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Detentos formam facção para extorquir por telefone

11 de maio de 2008 07h45 atualizado às 07h51

Eles não controlam favelas, não são vistos empunhando fuzis nem negociam grandes quantidades de drogas. Mas, rejeitados pelas facções do tráfico, passaram a explorar uma modalidade de crime que amedronta as famílias no Rio: o disque-extorsão ou golpe do falso seqüestro. Autodenominado "Povo de Israel", apesar de não ter qualquer vínculo com religiões, esse grupo, composto em grande parte por detentos do sistema penitenciário do Estado, já reúne perto de dois mil integrantes. Sem outra fonte de renda, são eles os autores, segundo estimativas de agentes da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), de 90% dos golpes por telefone no Estado.

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Em comum, os detentos que se juntam à nova facção têm o fato de pertencer ao 'seguro', como é chamado o conjunto de presos que, por questões de segurança, não pode ser colocado em pavilhões com criminosos de organizações como Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) ou Amigos dos Amigos (ADA). Não é à toa que, entre os chefões dessas quadrilhas, os 'renegados' do Povo de Israel, ou PVI, são conhecidos como Inimigos dos Inimigos.

A preocupação do sistema com o Povo de Israel é tão grande que, no fim do ano passado, os internos que estavam em unidades do Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, foram todos transferidos para a unidade Alfredo Tranjan, mais conhecida como Bangu 2, considerada de segurança máxima. "Para tentar acabar com o disque-extorsão, concentramos esses presos em Bangu 2, onde existe bloqueador de celular. Não sabemos ao certo qual a origem do nome do grupo, mas o fato é que muitos querem aparecer. Nós não o reconhecemos", explica o subsecretário de Unidades Prisionais da Seap, coronel Francisco Spargolli.

Quadrilhas

Investigações feitas pela Polícia Civil e pela Coordenadoria de Inteligência do Sistema Penitenciário (Cispen) desbarataram no ano passado várias quadrilhas especializadas em disque-extorsão que eram ligadas ao PVI. De dentro das cadeias fluminenses, os presos praticam extorsões até contra vítimas de outros Estados, como Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. O método é sempre o mesmo: eles ligam para as vítimas, simulam estar com algum parente e exigem dinheiro para liberá-lo. Muitas pessoas acreditam e caem no golpe. Outras facções, como o CV, não permitem essa prática nas cadeias.

No ano passado, a vendedora Maria da Conceição Francisco, 64 anos, que morava em Belo Horizonte, foi uma das vítimas desses criminosos. Ela morreu após sofrer um enfarte ao receber um telefonema de um presídio do Rio em que o preso falou que sua neta de 15 anos havia sido seqüestrada.

Também no ano passado, os representantes comerciais Luiz Fernando Mazzini, 62 anos, e Doralice Aparecida Granchi Mazzini, 57 anos, vieram de Pedreira, no Interior paulista, para São João de Meriti, na Baixada Fluminense, para pagar um resgate pelo falso seqüestro de sua filha. Presos do Rio ligaram para o casal e exigiram R$ 50 mil. Os comerciantes pagaram a quantia com dinheiro e jóias, mas só descobriram que se tratava de um falso sequestro depois de entregar os bens. Os detentos costumam usar o dinheiro obtido nas extorsões para comprar drogas e revender nos presídios.

Origem

Autor de um levantamento sobre o PVI, o advogado Cesar Caldeira, membro do Conselho Penitenciário, rastreou o crescimento do grupo, que tinha somente 300 adeptos quando foi criado, em 2004. "Há a suspeita de que muita gente está saindo do Comando Vermelho por causa da opressão imposta pela facção", afirma.

Segundo agentes penitenciários, há várias versões para o nome da facção. De acordo com o advogado Cesar Caldeira, o nome teria surgido dias antes de uma rebelião no Presídio Ary Franco, em 2004, quando oito detentos foram mortos. De acordo com ele, na época, o preso Salvino Ricardo Marçal, apontado como um dos chefes do grupo, jogou uma Bíblia para o alto e, quando ela voltou para suas mãos, procurou uma palavra no texto. Encontrou o termo Povo de Israel. Dias depois, ocorreu o motim que ficou conhecido como "matança dos oito", que marcou o início da nova facção.

Após a rebelião, internos do recém-criado Povo de Israel pediram o 'seguro' no Presídio Hélio Gomes, no Complexo da Frei Caneca, visando a formação de outra base territorial para a facção. Além de Inimigos dos Inimigos, o grupo também é chamado de Portal 001, código referente ao 'seguro'.

O presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj), Sergio Niskier, classifica como "deplorável" a atitude dos bandidos de usar o nome de Israel para uma organização criminosa. "Não acreditamos que isso manche de alguma forma a nossa comunidade. Essas pessoas não são gente de bem, são criminosos. Ainda assim, é totalmente reprovável usar o nome do país e um termo da Bíblia, algo que vem de Deus, para uma facção criminosa", critica.

Ajuda fora da cadeia

Para ter acesso ao dinheiro das extorsões, os integrantes da nova facção usam contas bancárias de parentes ou conhecidos, que indicam para depósitos das quantias obtidas com o crime. A exemplo do CV, o PVI também conta com os chamados advogados pombos-correio, que levam recados dos presos para cúmplices fora da cadeia e vice-versa.

O disque-extorsão, no entanto, não é o único motivo de preocupação da Seap. De acordo com agentes penitenciários, os membros do PVI fazem ameaças e agridem funcionários.

As duas últimas grandes rebeliões no sistema, em 2004 e 2006, no Presídio Ary Franco, em Água Santa, foram organizadas pelo grupo. Para os agentes, a violência teria uma explicação: a ausência de lideranças e de regras de conduta. "As outras facções têm lideranças. Se alguém planeja uma fuga, precisa de autorização do chefe da facção dentro e fora da unidade, o que facilita nosso trabalho da inteligência", afirma um agente.

"Algumas facções também não toleram agressões a funcionários, mas os presos do PVI estão sempre causando problemas", diz outro guarda penitenciário. O subsecretário Spargolli, no entanto, nega as agressões. Quem manda é a gente. Não tem essa de agressão", garante.

O integrante mais famoso do PVI é Anderson Gonçalves dos Santos, o Lorde, mandante do ataque ao ônibus da linha 350 (Passeio-Irajá) em novembro de 2005, quando cinco pessoas, entre elas uma criança de 1 ano, morreram carbonizadas após o veículo ter sido incendiado em Brás de Pina. Ameaçado pelo CV, Lorde pediu 'seguro' e se aliou ao PVI. Hoje, está no Presídio Ary Franco.

Internet

Lorde é um exemplo de detento rejeitado pelas facções do tráfico, mas aceito no PVI. Integram também o grupo estupradores, autores de atentado violento ao pudor ou mortes e agressões de grande repercussão, mal vistos pelos chefões do tráfico. Homossexuais e travestis, também vetados por CV, TCP e ADA, são aceitos pelo grupo de renegados que deu origem ao PVI.

A nova facção é citada também no site de relacionamentos Orkut. Em um tópico na comunidade Presídio Ary Franco, um internauta, que se diz ex-integrante do grupo, faz um comentário sobre o PVI: "O Povo de Israel é um povo sofrido, mas que nunca desiste da luta. 001 para sempre. Acabei de sair de lá, deixei muitos amigos e espero que geral saia logo. Se quiser conhecer o 001, é só ir para a cadeia, somos uma selva e a tendência é crescer".

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