De acordo com pesquisa do Sindicato Estadual dos Profissionais de Ensino (Sepe-RJ), do total de 1.060 escolas municipais do Rio, pelo menos 107 (10,09%) estão em áreas de risco, ou seja: mais de 63 mil crianças vivenciam o terror no seu dia-a-dia. Para elas, o espoucar de fogos de artifício no meio das aulas, avisando que uma batalha vai começar, é comum e já não causa apreensão. Medo mesmo só quando um bandido invade a escola. Nesta hora, o melhor é correr.
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"O poder não liga para a escola. Nem a polícia, nem a Secretaria de Segurança, avisam quando vão invadir a Vila Cruzeiro", reclama M., professor que trabalha na região e que já viveu momentos de apreensão na comunidade. "Quando ficamos sabendo, são os próprios traficantes que nos avisam."
Mês passado, um incidente ocorrido na comunidade causou indignação entre os educadores. Uma escola municipal foi invadida pela PM, durante troca de tiros com bandidos. A presença de professores e alunos em horário letivo não impediu o tiroteio de quase duas horas. Segundo funcionários, a porta da escola acabou servindo como escudo e base contra os tiros dos traficantes. Nesse dia, não houve tempo de liberar crianças e todos tiveram que se proteger nas dependências da própria escola.
"Quando dá tempo, liberamos as crianças e os responsáveis vão buscar", relata M. "Mas nesse dia foi tudo muito rápido. Nós vimos o caveirão passar e quando a polícia chega, o melhor a fazer é esperar".
Reféns da violência
Para Paulo Roberto de Oliveira, professor e diretor do Sepe, a política de confronto do Estado contra o tráfico faz dos moradores reféns da violência nestas comunidades.
"O Estado não tem condições de manter a segurança das escolas. E assim, não há garantia para pais, funcionários e alunos", afirma Paulo Roberto, ressaltando que, ano passado, uma escola da região foi alvo de uma granada atirada por traficantes.
Mesmo com muitos relatos de falta de seguranças nas instituições educativas localizadas em zonas de risco, a Secretaria de Segurança avisa que os confrontos vão continuar: "é impossível para o Estado fechar os olhos e permitir que o atual controle da criminalidade sobre determinadas áreas da cidade continue. Desta forma, as polícias vão continuar agindo, em busca do resgate da verdadeira cidadania destas pessoas de bem, que durante anos viveram sob o jugo de criminosos", informou a assessoria, por e-mail. A Secretaria explicou que não há nenhuma operação que não tenha sido planejada previamente, pautada em investigações minuciosas e informações seguras.
Bala perdida na Vila do João
Há mais de 20 anos servindo ao municipio, S. não esquece quando um aluno foi atingido por uma bala perdida no pátio da escola, durante o recreio, na Vila do João, no Complexo da Maré, zona norte.
"Todo mundo ficou muito abalado, alunos e professores. A diretora também não conseguiu superar e pediu afastamento logo após o acidente", lembra S. "Foi muito traumático, mas a vida continua."
Algumas operações na Vila Cruzeiro interrompem as aulas por dias. Em abril, após um desses confrontos, M pediu aos alunos de uma classe do ensino fundamental que fizessem trabalhos e desenhos sobre a violência que os cercam. De acordo com o professor, nenhum deles considera a rotina de trocas de tiros normal. Mas mesmo assim, após as batalhas, a rotina de aulas continua.




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