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 ONGs e parentes de vítimas rebatem declarações de Beltrame
06 de novembro de 2009 04h05

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Militantes, parentes de vítimas e parlamentares rebateram a declaração de Beltrame. O deputado estadual Marcelo Freixo (PSol) ironizou: "ele tem razão, são as áreas pobres que sofrem mais a violência, a começar pela cometida pelo próprio Estado", disse Freixo. O presidente da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, também reagiu: "a fala do secretário seria perfeita se saísse de um morador da zona sul, mas não da zona norte onde acontecem 80% das mortes violentas do Rio".

Militantes de movimentos sociais protestaram ontem em frente ao prédio da Secretaria de Segurança Pública, na Central, contra o que chamam de política de extermínio da polícia. Os manifestantes entregaram ofício ao subsecretário de Inteligência, Rivaldo Barbosa, pedindo divulgação do número de mortos e a identidade deles nas operações policiais realizadas desde a queda do helicóptero da PM, em 17 de outubro, que matou três policiais. A aeronave foi abatida a tiros de fuzil por traficantes que haviam invadido o Morro dos Macacos, em Vila Isabel, em guerra de facções.

Os manifestantes fixaram 42 cruzes brancas em vasos da mesma cor. A explicação do protesto estava em duas faixas: "Alemão, Providência, até quando? Não à Criminalização da Pobreza" e "Contra o Caveirão, por Saúde e Educação". Integrantes de 65 entidades e três deputados assinaram o documento entregue à secretaria.

Beltrame diz que violência é restrita a núcleos
"O Rio de Janeiro não é violento. O Rio de Janeiro tem núcleos de violência. É um número muito pequeno de pessoas para causar pânico em 16 milhões de pessoas". A declaração foi feita ontem pelo secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, durante audiência na Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados, em Brasília, ao ser questionado sobre se o Rio tem condições de sediar as Olimpíadas 2016.

A frase provocou polêmica, principalmente porque, no Rio, o rosto da violência apareceu em diferentes pontos da cidade, mais uma vez, ontem. No Morro da Pedreira, em Costa Barros, policiais civis apreenderam fuzil ponto 30 - um dos calibres que podem ter abatido helicóptero da PM, há 20 dias, em Vila Isabel, onde ontem houve novo tiroteio. No Caju, a família do médico Paulo Athayde Salaverry Lopes cremou o corpo do cirurgião, baleado durante assalto em Ipanema, uma das áreas consideradas mais seguras do Rio, em agosto. Na porta da Secretaria de Segurança, manifestantes fixaram 42 cruzes brancas em protesto contra a falta de identificação de mortos em confrontos em favelas.

Aos deputados, o secretário afirmou ainda que a cidade "tem índices de criminalidade em determinadas áreas que são europeus". A assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança explicou que Beltrame quis dizer que, excluindo as áreas disputadas por traficantes, os números de violência são semelhantes ao de metrópoles da Europa.

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), de janeiro de 2007 a setembro deste ano, 20.255 pessoas foram mortas: 16.310 casos homicídios dolosos (quando há intenção de matar), 3.272 vítimas de confrontos com a polícia (auto de resistência), 589 latrocínios (roubo seguido de morte) e 84 policiais atingidos em ação. O sociólogo Ignacio Cano, da Uerj, classificou a declaração como infeliz. "Temos índices comparados com a Europa, mas também outros comparáveis à Faixa de Gaza e ao Iraque". Segundo ele, a média de homicídios nos Estados Unidos é de seis por 100 mil habitantes e na Europa, de cinco por 100 mil - dez vezes menos que o do Rio.

A frase revoltou parentes de pessoas assassinadas. "Ele é um brincalhão. Se acontecesse algo com a família dele, queria ver se gostaria de ouvir uma coisa dessas", desabafou Luiz Carlos Pereira Silva, irmão do médico Paulo Athayde. José Marconi, tio de três jovens inocentes que morreram no Morro dos Macacos, ficou indignado. "Como não é uma cidade violenta se morre tanta gente vítima de violência todos os dias? O que é violência para ele? Ele deve estar em outro mundo", irritou-se Marconi.Presidente da Comissão de Segurança da Câmara, a deputada federal e ex-inspetora Marina Maggessi minimizou a frase de Beltrame: "o secretário não tem culpa da violência no Rio e a cidade tem, sim, núcleos de paz, como a Zona Sul. Tomara que consigamos que os núcleos de violência sejam um dia bem menores".

Confrontos em Vila Isabel e Costa Barros
Às 9h, o 6º BPM (Tijuca) iniciou uma operação no Morro dos Macacos, após uma madrugada de tiros. Assustada com o confronto, uma dona de casa de 70 anos não queria sair de casa e se perguntava: "será que vai começar tudo de novo?". Na ação, William da Cruz Silva, 31 anos, o Sabará, foi preso tentando fugir com roupas de entregador de água.

No Morro da Pedreira, em Costa Barros, a Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) apreendeu uma metralhadora ponto 30. Ali também houve troca de tiros. Por conta disso, cinco escolas e quatro creches não abriram, deixando 4.037 crianças sem aula. Na Vila dos Pinheiros, na Maré, o 22º BPM (Maré) apreendeu 3 mil sacolés de cocaína, 2 mil trouxinhas de maconha e três pistolas.

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