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Polícia Civil não investiga em SP, dizem sindicatos

10 de agosto de 2008 17h27 atualizado às 19h03

As entidades ligadas aos investigadores, agentes, escrivães e delegados da Polícia Civil de São Paulo reconhecem que a greve marcada para a próxima quarta-feira é a única maneira de abrir as feridas e expor à população o sucateamento da categoria. O grupo afirma que na maioria das cidades paulistas os policiais estão desviando a função e deixaram muitas vezes de investigar os crimes.

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O presidente do Sindicato dos Investigadores de Polícia do Estado de São Paulo (Sipesp), João Batista Rebouças, enfatiza as escoltas de presos que desviaram a função dos investigadores. "Nós viramos 'babá de preso' e pelo jeito foi criada uma polícia carcerária e ninguém nos avisou." Para Rebouças, o governo mascara as ocorrências, por isso deixa de divulgar o índice de crimes esclarecidos.

Ele sugere a Secretaria de Segurança Pública (SSP) que divulgue o quadro de crimes esclarecidos no Estado. "Os resultados são muito ruins e isso pega mal." Rebouças explica que somente algumas unidades policiais, entre elas, os grupos especializados da capital, possuem equipamentos e tempo para investigar os crimes que geram repercussão. O caso da menina Isabela, por exemplo, mereceu atenção de centenas de policiais e peritos. "É tudo propaganda", diz o sindicalista.

Rebouças fala que o sonho da categoria é tornar-se como a Polícia Federal (PF), que, depois de greves e manifestações, conseguiu melhorias salariais, reestruturação da carreira e equipamentos modernos de investigação. "A polícia está desmotivada porque o governo não investe e, hoje, se não é a prefeitura, algumas cidades do interior não teriam sequer uma sede."

Já o presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp), Sergio Marcos Roque, também destaca a falta de infra-estrutura. "Não queremos só salário e sim a reestruturação da polícia porque falta gente e quem está trabalhando sofre os desvios de função com a escolta de presos", diz o delegado reconhecendo uma situação de crise.

Em várias cidades do interior de São Paulo, a situação é semelhante. Em Araraquara, por exemplo, a Polícia Civil vive situação limite. Temendo represálias, os policiais só aceitam falar sob anonimato. "Faz muito tempo que eu não apuro nada porque virei babá de preso. Nem ler os BOs (boletins de ocorrência) eu leio", diz um investigador.

Alguns apontam ainda mais. O máximo que é feito é um contato com as vítimas nos casos mais graves. Furtos comuns e de veículos não são investigados há meses. Os roubos só merecem atenção quando geram repercussão. Já os homicídios e o tráfico de drogas são os únicos com atenção especial.

E ainda existem situações embaraçosas. "Pedi para uma pessoa certa vez um computador e, desde então, qualquer coisa que ela precisa vem até mim e preciso sempre dar muita atenção para acabar não sendo chamado de corrupto", diz um policial que sentencia. Uma escrivã afirma trazer materiais de escritório da própria casa.

O Grupo de Operações Especiais (GOE) anunciado como uma nova "tropa de elite" de Araraquara começou a treinar, mas, agora, pela falta de tempo e sem o restante dos equipamentos necessários, entre eles, o capacete balístico, o grupo existe somente no papel.

Para os sindicalistas, a greve marcada para a próxima quarta-feira, dia 13, vai mostrar os problemas da instituição. Entre as propostas está a reposição salarial dos últimos cinco anos, que seria de 58% das perdas, além da reestruturação das carreiras acabando com algumas funções de assistentes, integrar as gratificações no salário e garantir as mesmas vantagens para os ativos e aposentados.

Secretaria de Segurança
Sobre a proposta de greve, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) não se manifesta. Em nota, a Secretaria de Gestão Pública rebateu as declarações das entidades dizendo que houve sim conversas e que "não é verdade que os policiais civis não tiveram nenhum aumento nos últimos anos. A folha de pagamento da Secretaria de Segurança Pública, de 1998 a 2008, teve uma variação positiva de 117%. No mesmo período, o número de servidores da pasta cresceu 12,7%".

Com relação aos rendimentos dos policiais civis, a média paga no Estado de São Paulo é compatível com a de outros Estados, segundo a pasta. Em 2007, o governo propôs, e a Assembléia Legislativa aprovou leis complementares que contemplam diversas reivindicações das entidades que representam a Polícia Civil e outras carreiras que compõem a SSP (incorporações de gratificações e valorização da carreira) e que tiveram um impacto de mais de R$ 500 milhões na folha de pagamento.

O mesmo documento descreve um estudo preliminar realizado pela Secretaria de Gestão Pública aponta que o atendimento às reivindicações apresentadas pelos policiais civis teria um impacto de cerca de R$ 7 bilhões por ano, o que significaria dobrar a folha de pagamento de toda a Secretaria de Segurança Pública. Apesar disso, o governo afirma que avaliará as questões.

Redação Terra