Testemunha de crime praticado por milicianos, o motorista de Kombi Leandro Baring Rodrigues, conhecido como Preguinho, 24 anos, foi morto no domingo à noite, perto da Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. Ele havia acabado deixar um passageiro quando foi atingido por disparos na cabeça. Agentes da Divisão de Homicídios (DH) investigam se os matadores estão ligados a paramilitares que atuam na Zona Oeste.
O crime aconteceu um ano e dois meses depois da execução de Leonardo Baring, irmão da vítima, que havia testemunhado uma chacina em 2008. Para ir ao enterro, Leandro precisou de escolta da polícia e usou colete à prova de balas.
A morte do motorista ocorreu perto do número 1.500 da Avenida Dom Hélder Câmara, por volta das 19h. Segundo a polícia, um Polo prata emparelhou com a Kombi, que fazia a linha 311 (Rodoviária-Cavalcante), e um dos ocupantes efetuou diversos disparos. Os tiros que atingiram a vítima quebraram o vidro do lado do carona. O banco do veículo ficou cheio de sangue. O carro foi levado para a DH, na Barra da Tijuca, onde será periciado.
Leandro entrou para o programa de proteção a testemunhas após presenciar o assassinato do irmão. Leonardo, junto com Y., foram testemunhas de chacina cometida pela milícia na Favela do Barbante, em Campo Grande, em agosto de 2008.
Depois, passaram a receber ameaças e chegaram a sair do estado. Ano passado, criminosos foram à casa de Y. e, como não o encontraram, mataram cinco pessoas da sua família, inclusive seu pai, o sargento reformado do Exército Vicente de Souza, 90 anos. Dois dias depois, Leonardo foi morto quando estava ao lado de Leandro.
"Fico me perguntando até quando vou enterrar meus irmãos. Isso não vai acabar nunca. A família inteira sofre, minha mãe foi ameaçada há 20 dias. Estão nos caçando e nem ao enterro do meu irmão vou poder ir", disse P., outro irmão de Leandro, que saiu de casa depois do crime, com medo. Segundo um dos investigador da DH, até ontem não havia nenhuma descrição física dos assassinos.
Idas frequentes à Justiça
Desde que o processo sobre os crimes foi para a Justiça, os rapazes ameaçados pela milícia compareciam a audiências pelo menos uma vez por mês. As testemunhas disseram ainda que participariam também de uma reconstituição da morte do ex-militar Vicente, prevista para o dia 15.
Na época em que a família foi executada, a polícia chegou a identificar pelo apelido quatro suspeitos de participação na chacina. Os cinco corpos foram localizados pela polícia enterrados em um cemitério clandestino na Favela do Barbante.
Sem proteção
Segundo o irmão de Leandro e a testemunha Y., todos saíram do programa de proteção porque não conseguiram se adaptar. "Passamos por muitas dificuldades lá e resolvemos voltar. O Leandro já tinha refeito a vida, estava feliz porque conseguiu emprego para sustentar os quatro filhos. Eu ainda não consegui, vivo me escondendo. Dependemos da ajuda das pessoas, mas ninguém quer abrigar um arquivo vivo", disse Y.
O deputado Marcelo Freixo, que presidiu a CPI que investigou as milícias, disse ontem que vai tentar reintegrar as duas testemunhas e suas famílias ao programa de proteção.

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