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 Filme francês retrata história semelhante à de Paula Oliveira
22 de março de 2009 11h57 atualizado às 12h00

Lúcia Jardim

Direto de Paris


Mais de um mês depois do surgimento do caso da brasileira Paula Oliveira, supostamente atacada por um grupo de neonazistas na Suíça no início de fevereiro, um filme relatando uma história repleta de pontos em comum chega às telas dos cinemas franceses.

Inspirado em um caso real que, assim como o da brasileira, mobilizou até o presidente da República em 2004, "La Fille du RER" ("A garota do RER", em tradução literal) tem no elenco a diva Catherine Deneuve, que desempenha o papel de mãe da jovem.

O roteiro não é uma reprodução fiel do que ocorreu no verão daquele ano em uma das linhas de metrô mais movimentadas - e mais violentas - de Paris, o RER D, que leva à periferia norte de Paris. O cineasta André Téchiné preferiu evitar expor a vida privada da moça.

Na vida real, Marie-Léonie Leblanc, 23 anos, afirmou ter sofrido um ataque antissemita enquanto viajava no sentido periferia-capital, acompanhada de seu bebê, na época com 13 meses.

Poucas horas após o registro da ocorrência policial, o caso se espalhou na imprensa assim que o ministro do Interior da época, Dominique de Villepin, seguido do próprio presidente Jacques Chirac, manifestaram suas revoltas diante da "terrível agressão".

Na versão sustentada por Leblanc à polícia, ela teria sido abordada dentro do metrô por seis homens com aparência árabe. A moça afirmou que o grupo teria arranhado seus rosto com facas, cortado mechas de seus cabelos, rasgado a sua blusa e desenhado suásticas em sua barriga. A agressão teria ocorrido após eles descobrirem, através de sua carteira identidade, evidências de que ela era judia.

As inscrições no corpo foram feitas com canetas esferográficas - e neste detalhe está mais uma coincidência entre o caso da francesa e o da brasileira: as cruzes feitas em Leblanc também foram desenhadas ao contrário, assim como as siglas encontradas no corpo da brasileira.

O bando ainda teria jogado o carrinho de bebê de Leblanc no chão, mas não tocou na criança. Passados 13 minutos e três estações de metrô, todos teriam descido, sem que nenhum dos cerca de 20 passageiros que ocupavam o vagão tivesse tido qualquer reação ao ataque.

A vítima então teria descido na estação seguinte e telefonado aos prantos à polícia. Poucas horas depois, naquela mesma sexta-feira, ela se deslocou à delegacia para formalizar a ocorrência. No dia seguinte, investigadores começaram a investigar o caso, em busca de pistas que pudessem levar aos agressores. Enquanto isso, um exame no corpo da moça constatou agressões leves.

Naquela tarde de sábado, a notícia chegou aos ouvidos da agência de notícias AFP, que a enviou para todos os seus assinantes. Em um primeiro momento, no entanto, nenhum veículo deu ênfase ao fato.

Contudo, tudo mudou à noite, quando um comunicado do ministro do Interior condenando o ataque chegou aos jornais, televisões e rádios franceses. De um instante ao outro, a história se transformou na grande manchete do dia.

Apenas vinte minutos mais tarde, é a vez de Jacques Chirac se manifestar, consolidando a polêmica. A partir de então, uma avalanche de comunicados vindos de todos os ministérios, partidos políticos ou organizações baixou nas redações francesas.

"Desde o início, eu achei a história estranha. Mas a partir do momento em que ministros e o próprio presidente a dão credibilidade, parece que não há mais nada que a imprensa possa fazer a não ser cobrir o acontecimento", lembra Thierry Portes, um dos jornalistas que participou da cobertura pelo jornal Le Figaro.

"Interroguei a polícia e eles me disseram que, naquele momento, só tinham o testemunho da menina. Mais nada. Não haviam encontrado sequer uma única testemunha. Achei tudo muito vago, mas o diretor da redação dizia: 'Nós estamos cobertos pelo Chirac'. A própria polícia não parecia dar crédito à moça", lembra Portes.

Foi justamente a suposta indiferença dos passageiros ao ataque que levantou as primeiras suspeitas dos investigadores em relação à história de Leblanc. Afinal, como um ataque de 13 minutos passaria despercebido?

No dia seguinte, domingo, a disputa por testemunhas do caso é travada entre policiais e jornalistas. Nenhum dos lados consegue encontrar ninguém que sustente a versão da jovem. Enquanto isso, a história provocava cada vez mais indignação na mídia.

Jovem confessa a mentira e pede desculpas

Surpresa com o escândalo que havia provocado, a moça acabou confessando que havia inventado a história. Ela disse que havia machucado o seu próprio rosto e desenhado em si mesmo as suásticas. Nem mesmo a informação de que ela era judia era verídica.

Em um depoimento gravado de costas, ela pediu desculpas aos franceses. No entanto, seu arrependimento não foi suficiente para evitar que fosse condenada a quatro meses de prisão pelo crime de denúncia de delito imaginário.

Na mídia, a moça ficou conhecida como "a mitomaníaca do RER D", depois que a polícia descobriu e divulgou que ela havia prestado cinco queixas policias em menos de três anos - todas seriam relatos falsos.

"Não sei se a imprensa aprendeu a lição, mas, francamente, acho que se uma história semelhante acontecesse de novo e os governantes mais uma vez adotassem a versão da suposta vítima com tanto ardor, mais cedo ou mais tarde o escândalo seria novamente formado", analisa o jornalista.

Independente do que poderia acontecer no futuro, os jornais tiraram do ar qualquer menção ao caso. Buscas sobre assunto nos arquivos dos principais veículos franceses não encontram nada. Na internet, alguns endereços que continham cópias de notícias da época deram lugar a um aviso de que a página fora retirada do ar por "divulgação de notícia inverídica".

No filme, que estreiou nas telas francesas na última quarta-feira, a vida privada de Leblanc é preservada. Na trama, ela é solteira e não tem filhos, ao contrário da verdadeira. Além disso, tem uma mãe protetora - no depoimento de desculpas, Leblanc tinha afirmado que havia inventado a mentira para chamar a atenção da família.

O diretor não almeja questionar a atitude da jovem, mas sim desvendar as angústias e a ingenuidade dela, que na vida real jamais deu entrevistas à imprensa. Sua mãe, ao contrário, declarou na época que estava "terrificada" com a farsa e desejava que a filha fosse internada em uma clínica psiquiátrica.

Mais do que relembrar a história aos franceses, o filme pretende questionar a criação da inconsciência coletiva, o escândalo na mídia e o papel dos políticos na supervalorização do caso, além de abordar o problema do racismo na França.

Especial para Terra