Ana Luiza passou com a família um mês de sufoco ao colocar mais 4 pessoas na casa da mãe
Foto: José Guilherme Camargo/Especial para Terra
- José Guilherme Camargo
- Direto de Belo Horizonte
Ex-moradores do edifício Vale do Buritis, que desabou na última terça-feira na região oeste de Belo Horizonte, reclamam da falta de assistência dos órgãos públicos e da construtora responsável pela obra, além dos transtornos para alugar imóveis depois da interdição dos apartamentos onde moravam. Os mesmos problemas acontecem com moradores do prédio vizinho, Art de Vivre, que foi condenado pela Defesa Civil e, de acordo com a determinação da Justiça, deverá ser demolido em até 48 horas.
Em outubro do ano passado, a Defesa Civil interditou o prédio porque a construção apresentou problemas estruturais e teve a fachada parcialmente destruída. O edifício vizinho, Art de Vivre, foi abalado e também precisou ser interditado. No início desta semana, o Vale do Buritis não suportou os danos e desabou. As lembranças do local se foram com o prédio, mas os problemas permaneceram para os antigos moradores.
De acordo com o estudante Lucas Tiumbimi Machado, 21 anos, que morava no edifício há 13 anos com a mãe e a irmã, a família passou por dificuldades até encontrar um novo apartamento. "A gente só pôde tirar roupas e documentos. Fomos morar mais de um mês e meio de favor na casa de um amigo meu, no (bairro) Buritis. Após uns dois meses, eles autorizaram a entrada no apartamento para tirar os móveis, depois de um escoramento que eles fizeram. Alugamos um depósito para colocar os móveis. Ficaram umas duas ou três semanas, até conseguirmos alugar um apartamento. Foi um transtorno total, correr atrás de carreta, depósito", disse.
Segundo ele, a construtora Estrutura Engenharia Construção Ltda., responsável pela obra do prédio, foi obrigada pela Justiça a pagar um valor de no máximo R$ 1,5 mil para o aluguel das famílias do Vale do Buritis, mas para continuar morando no bairro, a família de Lucas teve que fazer um esforço extra para pagar as contas. "Nós estamos morando no quarteirão de baixo, temos que pagar R$ 300 para complementar com o dinheiro da construtora para morarmos aqui. Foi o imóvel mais barato disponível", contou.
Outras reclamações são de furtos que aconteceram no período em que a família não estava no apartamento. A mãe de Lucas, Rita Machado, conta que seu apartamento foi invadido e vários objetos foram furtados. "A Polícia Militar não pode vigiar particulares, nosso apartamento foi invadido. O cidadão só tem obrigações, não podemos esperar nada em troca", desabafou.
O auxílio financeiro também não foi suficiente para o empresário Eduardo Bichini Galliac, 38 anos, que conta ter gastado além do esperado para arrumar a nova casa. "Tive que abrir mão de algumas coisas por pagar aluguel. Estou morando em um imóvel. Só tem uma vaga na garagem, no Buritis eram duas. O acabamento interno é antigo; as torneiras, emperradas; gastei bem mais para colocar a casa em condição", afirmou.
Os moradores do edifício Art de Vivre também sofrem com a falta de amparo dos órgãos públicos e da construtora responsável pela obra. A dona de casa Ana Luiza de Barros, 36 anos, conta que a construtora Podium Engenharia Ltda. não se responsabilizou pela ajuda financeira a que a família teria direito. "Agora conseguimos organizar tudo. Mas estamos tendo muitas dificuldades financeiras, pois foi uma coisa que não conseguimos prever. Estamos gastando muito", disse ela. "Eu fico muito ruim emocionalmente. Não é fácil pagar o aluguel tudo por causa de irresponsabilidade. A Podium nunca se manifestou. Não ajudou. É desumano eles não pensarem pra gente. Nos fomos os primeiros moradores de lá, um ano e dez meses."
A dona de casa reclamou dos transtornos vividos pela família, que teve que se mudar por um mês para a casa de sua mãe. "Passamos um mês na casa da minha mãe. Só que nós estávamos acampados, não tinha como circular pela casa. Moramos eu, meu marido, meus dois filhos, minha mãe, pai, meu avô e uma moça que trabalha lá", contou.
Nesta quinta-feira, o juiz da 4ª Vara Municipal de Belo Horizonte, Renato Luís Dresch, ampliou os termos da liminar concedida anteriormente, que determinou a demolição do Edifício Art de Vivre em até 10 dias, e ordenou que os serviços fossem iniciados pela Podium no prazo de 48 horas a partir da intimação inicial. Segundo a determinação, a demolição poderá ser executada imediatamente pelo município caso a empresa resista em cumprir a ordem, mas ela é que custeará as despesas.
A Podium informou, pela assessoria jurídica, que só tomou conhecimento da liminar judicial sobre a demolição dos prédios do Conjunto Art de Vivre por causa da imprensa. Oficialmente, diz a nota, a empresa ainda não foi notificada, mas acatará a decisão judicial assim que for comunicada.
- Especial para Terra



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