Quatro anos após o acidente que matou 154 pessoas do voo 1907, familiares das vítimas manifestaram indignação com o fato de os pilotos americanos acusados de causar a tragédia ainda não terem sido impedidos de voar. Joseph Lepore e Jan Paul Paladino aguardam julgamento do caso.
Lepore e Paladino eram, respectivamente, o piloto e o co-piloto do jato executivo Legacy que se chocou com o Boeing 737-800 da Gol, em 29 de setembro de 2006. Na ocasião, Lepore já era funcionário da empresa aérea American Airlines, mas, de licença, veio ao Brasil a serviço da Excel Air, responsável pelo jato em que viajavam executivos da própria companhia e um jornalista americano.
Com a colisão, o Boeing da Gol se despedaçou durante a queda matando toda a tripulação e passageiros. Mesmo com uma das asas avariadas, os pilotos do Legacy conseguiram pousar em uma base da Aeronáutica na Serra do Cachimbo, no Pará. Não houve feridos entre as pessoas que estavam a bordo do avião. Embora estejam respondendo a processos criminais no Brasil, Paladino segue trabalhando na American Airlines, como piloto de voos regulares, e Lepore na Excel Air.
Os familiares das vítimas cobram das duas empresas que, por precaução e respeito, os dois americanos sejam impedidos de pilotar até a conclusão dos processos. Nesta quarta-feira, a presidente da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas, Angelita de Marchi, viúva do executivo Plínio Luiz de Siqueira Júnior, e sua cunhada, Luciana Siqueira, foram ao escritório da American Airlines, em São Paulo, onde pretendiam entregar um estojo contendo duas réplicas das caixas-pretas de cada uma das aeronaves.
As duas e o advogado da associação, Dante D'Aquino, deixaram o local frustrados porque não puderam entrar no prédio, recebendo de seguranças do edifício a orientação para deixarem o estojo na portaria. No interior de cada réplica havia um pen drive com o áudio das conversas gravadas nas cabines do Boeing e do Legacy. De acordo com D'Aquino, as gravações comprovam os erros e falhas cometidos por Lepore e Paladino e os momentos de agonia vividos pelos pilotos do Boeing.
"Essa foi a forma encontrada pela associação de trazer ao conhecimento das empresas a informação de que há nos processos criminais dados irrefutáveis sobre a culpa dos pilotos e essas provas fundamentam as ações", disse D'Aquino.
Segundo o advogado, os processos estão na fase final de coleta de provas. No dia 5 de outubro, o brigadeiro Jorge Kersul, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes (Cenipa) da Aeronáutica, será ouvido pela Justiça de Sinop (MT) como testemunha. Depois disso, Lepore e Paladino devem voltar a ser interrogados. Concluída essa fase, haverá o julgamento em primeira instância do piloto e do co-piloto. Se forem condenados, eles podem recorrer. Se forem julgados culpados por homicídio culposo, os dois podem passar entre um e quatro anos presos. A pena pode ser cumprida nos Estados Unidos graças a um acordo entre os dois países.
"A verdade nós já sabemos. Agora nós clamamos por Justiça. Pedimos que esses pilotos irresponsáveis sejam impedidos de pilotar e colocar em risco a vida de milhares de outras pessoas", disse Luciana Siqueira. Ela afirmou que, desde o início do mês, a associação está colhendo assinaturas por meio do site www.190milhoesdevitimas.com.br para cobrar das duas empresas medidas administrativas contra os pilotos.
A American Airlines não se pronunciou sobre por que os representantes dos parentes das vítimas não foram recebidos. Em nota, a companhia disse que, devido à política interna, não comenta a situação de seus funcionários. A empresa também manifestou "sinceras condolências a todas as famílias que perderam seus entes no acidente" e afirmou que o Conselho Nacional de Segurança dos Transportes dos Estados Unidos teria concluído que nenhum integrante da tripulação do Legacy foi considerado culpado pelas mortes.
A defesa dos pilotos afirma que eles são vítimas de erros de terceiros e responsabiliza os controladores de voo do tráfego aéreo brasileiro, que também respondem a processo pelo caso, por transmitirem autorização de voo equivocada.
- Agência Brasil

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