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 MediaOn: "jornalistas terão de perder arrogância", diz Benton
27 de outubro de 2009 20h42 atualizado em 28 de outubro de 2009 às 09h01

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MediaOn 2009 discute futuro incerto da mídia digital

Vagner Magalhães
Direto de São Paulo

Com o avanço da internet, a sobrevivência dos jornais impressos está em risco e os jornalistas terão de mudar a sua postura profissional. A opinião é de Joshua Benton, jornalista investigativo e diretor do Nieman Journalism Lab, da Universidade de Harvard, dos Estados Unidos. Ele participou nesta terça-feira à noite do 3° MediaOn, maior fórum de jornalismo da América Latina, em São Paulo. O debate "Como o jornalismo de qualidade pode sobreviver e prosperar na era da internet" foi moderado pelo jornalista Ricardo Lessa, da Globonews.

"Os jornalistas terão de perder a sua arrogância e agir com seres humanos. A transição vai ser muito difícil para a maioria. Ainda temos muito a escrever, principalmente para investigar casos de corrupção. A internet treinou as pessoas para que elas recebessem as informações de uma forma social. Os repórteres tem de parar de encarar o seu público como um estorvo. Os jornalistas encaram os e-mails de um leitor como algo chato, principalmente quando endereçados ao editor. É hora de a voz institucional desaparecer. Os jornalistas online tem de encarar o leitor em primeira pessoa e dizer: 'isto nós sabemos e isto nós não sabemos'".

Ele afirma que, por exemplo, não assina jornais há bastante tempo. "A forma com que as pessoas recebem as notícias está mudando muito. Eu não assino jornal há muitos anos. Não tem nada a ver com grande jornalismo ou não. Nós nunca tivemos um jornal nacional nos Estados Unidos. Temos um país muito grande. Por isso a concorrência era mais restrita, o que levou a monopólios. Ter o monopólio no mercado nessas cidades, faz com que haja monopólio de preços. E quem quiser anunciar ali, tem de pagar o que eles exigem", diz. "As pessoas tem hoje outras possibilidades e as exploram. Não estão interessadas em pagar o que é a elas imposto".

De acordo com ele, o jornalismo como é hoje não será mais possível nos negócios. "O fato de o mercado não comportar mais isso, não quer dizer que o jornalismo investigativo vai deixar de existir. Dou um exemplo. Três pessoas fazem a cobertura de um bairro em Seattle, como ninguém fez antes. Todo mundo lê. Se tem um buraco na rua, eles lá estão. Tem 50 empresas locais anunciando no site deles. Estão ganhando dinheiro. São só três pessoas e é lucrativo para eles".

Benton diz que hoje, o número de jornalistas em impressos dos Estados Unidos está nos mesmos níveis de 1971, 38 anos atrás. "O que temos hoje são cerca de 40 mil jornalistas nos EUA nessa área. Em 1992, eram 60 mil. A questão econômica ajudou nisso, mas o ponto central é o avanço da internet. Os jornais brasileiros estão hoje em melhores condições do que os do meu país".

Segundo Benton, "a busca da qualidade no jornalismo online é crescente e com o passar do tempo deve chegar no mesmo padrão dos jornais que temos hoje. Porém, a internet, em sua opinião, possui inúmeras opções que o jornal não tem. "Se o jornal publicar uma bela foto de uma flor, será apenas uma bela foto. A internet poderá mostrar a mesma foto em terceira dimensão, por exemplo".

De acordo com ele, as redes sociais, como o Twitter e o Facebook, devem crescer cada vez mais. "Com elas, uma pessoa apenas pode propagar as suas ideias para outras. A pessoa não precisa sequer buscar. Ela as recebe, cadastrando previamente o contato. Isso muda muito a forma de as pessoas receberem essas informações".

Veja outros temas tratados durante a apresentação:

Credibilidade na Internet
"Credibilidade e e confiabilidade é uma questão de tempo. Não vamos chegar ao ponto que tínhamos antes, quando se dizia que se está no jornal, está certo. Isso é o que se espera das marcas, como um New York Times e uma Folha de S. Paulo, que adquiriram essa confiança no decorrer do tempo".

