O delegado da 54ª DP (Belford Roxo), Antônio Silvino, indiciou nessa terça-feira por homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco de provocar a morte, mesmo não querendo diretamente produzi-la) o falso médico Silvino da Silva Magalhães, 40, e o dono do Hospital de Clínicas de Belford Roxo, o médico Deodalto José Ferreira.
A decisão do delegado se baseou em reportagem publicada nessa terça em O DIA, mostrando que o estudante de Medicina da Unig se passou por obstetra e fez a cesariana de Lucimar de Paula Dias Carvalho, 27, que morreu no parto, em 9 de maio deste ano, durante o procedimento, junto com a filha, que se chamaria Rebeca. Além de outros dois casos relatados, pelo menos mais outras três vítimas do falso médico já procuraram a polícia.
"Pretendo ouvir o maior número possível de mulheres atendidas por ele e que alegam que tiveram a saúde prejudicada. Depois vou intimar o dono da unidade para prestar depoimento", afirmou Antônio Silvino, ressaltando que o crime pelo qual os dois foram indiciados pode resultar em de seis a 20 anos de prisão.
Silvino e Deodalto foram enquadrados também pelos crimes de exercício ilegal da Medicina e falsificação de documentos pelo titular da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Saúde Pública (DRCCSP), Fábio Cardoso.
"Deodalto também responderá pelos mesmos crimes, pois há indícios suficientes de que ele sabia das irregularidades e teria compactuado com elas", justificou Cardoso. Outro falso médico, um colombiano identificado como Félix, que fugiu no dia 5 deste mês, quando a DRCCSP prendeu Silvino, é procurado pela polícia.
Na 54ª DP, familiares de Lucimar contaram que Deodalto só apareceu na clínica no dia 9 de maio às 18h30, para "comunicar a morte da gestante". "Só que, pelo prontuário apreendido no hospital, é ele quem assina todo o procedimento no lugar de Silvino, desde as 15h50, quando Lucimar foi internada", comentou Antônio.
Internada com infecção puerperal (pós-parto) no Hospital Estadual Melquíades Calazans, em Nilópolis, Adriene de Souza Borges, 32, que teve a filha Manoela há 12 dias pelas mãos de Silvino, chorou quando viu o falso médico pela TV. "Ela entrou em pânico, chorou muito, dizendo que tinha sido ele quem fizera o seu parto e que tem medo de morrer", contou a mãe, Albanita Borges, 41. Na noite dessa segunda-feira, ela e o marido de Adriene, Adriano, procuraram a 54ª DP.
Infecção depois de cesariana
Albanita conta que a filha mostrou exames apontando que Manoela tinha o cordão umbilical enrolado no pescoço, mas o falso médico insistiu em fazer parto normal. "Adriene contou que, mesmo depois de ter feito corte no períneo, o médico empurrou o bebê de volta para o ventre, para só então fazer a cesárea. Ela perdeu muito sangue e saiu com infecção", acusa.
Já a família de Adriana de Souza Queiroz, 27, submetida a cirurgia para retirada do útero no mesmo hospital, reúne forças para enfrentar o drama vivido por ela, que está em coma no Hospital Pasteur, no Méier. "Os médicos disseram que a chance de minha irmã sobreviver é de apenas 1%", lamentou Elvis Queiroz.

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