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Rio: repórteres são torturados por milícia em favela

31 de maio de 2008 19h14 atualizado às 21h20

Um grupo de repórteres do jornal O Dia que morou na favela do Batan, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro para investigar a atuação das milícias no local, foi seqüestrado, torturado e mantido em cárcere privado em um dos barracos usados como quartel-general dos criminosos. As milícias são grupos formados por policiais militares, na ativa ou aposentados, bombeiros e, em alguns casos, até ex-traficantes que cobram pela segurança dos moradores e assumem o controle de outras atividades ilegais.

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O interrogatório e as torturas duraram sete horas e meia. A equipe foi submetida a socos e pontapés, choques elétricos, sufocamento com saco plástico, roleta-russa, tortura psicológica e todo tipo de situação vexatória.

Em um dos intervalos entre as sessões de agressões, a equipe identificou o barulho de sirenes iguais às das patrulhas policiais rondando o cativeiro. Mas os homens que chegavam ao local, em vez de socorrer as vítimas, eram solidários aos torturadores.

O cativeiro chegou a ter cerca de 20 milicianos, entre torturadores, incentivadores e espectadores coniventes. As vítimas foram libertadas depois de os criminosos terem passado todo o tempo garantindo que elas seriam torturadas até a morte. A condição seria manter segredo sobre a sessão de agressões.

O crime cometido contra a equipe aconteceu no dia 14 de maio. A cúpula da Segurança do Estado do Rio foi notificada. A decisão de esperar esse tempo para trazer a história à tona foi tomada para que as investigações policiais não fossem prejudicadas e para garantir a segurança das pessoas envolvidas.

Nota do Jornal
Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal O Dia foram seqüestrados e torturados pela milícia da favela do Batan, em Realengo, na zona oeste do Rio, na noite de 14 de maio. A equipe fazia uma reportagem sobre a vida de moradores em regiões controladas por milicianos, conforme relata em detalhes matéria na edição deste domingo, 1º de junho, de O Dia.

Os três profissionais estão a salvo, em bom estado de saúde, em local seguro, e vêm recebendo irrestrito apoio da empresa, incluindo acompanhamento psicológico.

O fato, ocorrido há duas semanas, só foi divulgado agora para garantir a integridade física dos envolvidos.

O governador Sérgio Cabral e as autoridades policiais do Estado do Rio foram informados e estão acompanhando atentamente o caso. A investigação está a cargo do delegado Cláudio Ferraz, titular da Draco, que tem tido uma conduta exemplar.

O Dia reitera sua confiança no trabalho da polícia e tem a convicção de que os bandidos, que usam a farda para cometer crimes, serão presos e punidos na forma da lei.

Tortura
No dia 15 de maio, moradores da favela convidaram o fotógrafo e o motorista da equipe para uma cerveja no largo do Chuveirão. A repórter ficou em casa.

No largo do Chuveirão, local de maior concentração da favela, o fotógrafo e motorista foram rendidos por dez homens armados, usando toucas ninja para cobrir o rosto. Um dos carros usados no seqüestro foi o Polo vermelho placa KPB 4592, veículo de "policiamento" da milícia local.

Os bandidos algemaram os dois integrantes da equipe e os mostraram a cerca de 30 moradores, que, assustados, saíram de suas casas para ver o ocorrido. Os criminosos tentaram obrigar a população a linchar a equipe, mas não foram atendidos e acabaram seguindo com a dupla e um morador que os acompanhava até a casa que havia sido alugada pelos repórteres, na rua Alfredo Henrique.

Ao abrir a porta, a jornalista foi rendida com arma na cabeça por sete homens. Os bandidos deram voz de prisão, como se fossem policiais exercendo a lei. "Você é do jornal O Dia e está presa por falsidade ideológica", disse o mascarado conhecido como "01", que lideraria a milícia local.

A repórter sentou com o rosto na parede, enquanto dois homens começavam a sessão de tortura que só acabaria dali a mais de sete horas. A jornalista viu uma arma ser encostada em sua cabeça para, em seguida, um dos homens rodar a caixa de bala e acionar o gatilho duas vezes em uma roleta-russa.

Enquanto isso, outros cinco bandidos reviravam a casa atrás de câmeras escondidas ou escutas. Nada encontraram, mas saquearam pertences e dinheiro da equipe.

A repórter teve a cabeça colocada em uma sacola plástica e foi obrigada a descer as escadarias da casa alugada até chegar ao carro, onde já estavam algemados o fotógrafo, o motorista e um morador da favela que os acompanhara à festa.

Os milicianos tentaram colocar um integrante da equipe na mala do carro, mas desistiram, pois o veículo tinha kit-gás. Algemados e feridos, os quatro seguiram amontoados no banco de trás do carro da reportagem até o cativeiro.

O carro percorreu longo caminho e deu volta em um largo próximo a um motel. Durante o caminho, eles esfregavam as armas nos rostos das vítimas e descreviam uma futura morte trágica para a equipe.

Os criminosos conversavam pelo rádio todo o tempo. Um carro seguia na frente, fazendo o que chamavam de "varredura" do terreno. Só depois, o automóvel de trás seguia.

O chão úmido de cimento grosso foi o destino dos quatro depois de uma sucessão de socos, chutes e tapas. Apesar de a equipe de O Dia tentar informar que o morador da favela nada sabia sobre a identidade do grupo, ele também foi espancado.

Durante a tortura era possível ouvir alguém tocando clarinete nas redondezas. Uma rádio evangélica foi sintonizada para abafar o barulho do espancamento.

A execução do grupo seria decidida por um "coronel" que estava a caminho. Os espancamentos eram entremeados por longos discursos. "Existem muitos policiais corruptos, mas nós não somos corruptos. A gente se mata de trabalhar aqui, leva tiro de vagabundo para vocês chegarem e estragar o projeto social que estamos fazendo. Nós não somos bandidos", dizia um dos milicianos.

O "Coronel" chegou. Também se falava na presença de um "comandante". Mais torturadores os acompanhavam. Um deles disse uma frase mostrando que conhecia a equipe do jornal de outro ponto da favela.

Neste momento, a casa tinha pelo menos 20 homens. Choques elétricos e sufocamentos com sacos plásticos passaram a ser aplicados até o desfalecimento. Para acordar as vítimas, davam socos e pontapés. Depois, eles foram levados para quartos separados.

Os milicianos contavam detalhes sobre a vida pessoal dos reféns. Repórter e fotógrafo foram obrigados a fornecer senha de e-mails para que fosse feita uma varredura no que havia sido passado de informação para a redação.

A descoberta dos relatórios enviados para o jornal fez com que os agressores redobrassem o castigo. Ali, eles souberam que tinham sido realmente identificados: textos e fotos mostravam viaturas oficiais do Batalhão de Policiamento de Vias Especiais (BPVE) circulando livremente na favela e homens fardados conversando tranqüilamente com policiais à paisana.

O destino da equipe foi decidido aproximadamente às 4h, quando os seqüestradores, tal como juízes, anunciaram o veredicto: iriam libertar as vítimas. Às 4h30, a equipe foi solta na avenida Brasil.

As vítimas não arriscaram procurar uma delegacia para registrar queixa ou fazer corpo de delito. Havia o medo de que outros policiais estivessem envolvidos com o bando do Batan.

O Dia
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