Twitter
"O que se fala sobre o Twitter é o mesmo que se dizia dos jornais, que colocavam sempre manchetes curtas, que não contemplavam a matéria como um todo, mas que eram suficientes para chamar a atenção para uma notícia. Quando algo é mal feito, isso é apontado rapidamente. Isso vai ser pego. Não é o único, mas é um caminho que não tem volta".

Precisão
"Quando eu trabalhei em jornais, a gente recebia um pedido de correção e o editor dizia. "Mas isso aqui é uma coisa menor. Na Internet não tem essa conversa. Tem de ajeitar na hora".

Profissão
"Infelizmente, falo do ponto de vista americano. Você não terá esse trabalho (de jornalista) para sempre. Não conheço as especificidades do Brasil. Nos Estados Unidos, muitos migraram para organizações públicas, para o governo. Muitos atuam como detetives particulares. Se quer permanecer jornalista, viva online o quanto puder. Esse é o conselho mais valioso que posso dar. Faça um blog sobre aquilo que você se interessa, dissemine isso no Twitter. Aprenda a trabalhar com multimídia, aprenda a usar flash, programação. O número de pessoas que fazem isso hoje é pequeno. Se você conseguir isso, estará um passo à frente".

TV e vídeo online
"Temos muitos canais que eram ignorados e que ganham importância. Muita gente se reúne em torno de um conteúdo específico de televisão. A televisão online, como é nos EUA, está muito baseada em um apresentador. Querem vê-lo, ouvir a sua voz. Na Internet é diferente. A pessoa escolhe quando e como quer ver. Coisas que não tem espaço na TV convencional, ganham espaço aqui".

Ensino do jornalismo
"O jornalismo na escola é controverso. A lei aqui também mudou. Sei que vocês aqui estão em um processo de transição. Eu nunca fui para a escola de jornalismo. Tenho uma experiência própria. O interesse nos Estados Unidos é crescente. Os universitários hoje estão mais focados. Mas podem trabalhar com públicos diferentes. As escolas estão trabalhando para que as pessoas cheguem a essa área. Estão treinando para que elas trabalhem na Internet do futuro".

Tablets
"Muitos jornais imaginavam que os tablets seriam a salvação. Que o usuário iria disponibilizar US$ 400 para comprar o aparelho e que depois ainda iriam investir em uma assinatura para comprar o conteúdo. Não vai ser assim. Com relação aos livros, eles duram um pouco mais do que a notícia, que é imediata. A situação também deve mudar nos próximos cinco anos em relação ao que é hoje", diz.

Redação Terra
  1. Joshua Benton é diretor do Neiman Journalism Lab, da Universidade de Harvard
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  2. Joshua Benton, jornalista investigativo e diretor do Neiman Journalism Lab, da Universidade de Harvard, dos EUA, abriu o 3° MediaOn 2009
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  3. "Os jornalistas terão que rever a arrogância e agir como seres humanos", diz Joshua Benton, entre as conclusões de sua palestra no MediaOn
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  4. "A forma com que as pessoas recebem as notícias está mudando muito. Eu não assino jornal há muitos anos", afirmou
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  5. Benton diz que hoje, o número de jornalistas em impressos dos EUA está nos mesmos níveis de 1971, 38 anos atrás
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  6. Benton participou de um bate papo com o jornalista Ricardo Lessa após sua apresentação
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  7. "Os jornais brasileiros estão hoje em melhores condições do que os do meu país", disse Benton
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  8. "A busca da qualidade no jornalismo online é crescente e com o passar do tempo deve chegar no mesmo padrão dos jornais que temos hoje", afirmou Benton
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  9. "Se o jornal publicar uma bela foto de uma flor, será apenas uma bela foto. A internet poderá mostrar a mesma foto em terceira dimensão, por exemplo".
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  10. Durante conversa com Ricardo Lessa, Benton respondeu perguntas da plateia
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  11. A terceira edição do Media On terá debates até quinta-feira
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  12. As inscrições para o Media On são gratuitas. Para entrar é preciso comparecer ao Itaú Cultural, na Av. Paulista, 30 minutos antes dos painéis
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  13. Para obter mais informações sobre os participantes do evento, acesse http://www.mediaon.com.br/
    27 de outubro de 2009 • 22h12
    Foto: Reinaldo Marques/Terra

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