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Turistas relatam pânico na hora dos deslizamentos em Angra

02 de janeiro de 2010 03h02 atualizado em 03 de janeiro de 2010 às 12h36

Moradores e turistas que passavam o Réveillon na Ilha Grande contaram que estavam no meio das comemorações quando sentiram forte estrondo e clarão, e em segundos, uma avalanche de terra, rochas e vegetação chegaram até a praia, criando uma onda. O psicólogo Eduardo Rozé, 25 anos, que estava numa das casas alugadas saiu para ver o que estava acontecendo. Chovia muito. "Vi uma mulher coberta de lama até o pescoço e gritando desesperadamente para que salvassem o filho dela. Procuramos muito, mas não conseguimos encontrar. Foi muito chocante. A mulher acabou morrendo", contou ele, que ajudou a tirar dos escombros um casal que dizia ser morador da área.

Outro turista, Arthur Daher, escapou por pouco. "Estava na sala com minha mulher vendo televisão quando, de repente, caí dentro d¿água", contou. O morador Daniel Matos, 28, achou que fosse um raio. "Pensei que tinha caído e destruído tudo. Não dava para ver a montanha de escombros. Ficamos a madrugada inteira ouvindo gritos desesperados de socorro, mas não podíamos fazer nada. A terra parecia areia movediça", lembrou Arthur.

A Pousada Sankay foi adquirida há 16 anos pelo casal de mineiros Sônia e Geraldo Faraci. Uma das mais luxuosas da região, ela ofereceu pacotes turísticos para o Réveillon. O mais barato com direito a quatro diárias por casal custava R$ 5.300, incluindo café da manhã, jantar e passeios de barco.

Dezenas de mortos em avalanche de terra na Costa Verde

Chuvas que atingem o Estado do Rio de Janeiro transformaram em dor e luto o Réveillon de amigos e familiares de 51 pessoas mortas soterradas por deslizamentos de encostas. Em Angra dos Reis, pelo menos 30 pessoas morreram em dois deslizamentos, no Centro e na Ilha Grande, onde uma avalanche de lama soterrou uma pousada de luxo. Desde quarta-feira, inundações e desabamentos já tinham matado 18 pessoas, cinco de uma mesma família.

No Centro de Angra, uma encosta cedeu e deslizou por cima de várias casas no Morro da Carioca, matando 11 pessoas. Na Ilha Grande, a queda de uma barreira na madrugada encobriu a pousada Sankay, lotada de turistas, e mais sete casas, duas alugadas por temporada, que ficavam na enseada do Bananal. Vizinhos ajudaram a socorrer vítimas enterradas, mas não conseguiram salvar a mulher que, só com a cabeça acima da terra, gritava para que procurassem primeiro seu filho. Ontem, 120 homens da Defesa Civil, Bombeiros e da Marinha resgataram 19 corpos ¿ 11 de turistas do Rio, Minas e São Paulo e 8 de moradores da região ¿, levados para o Instituto Médio Legal (IML) de Angra e do Rio. As vítimas dormiam no momento da avalanche.

Na Praia do Bananal, na Ilha Grande, vizinhos escutaram um forte estrondo do alto do morro às 3h30. Foi quando chegou a notícia de que toneladas de lama, galhos e pedras haviam encoberto um terço da pousada e as casas no entorno. O impacto do desmoronamento levou corpos ao mar.

Por causa dos riscos de novos deslizamentos, o trabalho é feito manualmente com pás. O único jeito de chegar ao local é pelo mar. Helicópteros e navios forem empregados no transporte de equipamentos e na remoção de pelo menos 10 feridos para hospitais de Angra. "A chance de encontrar novos sobreviventes praticamente não existe", afirma o prefeito de Angra, Tuca Jordão (PMDB). Morador da Praia do Bananal, o caseiro Charles Pereira perdeu nove parentes: "Meu irmão, minha neta, minha cunhada, sobrinho".

Equipes de resgates encerraram as buscas ontem à noite e retomam o trabalho hoje pela manhã. Entre os corpos trazidos para o IML do Rio, foram reconhecidos os de Renato de Assis Repetto, 50, Gabriela Ribaski Repetto, 9, Giovana Ribaski Repetto, 12, e Ilza Maria Roland, 50 anos. Renato e Ilza são tios das meninas. Segundo um irmão de Ilza, a casa havia sido alugada para veraneio por muitas pessoas que continuam desaparecidas. Até ontem à noite, os pais das crianças ¿ que estavam em outro quarto e sobreviveram ¿ não sabiam da morte. A mãe das meninas, Cláudia Repetto, está no Copa D¿Or. Ilza e Renato morreram abraçado

s.

O quinto corpo foi o de Yumi Faraci, filha dos donos da pousada. A mãe, Sônia Imanishi, esteve no Hospital de Angra para visitar Natasha Fernandes Marcondes, amiga da filha. Natasha foi soterrada de lama até o nariz e socorrida por morador. Sônia ainda não sabia que a filha estava morta. As duas se abraçaram e choraram muito.

A camareira Maria Luisa de Jesus, 43 anos, passou parte do dia no IML em busca de notícias de parentes: "Perdi 9 pessoas da minha família, entre tios e primos que viviam perto da pousada".

Segundo o vice-governador Luiz Fernando Pezão, cerca de 65 pessoas estariam hospedadas na pousada Sankay. "É um cenário muito triste. Infelizmente, acreditamos que vamos ter um número ainda mais elevado de vítimas por conta desses desmoronamentos", disse Pezão, que chegou à ilha ainda pela manhã. Autoridades envolvidas na operação estimam que poderia haver pelo menos mais 25 corpos na ilha e 17 no Centro de Angra.

Casal cancelou na última hora reserva para a pousada atingida

O jornalista Mario Marques relatou no seu blog pessoal que cancelou a reserva na pousada Sankay na última hora. "Em novembro, eu e minha mulher decidimos passar o Réveillon na Ilha Grande. Achamos vaga na Pousada Sankay. Quando fazia o depósito pela Internet, minha mulher entrou no quarto e me indagou se havia hospital lá. Disse que não. Ela, então, se recusou a ir, já que temos um bebê de 10 meses. Ainda tentei convencê-la a mudar de ideia. Disse que Angra era próxima de barco, se a nossa filha tivesse febre. Mas ela insistiu. Disse que achava arriscado. Desisti do depósito e partimos para um hotel fazenda em Minas Gerais. Ficamos atônitos com a notícia. Olhamos para nossa bebê, sorridente. Parecia que estava pensando: 'Parabéns, mãe, você salvou a gente'., contou.

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