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Dengue: excesso de repelente causa danos hepáticos

21 de abril de 2008 04h28

Nunca se usou tanto repelente tão intensamente. Com a epidemia de dengue, as vendas de produtos para manter insetos como o Aedes aegypti dispararam. Segundo o Instituto Nielsen, o mercado de repelentes cresceu 87% entre dezembro de 2007 e janeiro de 2008, em comparação com outubro e novembro do ano passado. Essa febre, porém, é um tiro no escuro, pois o princípio ativo da maioria das marcas vendidas no Brasil, o Deet (N, N-dietil-meta-toluamida), de acordo com especialistas ouvidos pelo JB, causa danos hepáticos e alergias.

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"Cerca de 77% do Deet são absorvidos através da pele e vão para o fígado, podendo ocasionar lesões em indivíduos mais suscetíveis", afirma o diretor do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, Mário Alberto Cardoso Neto.

O virologista da mesma universidade, Davis Ferreira, resume:

"Está um salve-se quem puder na cidade. Esse uso em larga escala pode ter conseqüências ruins, pois não temos antecedentes. Não se sabe aonde vai dar."

Artigo publicado no Science Journeys, por Mohamed Abou-Donia, farmacologista da Duke University in North Carolina, diz que ainda não foram concluídos os estudos sobre a Síndrome da Guerra do Golfo, que provocou problemas neurológicos e motores em soldados americanos. Especula-se que agentes químicos teriam causado as enfermidades, e entre os suspeitos está o Deet, presente em concentrações de até 95% nos repelentes ministrados às tropas no Iraque.

Saída natural
Terapeuta, clínica geral e especialista em medicina chinesa, Márcia Luvizoto apresenta alternativas naturais:

"Calça e meia compridas não são tóxicas; telas nas janelas, idem. Aconselho as pessoas a fazerem o teste com o repelente, aplicando numa pequena área e esperando 24 horas. A pele é o maior órgão do corpo humano, absorve tudo rapidamente. Mas estamos naquela situação: se correr o bicho pega, se ficar, ele come."

Márcia diz que só usa repelente infantil e recomenda cuidado com crianças de 2 a 7 anos.

"Elas não têm noção, levam a mão à boca e aos olhos. A longo prazo, não sabemos o que essa toxidade pode gerar."

A médica homeopata Vera Alonso afirma que o abuso dos repelentes pode causar alergias e intoxicação. Para ela, o foco da questão foi desviado e o que deveria ser um paliativo ocasional acabou virando regra.

"O principal é o saneamento básico, o recolhimento do lixo, a educação da população", enfatiza.

O parasitologista Mário Cardoso Neto explica que o Deet age nas proteínas ligadoras de odor que o Aedes tem, principalmente nas antenas. Elas permitem ao mosquito detectar emanações de gás carbônico e butanona jogadas no ar pela respiração das bactérias que os seres humanos carregam na pele.

Com seu radar bloqueado, o mosquito não acha o homem.

"Mas isso é só uma atenuante, nosso inimigo é a larva", conclui.

Não faz mal
Cláudia Maia, diretora da Sociedade Brasileira de Dermatologia, desconhece intoxicações com repelente e afirma que a dosagem de Deet contida na maioria dos produtos comercializados aqui - entre 7% e 14% - não é perigosa.

"Mas não se pode usar toda hora", adverte.

A pediatra Isabella Ballalais, especialista em imunização, também diz que não há risco.

"O Deet não afeta o fígado e nenhum outro órgão, mas o repelente não deve ser uma rotina."

O infectologista e dermatologista Bernardo Gaya é outro que não enxerga riscos.

"A concentração dos princípios ativos do Deet encontrada nos produtos brasileiros é baixa e não compromete a saúde", tranqüiliza, apesar das ressalvas. "Devem ser seguidas as instruções de uso de cada fabricante. Crianças até 2 anos devem usar mosquiteiros."

Jornal do Brasil
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