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Em Teresina, Lula diz que fome não está na Bíblia

10 de janeiro de 2003 10h31 atualizado às 12h47

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado da primeira-dama, Marisa Letícia e de sua comitiva de 29 ministros e secretários de Estado chegou à Vila Irmã Dulce, em Teresina, por volta das 11h. Em seu discurso, Lula reafirmou que combaterá a fome e ressaltou que não está escrito em lugar algum, nem mesmo na Bíblia, que alguém precisa ficar dias sem comer.

Afirmando que as pessoas que ali vivem precisam de melhorias nas áreas de saúde, alimentação, além de um sistema adequado de tratamento e coleta de esgoto, Lula disparou: "não é normal, não está na Bíblia, não está em lugar nenhum que as pessoas possam ficar três a quatro dias sem comer".

Às 11h45, Lula, sua comitiva e o governador do Piauí, Wellington Dias, subiram ao palanque para falar ao público local. Em seu discurso, o presidente disse que fez questão de levar os ministros a Teresina, pois precisavam conhecer aquela realidade.

O presidente apresentou cada um dos integrantes da comitiva que o acompanha e disse que quer melhorar os compromissos moral e ético dos homens do país, e que eles precisam "aprender a criar os filhos que eles botam no mundo". Lula lamentou os meios de vida que todos presenciaram hoje. Sobre o pedido de verbas para moradias, o presidente comentou que "dizer que essas casinhas de chão batido com um buraco no fundo como banheiro são moradias é simplesmente um absurdo".

Lula leu no palanque as reivindicações feitas por moradores locais. Eles pediram atendimento especial a crianças, idosos e portadores de deficiências especiais, além de cursos profissionalizantes. Lula respondeu que não vai prometer nada, porque "presidente não tem que prometer, tem é que fazer". Disse ainda que quer "melhorar os compromissos moral e ético dos homens deste país, que precisam aprender a ajudar a criar os filhos que eles botam no mundo".

Como previsto, o presidente visitou o barraco de taipa de dois cômodos onde mora a lavadeira Regilane Maria da Conceição, na rua Zumbi dos Palmares. Mãe de três filhos, ela os sustenta com R$ 40 mensais e sua casa não tem geladeira nem banheiro.

Alguns ministros também entraram nas casas da rua e o da Fazenda, Antônio Palocci, levou as meninas Elaise e Larissa, que moram num barraco mais à frente, para a casa de Regilane: "Elas querem ver o Lula", disse o ministro, de mãos dadas com as crianças.

Durante a caminhada, Lula foi cercado por muitos moradores, que lhe pediram autógrafos. O presidente parou para cumprimentar uma criança e uma mulher portadora de deficiência física, que lhe entregou um bilhete.

O presidente Lula recebeu as reivindicações das comissões de Guaribas, entregue por José Silveira Bastos e de Atauã, repassada por Francisco Pedro de Souza.

Em seu discurso, o governador do Piauí, Wellington Dias, ressaltou que na comunidade vivem dois terços dos desempregados do Piauí. Dias destacou que o Estado tem rios, mas as casas não têm água e que a maioria dos chefes de família são mulheres que não tiveram acesso à educação.

O governador disse ainda que apesar da condição de miséria, ele e sua equipe têm o sonho de "construir um outro Piauí", que ele considera um Estado rico que empobreceu.

A Vila Irmã Dulce, onde ocorreram os discursos, nos arredores de Teresina, foi criada em junho de 1998, depois de uma invasão de terras. A comunidade de 5,6 mil famílias é hoje a segunda maior favela fruto de ocupação irregular de terra existente na América Latina. Lá, somente 2% da população local tem acesso a água potável e 90% da população sobrevive com meio salário mínimo por mês, obtido por meio de subempregos. Cerca de 3,5 mil moradores da comunidade, ambulantes e partidários do PT acompanharam os discursos.

A chegada de Lula foi marcada por manifestação de apoio, que abafaram ou o protesto de 150 servidores ligados ao próprio PT, que não concordam com os últimos atos administrativos do novo governador do Piauí. O protesto visava sensibilizar o presidente da República sobre a demissão de mais de dez mil prestadores de serviço que trabalhavam para o governo piauiense e foram demitidos por ordem da Justiça do Trabalho.

Após a reunião com Wellington Dias, Lula embarca para Recife, segunda etapa da viagem ao semi-árido, por volta das 14h30 (15h30 horário de Brasília).

Redação Terra