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PCC decide permitir que integrantes deixem facção

22 de junho de 2008 13h09 atualizado às 13h42

Pela primeira vez desde que surgiu nas prisões paulistas, no início da década de 1990, a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) permite que seus integrantes deixem a facção sem sofrer retaliações. A informação consta em um salve - carta endereçada a seus participantes -, apreendida em uma penitenciária no interior do Estado. Antes disso, os integrantes eram proibidos de deixar a facção, onde deveriam permanecer até o fim da vida, pois o abandono era punido com a morte.

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A carta também traz outras novidades: a facção passou a punir seus "padrinhos" (homens de confiança do primeiro escalão do PCC que recrutam novos integrantes para a facção), decretou perseguição aos homossexuais e aumentou as regras de punição aos integrantes.

"Este ano estamos iniciando uma nova era na família, será o ano da liberdade e da responsabilidade. Se alguém achar que está muito pesado é só entrar em contato com a sintonia e pedir para sair, mas saiba que será sem volta, que faça sua caminhada tranqüila, mas que não venha nos trazer problemas", diz o salve, que tem data de 1º janeiro, mas chegou às mãos das autoridades do sistema prisional só neste mês.

Apesar da manifestação da cúpula do PCC, o que se percebe dentro dos presídios, conforme declarações de agentes ouvidos pela reportagem, é que poucos deixaram as fileiras da facção até agora. "Não percebemos nada disso, mesmo porque quem seria louco de dizer que saiu do PCC aqui dentro", disse um agente da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, onde estão detidos os principais líderes do PCC, entre eles Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.

Em outros presídios, os agentes também disseram não ter notado diferença. "Se a facção está perdendo militantes, ela está escondendo isso muito bem", contou outro agente.

Fora das celas, a liberação animou quem quer deixar o PCC: "quem sabe agora eles param de me perseguir", disse M. A. R., 34 anos, que cumpre prisão em regime semi-aberto. Condenado por tráfico, M. diz que é obrigado a pagar um dízimo, cujo valor não quis declarar, à facção. "Já paguei demais e não quero pagar mais. Quando fui preso com 500 g de cocaína que pertencia ao partido (como os presos denominam o PCC), tive de pagar mais de R$ 5 mil", contou M., que cumpre pena de cinco anos.

"Acertei com eles e estou querendo deixar essa vida, eles prometeram que vão me deixar sair. Quando sair, vou sumir, para ninguém me achar", disse M., que trabalha durante o dia na limpeza de ruas de uma cidade do interior de São Paulo.

"Isso serve para a gente separar quem é mesmo do partido e quem está usando o partido só para fazer ponte ou se beneficiar", disse J. R. A., 26 anos, que atua como sintonia numa cidade da região noroeste do Estado. Sintonias são os líderes da facção, que fazem a ponte entre os militantes e a cúpula.

"O problema é que quando chegava na hora de assumir o crime na hora que precisava, o 'vacilão' fugia da cadeia, e muita 'treta' deu errada por causa disso", acrescentou. Por isso, segundo ele, a cúpula da facção definiu as mudanças para filtrar seus integrantes.

Redação Terra