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Rio: mercado negro cresce e movimenta R$ 88 mi

02 de setembro de 2007 02h59

Parceiro das drogas no crime organizado, o tráfico de armas cresce nas fronteiras do Brasil com a Bolívia e o Paraguai na mesma proporção que a cocaína invade o Rio de Janeiro. O par é perfeito e atua em duas frentes (com vendedores distintos), mas com o mesmo comprador: os 'donos' dos morros e favelas do Rio e de São Paulo. Um comércio que movimenta no Brasil perto de R$ 19 bilhões por ano, segundo os dados da Organização das Nações Unidas (ONU), e no Rio de Janeiro chega aos R$ 88 milhões.

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E o mercado negro vende todos os tipos de armas. Desde o antigo revólver calibre 38 aos sofisticados fuzis e carabinas. Dona de uma casa tradicional de Puerto Suares, na Bolívia, M. explica que é tudo legal. "Aqui se pode comprar o que quiser. A polícia deixa, é liberado. Essa escopeta custa R$ 400. É novinha. Dou nota fiscal", diz ele, apressado em tentar fechar o negócio.

A loja tem dois compartimentos. Na frente, funciona um bazar com suvenires. Nos fundos, depois de ultrapassar duas portas, há um local reservado às estantes com armas e munição. O acesso é restrito. Mas M. avisa que é só para segurança. Não é esconderijo. "Os policiais sempre vêm aqui. Eles também compram munição e indicam quem vem de fora", detalha a comerciante, que avisa sobre o perigo de entrar com as armas no território brasileiro. "Lá é melhor ter cuidado. É proibido. Mas na fronteira passa fácil. Ninguém olha", revela.

Com a mesma desenvoltura, o ambulante Fernandez tenta na rua principal de Ped Na cidade de Puerto Suarez, uma escopeta nova é vendida por R$ 400. Na loja também são encontrados outros tipos de armamentos e munição dro Juan Caballero, na fronteira do Paraguai com o Mato Grosso do Sul, negociar munição e armas no comércio da cidade. E em plena luz do dia. Ele e vários camelôs anunciam em bom tom: "Viagra e munição... Vai aí?". É a senha para o interessado se aproximar e perguntar os detalhes do preço e a procedência. Uma caixa com 50 balas, calibre 7.62 (de fuzil), sai por R$ 80 e de pistola, por R$ 40.

"Se comprar cinco caixas, posso tentar um desconto", avisa Fernandez, para em seguida insistir freneticamente em pegar a mercadoria para acertar a venda e, cobrado, explica quem tem a mercadoria. "Vou pegar, pode esperar que vou lá pegar. Quem vende é o rapaz que trabalhava na casa de armas. Ela foi fechada pela polícia, mas ele vende por fora agora. É tudo novo", adianta.

Outro ambulante, Carlos, na mesma rua, é bem mais discreto e não divulga a fonte. Mas além da munição, oferece armas novas e usadas. "Fuzil é R$ 1 mil. Não é novo, não. É de segunda mão, mas está bom, foi reformado. Se quiser novo, é mais caro, sai por R$ 3 mil ou R$ 5 mil, dependendo do calibre. Mas leva o outro que está muito bom", adianta o camelô, que marcou a entrega da encomenda para uma hora depois, no estacionamento do Shopping China, a três quilômetros do Centro.

E diante dos casos recentes de ataques de trafi cantes a outros grupos, Carlos avisa que só trabalha com pessoas sérias. "O pessoal é de confi ança, aceita real sim. Pode deixar que você não será roubado no caminho para casa. Eles querem o cliente aqui sempre, não tem sujeira", promete.

Os carros roubados
Um outro comércio gigante anda juntinho com o mercado das drogas e armas: carros roubados. É impressionante a quantidade de veículos espalhados nas alamedas improvisadas sob as linhas de transmissão de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia.

São 10 mil carros, centenas de brasileiros e todos sem placas e documentação. Os veículos, como suspeita a Polícia Civil do Rio, foram roubados no Brasil e serviram como moeda de troca por armas ou drogas na Bolívia.

Os carros são negociados barato na Bolívia. Um Station Fox, ano 2007, avaliado no Rio em R$ 40 mil, vale US$ 4 mil (R$ 8 mil). E para legalizá-lo, basta pagar ao governo um tributo de B$ 2 mil bolivianos (R$ 571). "Pode ir para onde quiser: Bolívia, Paraguai, Argentina. Brasil não pode", adverte o vendedor escondendo o motivo: o veículo é roubado.

Brasil líder no ranking
O Brasil compra 70% das armas de fogo no Paraguai, o que lhe garante o primeiro lugar no ranking de tráfi co de armamentos da América Latina. De acordo com a Polícia Federal, o tráfi co de armas é o segundo em lucro na escala do crime organizado. Só perde para o comércio de drogas. A PF calcula que, para cada arma apreendida, outras 30 entram ilegalmente pelo país.

"O tráfico de drogas Rio- São Paulo recebe mais armas a cada dia. E o Rio tem uma particularidade, pois as armas mudam de lugar: traficantes da mesma facção as emprestam a comparsas de favelas amigas para atacar os rivais e a polícia", informa o delegado Vantuil Cordeiro, chefe da Divisão de Repressão ao Tráfico de Armas da PF.

A Polícia Civil aponta o Complexo do Alemão, em Ramos, como a favela com maior arsenal do Rio. E estima que lá existam entre 100 e 120 fuzis, além de granadas e outras armas de menor porte. A Rocinha, em São Conrado, e a Coréia, em Senador Camará, têm perto de 100 fuzis. f Não há discrição no comércio de armas. Enquanto no tráfi co o rótulo é de crime, fuzis, escopetas e revólveres são vistos como objetos de colecionadores e de proteção. Todos podem ser vendidos. O perigo maior é que os bandidos se aproveitem das facilidades, armem seus exércitos e ataquem inocentes cariocas.

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