O falso médico Silvino da Silva Magalhães, 40 anos, que se passava por ginecologista e obstetra no Hospital das Clínicas de Belford Roxo, não cursa o 9º período de Medicina na Universidade Iguaçu (Unig), como disse à polícia ao ser preso. Ele abandonou a faculdade em 2003, quando ainda fazia o 8º ano e nem sequer tinha permissão para tratar pacientes. Doze famílias vítimas de Silvino já procuraram a 54ª DP (Belford Roxo). Pelo menos três bebês e uma mãe morreram ao serem atendidos por ele, que já atuaria ilegalmente há dois anos.
"Esse rapaz é um falsário. A universidade repudia os atos supostamente cometidos pelo senhor Silvino e manifesta sua solidariedade às mulheres e às famílias que possam ter sido vítimas da prática ilegal da Medicina, crime previsto pelo Código Penal Brasileiro e ato de violência contra a vida, que todos repudiamos", reagiu a pró-reitora acadêmica da Unig, Simara da Costa Guimarães.
Segundo ela, Silvino só concluiu o curso de Licenciatura em Ciências Biológicas em 1995. Ainda no primeiro semestre do mesmo ano, ele ingressou no curso de Medicina, mas há sete anos consta como desistente do sistema acadêmico. "Depois de tanto tempo, ele não teria condições de concluir o curso, porque, pela legislação, depois de 5 anos ausente da faculdade, não é possível mais o aproveitamento de quaisquer créditos", explicou.
A pró-reitora explicou que até o 8º período o aluno ainda não tem aulas práticas, só teóricas. "Então, não pode colocar a mão em paciente nenhum. Do 5º ao 8º período, ele começa a fazer laboratório, sempre acompanhado por professores. É o tempo de triagem, com uso de bonecos que simulam um ser humano, justamente para que não se coloque em risco a vida de nenhum paciente", detalhou Simara.
O delegado da 54ª DP, Antônio Silvino, já indiciou o falso médico pelo crime de homicídio como dolo eventual (quando se assume o risco de provocar a morte, mesmo não querendo diretamente produzi-la).
Bebê teve braço quebrado ao nascer e morreu
Tainá Cristina de Castro Portes, 16 anos, contou na quarta-feira na delegacia de Belford Roxo que perdeu o filho, Kaio Bryan Portes dos Santos, que nasceu pelas mãos dos falsos médicos Silvino e Félix (colombiano foragido) em 13 de junho. "Além de nascer com série de complicações, ainda quebraram o bracinho esquerdo na hora do parto. Meu filho ficou 5 dias na incubadora, foi internado às pressas no Hospital Infantil de Areia Branca e acabou falecendo, 28 de agosto, no Hospital Pedro Ernesto", denunciou, ao lado do marido, o operador de máquinas Valdecir dos Santos Bernardo, 23. O atestado de óbito acusou disfunção múltipla dos órgãos e sistemas e choque séptico.
Problemas respiratórios após o parto
Jeisiane Costa, 18 anos, não esquece os momentos difíceis nas mãos de Silvino, que decidiu fazer o parto normal do bebê Gabriel, hoje com 19 dias, e que nasceu roxo. Segundo a família, o pediatra atribui os atuais problemas respiratórios da criança às dificuldades do parto.
"Foi um parto muito sofrido. Meu filho era muito grande, com 4,3 kg, mas eles não quiseram fazer a cesariana. Confiamos a vida do nosso filho", indigna-se o pai, Josemar de Jesus Costa, 23.
Diretor de hospital é intimado a depor na segunda-feira
Na tarde de quarta-feira, o médico e diretor do Hospital das Clínicas de Belford Roxo, Deodalto José Ferreira, em nome de quem o falso obstetra estaria usando carimbo, foi intimado por agentes da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Saúde Pública (DRCCSP) a depor na segunda-feira, no inquérito a que responde, com Silvino Magalhães, por crime de exercício ilegal da Medicina.
Os dois foram indiciados também por falsificação de documentos e, na 54ª DP, por homicídio doloso (quando há intenção de matar).

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