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A dura vida dos catadores de lixo do Rio de Janeiro

10 de dezembro de 2005 10h00 atualizado às 10h34

A jornada diária no aterro sanitário de Gramacho, na região metropolitana do Rio de Janeiro, é um inferno para os 5 mil catadores de lixo que ganham a vida entre toneladas de resíduos, apesar da concorrência dos urubus e de sua própria fome.

Os catadores de lixo são a base de uma pirâmide de trabalho ameaçada por técnicas de reciclagem que começaram a ser incorporar pelas grandes indústrias.

"Ali, se trava a cada dia uma batalha de sobrevivência. Essas pessoas não têm outra opção de vida", disse José Henrique Penido, assessor da direção da Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb), proprietária do aterro.

A história dos catadores deste aterro, mais conhecido como "Lixão do Jardim Gramacho", remonta a 1975 e nada tem a ver com as belezas coloridas mostradas nos postais da Cidade Maravilhosa.

Jardim Gramacho é o nome de um bairro de Duque de Caxias, cidade da região metropolitana a 20 quilômetros do Rio.

O "Lixão" ocupa uma área de um milhão de metros quadrados nas margens da Baía de Guanabara, e recebe uma média diária de 10 mil toneladas de resíduos vindos do Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Nilópolis e São João de Meriti. Volume que equivale a 85% do lixo urbano gerado a cada dia no Rio de Janeiro.

Com 88 anos, Alzira da Silva desafia há 33 anos as condições miseráveis do aterro para fazer ser ganha-pão. "Consigo entre R$ 70 e 80 por mês. Trabalho aqui, não porque goste. Na minha idade, é o único que tenho para viver".

O lixão ferve a qualquer hora do dia, mas ninguém parece preocupado. A obsessão é encontrar uma garrafa aqui, uma lata ou um pedaço de ferro ali, ou um papel acolá.

Com as primeiras luzes do dia, o trânsito de caminhões carregados de todo tipo de imundícies se torna frenético. Em cada "podrão", como são chamados, pode haver material reciclável que salvará o dia, e por isso é preciso estar atento no momento da descarga.

As disputas valem "o pão da cada dia". A lei do mais forte impera e os mais fracos devem procurar, em silêncio, outro lugar para escavar.

Múltiplos focos de gás produzidos pela decomposição de matéria orgânica fervem em fogo brando em montanhas de resíduos que, embora sejam compactadas por tratores, desmoronam como castelos de cartas e põem vidas em perigo. A última tragédia, em meados de 2004, deixou três mortos sob 45 toneladas de lixo.

Ao cair o sol, um segundo turno de catadores entra em ação.

Uma jovem tira a última gota de um copo de iogurte que encontrou enquanto, a seu lado, um companheiro examina uma bolsa sob a visão atenta dos urubus.

"Esse é o trabalho mais sacrificado do mundo. O trabalho sujo que ninguém quis fazer", disse o presidente da Associação de Catadores de Gramacho, Paulo Roberto Gesteira de Souza.

As cooperativas formam o terceiro degrau da pirâmide do lixo.

Estão acima dos "galpões", que por sua vez superam os "catadores de lixo".

É nos "galpões" em que, no final do dia, terminam os achados dos "catadores". Ao contrário dos "galpões", as dezoito cooperativas registradas na Prefeitura do Rio de Janeiro não revendem os resíduos, mas os reciclam.

Para as cooperativas, entretanto, a reciclagem parece ter deixado de ser negócio.

"Trabalhamos no meio do lixo, mas sem muito material para recuperar porque agora virou moda que as grandes fábricas reciclem seus resíduos", disse Gesteira de Souza.

A "moda" foi percebida na associação de Gramacho desde maio com o abandono de 130 dos 270 filiados. "Preferiram tentar a sorte em outras coisas desde que caíram os ganhos", disse.

Segundo a Comlurb, desempregados, ex-presidiários, ex-delinqüentes, jovens ou velhos, encontram no lixo uma alternativa para o que se pode chamar sobrevivência.

EFE
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