças peemedebistas tem sinalizado – entre os nomes aventados estão o do próprio vice-presidente e o do prefeito do Rio, Eduardo Paes.

O cientista político Rafael Monteiro, que estuda o PMDB em seu doutorado pela USP, lembra que o partido não lança candidato a presidente desde 1994, quando Orestes Quércia teve desempenho muito fraco, repetindo o que ocorrera com Ulysses Guimarães em 1989.

Os dois, afirma, se lançaram muito mais por ambição pessoal do que pelo interesse da sigla. Desde então o partido não teve um nome que unificasse os diversos interesses regionais em torno de uma candidatura.

“Há uma posição muito confortável para o PMDB: ficar no plano de fundo e se movimentar de acordo com a opinião pública.”

Na avaliação do pesquisador, é mais provável que o PMDB continue na base aliada ou se aproxime da oposição e lance um candidato à vice na chapa do PSDB, em 2018, do que ter um candidato próprio.

“O PMDB historicamente faz esse tipo de movimento. Entrou no governo Lula quando estava em ascensão, com respaldo popular e projeção internacional. Agora começa a se movimentar e se aproximar da oposição de olho de 2018. Mas não sei se deixaria o governo tão cedo, ainda tem três anos (até a eleição). Tem ministérios de peso, com orçamentos bilionários. Isso o deixa em evidência, mas não tão em evidência como o cargo de presidente da República (alvo das principais críticas)”, observa.

O professor de ciência política da UFMG Wanderley Reis faz leitura semelhante.

Na sua visão, a decisão de deixar o governo em 2016 vai depender de uma leitura dos peemedebistas sobre o quão o partido poderia se beneficiar disso. Reis também considera improvável que a legenda tenha candidato em 2018.

“A aposta de que possa eleger um presidente é ainda claramente muito difícil de se realizar, muito precária”, avalia.

“O que tem caracterizado o PMDB ao longo de sua trajetória é a participação esperta, efetiva, desse jogo meio miúdo, meio curto (da política). É o partido que consegue com esse jogo clientelista, de interesse pequeno, ter uma presença importante no Congresso e, com isso, tem o que oferecer seja qual for o governo. A composição com o partido passa a ser importante, ele consegue ser o fiel da balança, e tem se aproveitado desse jogo, é muito claro”, acrescenta.

O PMDB hoje preside e tem as maiores bancadas da Câmara e do Senado, o maior número de governadores (sete) e elegeu em 2012 o maior número de prefeitos (1.024, ou 18,4% do total).

Sua grande capilaridade pelo país lhe dá força, mas, por outro lado, falta união desses vários atores políticos em torno de propostas e de uma ideologia clara, afirmam analistas.

Cargos

Por hora, o enfraquecimento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha – após as revelações de que possui milhões de dólares não declarados à Receita em contas na Suíça – e a entrega de mais ministérios para o PMDB dão sobrevida à aliança com o PT, avaliam parlamentares do partido.

Após os caciques peemedebistas cobrarem o enxugamento da administração federal, a presença do partido no governo cresceu de seis para sete pastas na reforma ministerial de outubro.

“Não vai ter rompimento não. O congresso (desta terça) está muito esvaziado, na verdade”, afirmou o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), um dos que defendem abertamente o fim da aliança com o PT.

O parlamentar corrobora a tese dos analistas sobre a avidez do partido por espaço na máquina federal.

Na sua avaliação, a tese do rompimento perdeu força após a reforma ministerial, quando parte do PMDB “terminou entrando fortemente no governo em troca de cargos e, com isso, passou a boicotar o congresso (desta terça)”, resume.

“O que segura o PMDB dentro do governo é a falta de coragem de ficar sem os cargos. O PMDB tem duas correntes – quem quer estar no governo a qualquer preço e quem quer discutir ideias, propostas, debates”, acrescentou.

O deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) é outro que defende o rompimento, mas não vê chance de isso ocorrer agora. Na sua avaliação, a reforma não foi bem sucedida no sentido de garantir apoio integral do partido. No entanto, reconhece que Cunha, principal voz oposicionista dentro da legenda, perdeu força.

“Ele está enfraquecido. São coisas conexas. O Eduardo (Cunha) segura a Dilma para se segurar”, afirmou.

Para Serraglio, presidente da Câmara está sem força para conduzir a abertura de um eventual processo de impeachment contra Dilma, e o PMDB enfrenta um obstáculo moral que dificulta que o partido saia do governo e defenda abertamente a cassação da presidente.

“Nesses anos todos não tivemos candidato a presidente. Aí ganha a Presidência de mão beijada? Pode parecer um golpe”, observou.

'Ponte para o futuro'

O congresso dessa terça tem o objetivo também de debater o documento “Ponte para o Futuro”, apresentado aos correligionários do partido no final de outubro pela Fundação Ulysses Guimarães.

O documento, que teve aval de Temer, apresenta propostas para o Brasil superar a crise, numa tentativa do PMDB de se mostrar como um partido propositivo e preocupado com o futuro do país.

Segundo Monteiro, é a primeira vez desde 1982 que o partido lança um programa grande de propostas. Naquela época, os tucanos Fernando Henrique Cardoso e José Serra estavam na legenda e participaram da elaboração do programa, lembra.

“Acho que o PMDB, ao apresentar esse documento, mostrou que quer colaborar com o país. Você vê que ele saiu na frente, o PSDB já está também com essa ideia de apresentar propostas”, afirma Vieira Lima.

O professor Wanderley Reis vê a proposta com ceticismo. “Não acho que o programa tenha um significado. Pode ser lido como parte desse jogo de oportunismo, de conveniências, de cálculos políticos miúdos que têm caracterizado o partido há muito tempo”, disse.

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