O debate entre
os ambientalistas e ruralistas deve ser mediado pela ciência. Esse foi
o consenso apresentado hoje (22) por lideranças dos dois lados que
se encontraram no seminário promovido pela Confederação da
Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para discutir o meio ambiente
e a produção de alimentos no país.
O deputado federal
Fernando Gabeira (PV-RJ), o ex-ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, o
ex-secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo
Capobianco, e a presidente da CNA, senadora Kátia Abreu, expuseram
suas ideias sobre o assunto a uma plateia de estudantes,
parlamentares e técnicos da área. Eles disseram que muitas das
desavenças entre os ambientalistas e ruralistas se devem a generalizações radicais feitas por ambos.
"O ponto de partida
de todos tem que ser compatibilizar a produção e a preservação
ambiental. Se houver isso, poderemos chegar a um acordo mais rápido
do que imaginamos e acabar com essa ridícula separação. O
ambientalista precisa comer e o ruralista precisa do meio ambiente.
Estamos falando a mesma coisa", afirmou Capobianco.
Ele ressaltou que o uso
da ciência é muito importante, mas os agricultores precisam estar
preparados para as conclusões das pesquisas. No caso das Áreas de
Preservação Permanente (APP), às margens dos rios, por exemplo,
assim como haverá locais em que poderá ser feito um ajuste para
legalizar as matas já abertas, também poderá ser exigido o
reflorestamento de outras, consideradas fundamentais para a
preservação dos recursos hídricos.
A senadora Kátia Abreu
destacou que o Brasil tem 56% de sua cobertura vegetal original
preservada, sendo o país com o segundo maior índice do mundo,
perdendo apenas para a Rússia, que tem grande parte dessas áreas
impróprias para agricultura devido às baixíssimas temperaturas
registradas no país. Mas também reconheceu que o setor agropecuário
cometeu erros. "Queremos corrigir esses erros, de acordo com a
ciência, com a pesquisa, e não como alguns querem", afirmou. A
presidente da CNA criticou os debates isolados e
generalizações feitas por muitas organizações não governamentais ambientais, que fazem
"deboches" oferecendo, por exemplo, "troféus motosserra" a
algumas lideranças na discussão sobre uma nova legislação
florestal para o país, e revelou que mesmo entre os produtores rurais é muito
difícil chegar a um consenso.
O ex-ministro
Paulinelli manifestou seu entusiasmo com a integração
lavoura-pecuária-florestas, boa para o meio ambiente e também para
o produtor rural. Ele criticou, entretanto, a atuação do Estado,
que não tem um modelo de crédito rural. "O seguro rural, definido
na Constituição, até hoje não foi criado", afirmou. Sem seguro
para o setor, ele disse que a sustentabilidade da agricultura fica
ameaçada, pois o produtor não tem a garantia de renda.
Gabeira, o último a
falar, observou que sempre em sua carreira política procurou
defender o que é estratégico para os agricultores
brasileiros, mas muitas vezes foi julgado como fazendo o contrário.
"Temos que nos aproximar da ciência, porque ela pode desfazer
esses desacordos", afirmou. Uma das causas do país não progredir
na área ambiental, segundo ele, se deve à "prisão ideológica"
de vários atores desse processo.
O deputado reforçou a
importância da discussão permanente."Muitas vezes, algo que é
considerado uma crítica, na verdade serve para situar o Brasil no
mercado estratégico mundial", disse ele, exemplificando o caso do
rastreamento do gado, que no ano passado gerou o embargo da carne
bovina brasileira pela União Europeia e, agora, está sendo
desenvolvido pelo governo e pelos pecuaristas.
A exigência de 80% de
preservação para a Amazônia é algo a ser discutido, segundo
Gabeira, sempre com a mediação da ciência. Ele ressaltou,
entretanto, que podem existir estudos com conclusões diferentes.
"Também não podemos ser ingênuos. Há temas em que a ciência
diverge, como é o caso das mudanças climáticas". Nesse caso, o
deputado diz que entram em ação, legitimamente, as forças
políticas. Para encerrar, disse que, o país deve não apenas
preservar a floresta, mas investir em pesquisas para torná-la
lucrativa.
- Agência Brasil


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